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Os
fanáticos agem de novo
O mais recente ato dos terroristas
da Chechênia acaba sem surpresa:
com uma centena e meia de mortos
Reuters
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AP
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| O
presidente Vladimir Putin e a retirada dos feridos e mortos depois
do confronto na madrugada: cápsulas de gás para intoxicar os rebeldes
|
Do
ponto de vista dos 54 terroristas que invadiram o teatro do Palácio
da Cultura, em Moscou, na quarta-feira passada, fazendo mais de 700 reféns,
o desfecho do episódio, na madrugada de sábado, foi um sucesso.
Fanáticos do Islã, os rebeldes chechenos planejaram a ação
dispostos a sair mortos do local. A exigência que faziam ao governo
do presidente Vladimir Putin era impossível de ser atendida: retirar
imediatamente as tropas russas do território da Chechênia.
Durante as 57 horas que permaneceram com os reféns, eles só
fizeram armar bombas e preparar a resistência à invasão
que todo o planeta sabia que aconteceria em algum momento. Depois que
o combate terminou, descobriram-se diversos corpos de guerrilheiros ao
lado de pacotes de explosivos prontos para detonar ou envolvidos por eles.
O seqüestro no teatro foi feito por um comando suicida que pretendia
morrer espetacularmente em nome de sua fé mas sob o pretexto
de libertar seu país, ocupado por tropas russas desde 1999. Mesmo
assim, dois dos terroristas aproveitaram a confusão posterior ao
confronto para misturar-se aos seqüestrados sobreviventes e fugir
do local. Cinqüenta morreram e dois foram presos.
Como todos os confrontos anteriores entre russos e chechenos, este também
terminou num banho de sangue. O governo russo confirmou a morte de 67
reféns, mas agências de notícias informavam no sábado
que noventa deles perderam a vida durante a ação das forças
de segurança. Só 260 seqüestrados saíram andando
do local. Dos outros, mais de 100 chegaram aos hospitais em estado grave,
atingidos por tiros durante o confronto ou intoxicados pelo gás
usado pelas tropas russas para neutralizar os rebeldes chechenos no momento
da invasão do prédio. De acordo com as primeiras informações,
nenhum dos 75 estrangeiros, de catorze países, estava entre os
mortos. Também 25 crianças teriam escapado com vida.
AFP
 |
AP
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| Os
fanáticos dão entrevista antes da invasão e as
mulheres-bomba que morreram asfixiadas |
A peça em cartaz no Palácio da Cultura tratava da viagem
de um explorador russo ao Pólo Norte. Estava no segundo ato quando
o grupo terrorista interrompeu a apresentação e, apontando
fuzis, rendeu o público e os atores. Em seguida, os reféns
foram separados em grupos: um de estrangeiros, outro de crianças,
mais um de muçulmanos e assim por diante. Boa parte das crianças
e dos muçulmanos foi libertada logo nas primeiras horas da ação.
Os outros reféns foram instruídos a se manter sentados,
obedecendo a horários para ir aos banheiros. Alguns conseguiram
fazer contato com amigos e parentes, via telefone celular. Narravam que
a comida existente na lanchonete doces e sanduíches
esgotou-se rapidamente. A água para beber também acabou
depressa. Os terroristas então admitiram uma mediadora no local,
a jornalista Anna Politkovskaya, que é tida pelos guerrilheiros
chechenos como uma intérprete confiável de sua causa. Ela
pouco pôde fazer. Logo depois, alguns rebeldes fizeram disparos
fazer contato com amigos e parentes, via telefone celular. Narravam que
a comida existente na lanchonete doces e sanduíches
esgotou-se rapidamente. A água para beber também acabou
depressa. Os terroristas então admitiram uma mediadora no local,
a jornalista Anna Politkovskaya, que é tida pelos guerrilheiros
chechenos como uma intérprete confiável de sua causa. Ela
pouco pôde fazer. Logo depois, alguns rebeldes fizeram disparos
dentro do teatro, dando vivas a Alá.
O parlamentar russo Iosif Kobzon, enviado do governo para negociar com
os seqüestradores na quinta-feira, chegou a descrevê-los como
educados e até polidos, mas os comparou a nazistas devotados
fanaticamente a uma causa. Nesse mesmo dia, os rebeldes deram entrevista
a uma equipe de TV, apresentando suas exigências. Na tarde seguinte,
anunciaram que matariam dez reféns por hora, enquanto não
fossem atendidos. Às 2 da madrugada de sábado, começaram
a cumprir a ameaça, matando dois reféns. Foi quando o Exército
russo decidiu agir. Cápsulas de um gás cujo tipo não
foi divulgado foram atiradas para dentro do teatro. Elas levaram à
asfixia muitos dos terroristas, impedindo que chegassem a detonar as bombas
que carregavam, mas intoxicaram também a maioria dos reféns.
