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O
americano intranqüilo
John
Cheever, o minimalista que
radiografou a alma dos Estados Unidos
Moacyr
Scliar

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Ele
foi chamado de "o Tchecov americano" e, de fato, como o grande escritor
russo, o americano John Cheever (1912-1982) conseguia captar os aspectos
mais profundos da psicologia humana. Sua primeira narrativa foi publicada
muito cedo, em 1930, pouco depois de sua expulsão por indisciplina
da universidade. Com histórias que radiografavam a vida nos subúrbios
de classe média, Cheever conquistaria enorme reconhecimento. A
estréia no romance demorou um pouco mais, mas foi igualmente bem-sucedida.
Ocorreu em 1957, com A Crônica dos Wapshot,
que recebeu o prestigioso National Book Award e agora é lançado
no Brasil (tradução de Assef Kfouri; Arx Editora; 403 páginas;
42 reais). Trata-se de uma saga familiar, gênero bastante cultivado
no século XX e exemplificado por obras como Os Buddenbrooks,
de Thomas Mann, e Os Thibault, de Roger Martin du Gard. Diferente
desses escritores, porém, Cheever é um minimalista. Seu
objetivo não é traçar um grandioso painel da sociedade
americana. Mas ele chega a um resultado semelhante, colecionando tipos
humanos que vão do comum ao insólito, sempre retratados
de maneira fascinante.
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| John
Cheever:
família tradicional, alcoolismo e bissexualidade |
Como
nos primeiros contos de Cheever, o elemento autobiográfico desempenhou
um papel importante em A Crônica dos Wapshot. O escritor
pertencia a uma tradicional família da Nova Inglaterra, que sofreu
um abalo quando o pai, industrial, foi à falência em 1929
e tornou-se alcoólatra (como o próprio Cheever, mais tarde).
A mesma visão crítica que tinha do subúrbio
um lugar confortável, supostamente idílico, mas minado pelo
individualismo Cheever aplicou à Nova Inglaterra, o berço
da civilização americana. E o fez utilizando o legado puritano
do auto-exame, mitigado por uma bem-humorada e melancólica compaixão.
O
cenário inicial de A Crônica dos Wapshot é
a pequena e decadente cidade de St. Botholphs. Ali moram os Wapshot, cujas
raízes na região remontam a 1630. Leander é operador
do ferry-boat Topaze. Não é um grande emprego para quem
descende de lendários comandantes de navio, mas ele vai tocando
a vida com a esposa Sarah e os filhos Moses e Coverly. Junto a esse núcleo
familiar está a rica, excêntrica e dominadora prima Honora,
que é dona do Topaze, o que resulta em conflitos. Moses e Coverly
crescem, deixam a casa dos pais para começar vida própria
em Washington e Nova York, e a narrativa passa a girar em torno deles,
de sua luta para encontrar um lugar ao sol. Moses casa-se e vai morar
numa propriedade extravagante, lembrança de uma época em
que, diz Cheever, "havia mais castelos nos Estados Unidos do que na Inglaterra
do rei Artur". Coverly consegue um importante posto governamental, mas
tem problemas com a mulher, Betsey, sem falar numa tentação
homossexual que Cheever, ele mesmo bissexual, anuncia: "Qualquer leitor
desinteressado", escreve, "está convidado a pular o capítulo".
As passagens inusitadas sucedem-se no livro. Mas nenhuma é mais
curiosa do que aquela em que Leander Wapshot oferece seu testamento aos
filhos. Ele é uma espécie de paródia dos conselhos
que Polônio dá a Laertes na peça Hamlet, de
Shakespeare. Entre as instruções para a vida que Leander
oferece à sua prole estão, por exemplo, a de jamais usar
gravatas vermelhas e a de nunca dormir ao relento. Mas é no fim
do testamento que Cheever atinge o auge da ironia, com uma espécie
de resumo do que seria a tradição americana: "Mantenha-se
ereto. Admire o mundo. Aprecie o amor de uma delicada mulher. Confie no
Senhor".
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