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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
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Os fanáticos agem de novo

O mais recente ato dos terroristas
da Chechênia acaba sem surpresa:
com uma centena e meia de mortos

 
Reuters
AP
O presidente Vladimir Putin e a retirada dos feridos e mortos depois do confronto na madrugada: cápsulas de gás para intoxicar os rebeldes

Do ponto de vista dos 54 terroristas que invadiram o teatro do Palácio da Cultura, em Moscou, na quarta-feira passada, fazendo mais de 700 reféns, o desfecho do episódio, na madrugada de sábado, foi um sucesso. Fanáticos do Islã, os rebeldes chechenos planejaram a ação dispostos a sair mortos do local. A exigência que faziam ao governo do presidente Vladimir Putin era impossível de ser atendida: retirar imediatamente as tropas russas do território da Chechênia. Durante as 57 horas que permaneceram com os reféns, eles só fizeram armar bombas e preparar a resistência à invasão que todo o planeta sabia que aconteceria em algum momento. Depois que o combate terminou, descobriram-se diversos corpos de guerrilheiros ao lado de pacotes de explosivos prontos para detonar ou envolvidos por eles. O seqüestro no teatro foi feito por um comando suicida que pretendia morrer espetacularmente em nome de sua fé – mas sob o pretexto de libertar seu país, ocupado por tropas russas desde 1999. Mesmo assim, dois dos terroristas aproveitaram a confusão posterior ao confronto para misturar-se aos seqüestrados sobreviventes e fugir do local. Cinqüenta morreram e dois foram presos.

Como todos os confrontos anteriores entre russos e chechenos, este também terminou num banho de sangue. O governo russo confirmou a morte de 67 reféns, mas agências de notícias informavam no sábado que noventa deles perderam a vida durante a ação das forças de segurança. Só 260 seqüestrados saíram andando do local. Dos outros, mais de 100 chegaram aos hospitais em estado grave, atingidos por tiros durante o confronto ou intoxicados pelo gás usado pelas tropas russas para neutralizar os rebeldes chechenos no momento da invasão do prédio. De acordo com as primeiras informações, nenhum dos 75 estrangeiros, de catorze países, estava entre os mortos. Também 25 crianças teriam escapado com vida.

AFP
AP
Os fanáticos dão entrevista antes da invasão e as mulheres-bomba que morreram asfixiadas

A peça em cartaz no Palácio da Cultura tratava da viagem de um explorador russo ao Pólo Norte. Estava no segundo ato quando o grupo terrorista interrompeu a apresentação e, apontando fuzis, rendeu o público e os atores. Em seguida, os reféns foram separados em grupos: um de estrangeiros, outro de crianças, mais um de muçulmanos e assim por diante. Boa parte das crianças e dos muçulmanos foi libertada logo nas primeiras horas da ação. Os outros reféns foram instruídos a se manter sentados, obedecendo a horários para ir aos banheiros. Alguns conseguiram fazer contato com amigos e parentes, via telefone celular. Narravam que a comida existente na lanchonete – doces e sanduíches – esgotou-se rapidamente. A água para beber também acabou depressa. Os terroristas então admitiram uma mediadora no local, a jornalista Anna Politkovskaya, que é tida pelos guerrilheiros chechenos como uma intérprete confiável de sua causa. Ela pouco pôde fazer. Logo depois, alguns rebeldes fizeram disparos fazer contato com amigos e parentes, via telefone celular. Narravam que a comida existente na lanchonete – doces e sanduíches – esgotou-se rapidamente. A água para beber também acabou depressa. Os terroristas então admitiram uma mediadora no local, a jornalista Anna Politkovskaya, que é tida pelos guerrilheiros chechenos como uma intérprete confiável de sua causa. Ela pouco pôde fazer. Logo depois, alguns rebeldes fizeram disparos dentro do teatro, dando vivas a Alá.