Médicos que atenderam os feridos relataram que dezenas de seqüestrados
morreram por causa do gás.
AP
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| A
última cena do combate: o corpo de um homem diante do teatro tomado
pelos terroristas |
De
acordo com testemunhas que acompanharam a retirada dos reféns,
vários dos mortos pareciam ter sido sufocados pelo próprio
vômito. O ministro do interior, Vladimir Vasilyev, disse que o uso
do gás era a única maneira de neutralizar as mulheres que
estavam com explosivos colados ao corpo e com os dedos nos detonadores.
Algumas dessas dezoito mulheres-bomba foram fotografadas depois, mortas,
sentadas na platéia do teatro. Pareciam, de fato, ter morrido na
iminência de acionar os detonadores de explosivos. Vestiam roupas
pretas, semelhantes a burcas, deixando apenas os olhos expostos. Todos
os homens do grupo invasor usavam máscaras, com exceção
de seu líder.
A Chechênia, uma área menor que a de Sergipe nas montanhas
do Cáucaso, proclamou-se independente da Rússia em 1991.
O governo de Moscou sempre se preocupou com o fato de o território
ser uma ponta-de-lança para a ação de muçulmanos
interessados em desestabilizar politicamente as outras nove repúblicas
e territórios russos localizados na área. De 1994 a 1996,
houve uma guerra contra os separatistas. Firmados alguns acordos
que nenhum dos lados cumpriu , o conflito acirrou-se e, em 1999,
o governo do então presidente Boris Ieltsin, cujo primeiro-ministro
era Vladimir Putin, promoveu uma investida impiedosa contra guerrilheiros
e civis. Nessa época, 100.000 soldados da Rússia foram mandados
para o território checheno. Os bombardeios sobre a capital, Grozni
que tinha 800.000 habitantes , foram tão intensos
que, ao final da investida, os estudos para a reconstrução
de cidades da Chechênia indicaram que ela simplesmente não
podia ser reerguida a preços razoáveis. Antes e depois,
ações terroristas marcaram a atuação dos chechenos.
Numa delas, eles mataram mais de 100 pessoas num hospital no sul da Rússia.
Noutra, ataques a bomba, concentrados em um período de três
semanas, produziram três centenas de cadáveres.
Acredita-se que os rebeldes tiveram ligações financeiras
com a Arábia Saudita. Hoje, aposta-se que por trás de suas
investidas estão Osama Bin Laden e a megaorganização
terrorista Al Qaeda, responsável pelos ataques às torres
do World Trade Center e ao Pentágono, no ano passado. Ao apoiar
o revide americano no Afeganistão às ações
de 11 de setembro, Putin conseguiu uma espécie de cumplicidade
para aumentar a pressão na Chechênia sem grandes protestos.
A primeira reação do presidente diante do ataque ao Palácio
da Cultura foi ligá-lo às ações do terrorismo
globalizado de Laden.
Um dos principais líderes terroristas chechenos, Arbi Barayev,
foi morto por forças russas em junho do ano passado. Seu sobrinho,
Movsar, de 23 anos, era o chefe do grupo que invadiu o teatro em Moscou
na semana passada. Acusado de planejar toda a ação, o presidente
rebelde da Chechênia, Aslan Maskhadov que está escondido
desde a invasão russa de 1999 , divulgou pela internet uma
mensagem atribuindo a ação a uma facção radical
de guerrilheiros que está fora de seu controle. "Rejeitamos o terror
como método de obter qualquer conquista", dizia essa mensagem.
Em um pronunciamento na televisão, ainda no sábado, o presidente
Putin pediu desculpas aos familiares das vítimas e considerou a
operação um sucesso, apesar das mortes entre os reféns.
"Salvamos centenas de pessoas e não tivemos baixas entre os soldados",
disse. Pelo histórico dos confrontos e atentados envolvendo guerrilheiros
chechenos, o mundo temia uma carnificina ainda maior. O governo de Putin
já anunciou uma nova operação na Chechênia,
agora para caçar suspeitos de terrorismo.
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