O parlamentar russo Iosif Kobzon, enviado do governo para negociar com os seqüestradores na quinta-feira, chegou a descrevê-los como educados e até polidos, mas os comparou a nazistas – devotados fanaticamente a uma causa. Nesse mesmo dia, os rebeldes deram entrevista a uma equipe de TV, apresentando suas exigências. Na tarde seguinte, anunciaram que matariam dez reféns por hora, enquanto não fossem atendidos. Às 2 da madrugada de sábado, começaram a cumprir a ameaça, matando dois reféns. Foi quando o Exército russo decidiu agir. Cápsulas de um gás cujo tipo não foi divulgado foram atiradas para dentro do teatro. Elas levaram à asfixia muitos dos terroristas, impedindo que chegassem a detonar as bombas que carregavam, mas intoxicaram também a maioria dos reféns. Médicos que atenderam os feridos relataram que dezenas de seqüestrados morreram por causa do gás.

AP
A última cena do combate: o corpo de um homem diante do teatro tomado pelos terroristas

De acordo com testemunhas que acompanharam a retirada dos reféns, vários dos mortos pareciam ter sido sufocados pelo próprio vômito. O ministro do interior, Vladimir Vasilyev, disse que o uso do gás era a única maneira de neutralizar as mulheres que estavam com explosivos colados ao corpo e com os dedos nos detonadores. Algumas dessas dezoito mulheres-bomba foram fotografadas depois, mortas, sentadas na platéia do teatro. Pareciam, de fato, ter morrido na iminência de acionar os detonadores de explosivos. Vestiam roupas pretas, semelhantes a burcas, deixando apenas os olhos expostos. Todos os homens do grupo invasor usavam máscaras, com exceção de seu líder.

A Chechênia, uma área menor que a de Sergipe nas montanhas do Cáucaso, proclamou-se independente da Rússia em 1991. O governo de Moscou sempre se preocupou com o fato de o território ser uma ponta-de-lança para a ação de muçulmanos interessados em desestabilizar politicamente as outras nove repúblicas e territórios russos localizados na área. De 1994 a 1996, houve uma guerra contra os separatistas. Firmados alguns acordos – que nenhum dos lados cumpriu –, o conflito acirrou-se e, em 1999, o governo do então presidente Boris Ieltsin, cujo primeiro-ministro era Vladimir Putin, promoveu uma investida impiedosa contra guerrilheiros e civis. Nessa época, 100.000 soldados da Rússia foram mandados para o território checheno. Os bombardeios sobre a capital, Grozni – que tinha 800.000 habitantes –, foram tão intensos que, ao final da investida, os estudos para a reconstrução de cidades da Chechênia indicaram que ela simplesmente não podia ser reerguida a preços razoáveis. Antes e depois, ações terroristas marcaram a atuação dos chechenos. Numa delas, eles mataram mais de 100 pessoas num hospital no sul da Rússia. Noutra, ataques a bomba, concentrados em um período de três semanas, produziram três centenas de cadáveres.

Acredita-se que os rebeldes tiveram ligações financeiras com a Arábia Saudita. Hoje, aposta-se que por trás de suas investidas estão Osama Bin Laden e a megaorganização terrorista Al Qaeda, responsável pelos ataques às torres do World Trade Center e ao Pentágono, no ano passado. Ao apoiar o revide americano no Afeganistão às ações de 11 de setembro, Putin conseguiu uma espécie de cumplicidade para aumentar a pressão na Chechênia sem grandes protestos. A primeira reação do presidente diante do ataque ao Palácio da Cultura foi ligá-lo às ações do terrorismo globalizado de Laden.

Um dos principais líderes terroristas chechenos, Arbi Barayev, foi morto por forças russas em junho do ano passado. Seu sobrinho, Movsar, de 23 anos, era o chefe do grupo que invadiu o teatro em Moscou na semana passada. Acusado de planejar toda a ação, o presidente rebelde da Chechênia, Aslan Maskhadov – que está escondido desde a invasão russa de 1999 –, divulgou pela internet uma mensagem atribuindo a ação a uma facção radical de guerrilheiros que está fora de seu controle. "Rejeitamos o terror como método de obter qualquer conquista", dizia essa mensagem.

Em um pronunciamento na televisão, ainda no sábado, o presidente Putin pediu desculpas aos familiares das vítimas e considerou a operação um sucesso, apesar das mortes entre os reféns. "Salvamos centenas de pessoas e não tivemos baixas entre os soldados", disse. Pelo histórico dos confrontos e atentados envolvendo guerrilheiros chechenos, o mundo temia uma carnificina ainda maior. O governo de Putin já anunciou uma nova operação na Chechênia, agora para caçar suspeitos de terrorismo.

   
 
   
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