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A companheira é
fogo
A nova
primeira-dama reformulou
o visual, mas não o jeito de ser:
de gênio forte, continua tímida
em público e durona em particular

Veja também |
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Marisa Letícia
Lula da Silva, 52 anos, torna-se em janeiro a nova primeira-dama do Brasil
já de posse de um visual reformulado: cabelos cortados e tingidos
em salão da elite, guarda-roupa orientado por profissional do ramo,
rugas aparadas na mesa de cirurgia, auto-estima afagada por elogios públicos
e emocionados do marido. Até aula de maquiagem ela teve. Essa foi
a parte boa de sua contribuição para o esforço de
campanha que mulher não gosta de dar uma tremenda melhorada
na aparência? A parte mais aborrecida foi acompanhar o marido na
maratona eleitoral com uma freqüência que nunca havia ocorrido
antes, subir sorridente e calada a uma infinidade de palanques, descer
deles calada e sorridente, não deixar passar nem um pensamento
de rejeição à perspectiva da mudança para
Brasília, cidade pela qual no passado manifestara simpatia zero.
Ah, sim, e acostumar-se a ser chamada de primeira-dama, um tratamento
pomposo e antiquado que, infelizmente, não dá o menor sinal
de enfraquecimento. Primeira-companheira, como ela chegou a cogitar em
campanhas anteriores, é mais uma idéia empurrada para o
departamento de esquerdismos arquivados pelo PT.
Antonio Milena
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| Marisa
da Silva, com um terninho elegante: guarda-roupa e auto-estima em
alta |
O visual mudou e os arroubos ideológicos arrefeceram, mas o jeito
de ser continua exatamente o mesmo. Em lugar da antropóloga Ruth
Cardoso (que queria ser chamada de doutora, em respeito a seu Ph.D., mas
não conseguiu livrar-se da maldição da primeira-dama),
entra uma dona-de-casa que começou a trabalhar aos 9 anos e estudou
até a 7ª série. Poucos meses antes da largada da campanha,
durante o feriado de fim de ano, foi vista num dia de praia em toda a
desafetação suburbana de uma bermudinha branca e camisetão
idem. "Ela é uma mulher simples, uma caipira como eu", compara
uma de suas cinco irmãs, membro de uma família numerosa
em que a súbita semelhança da nova primeira-dama com a prefeita
Marta Suplicy, a arrumadíssima prefeita de São Paulo, é
recebida com divertida admiração. Marisa fuma, gosta de
tomar uma cervejinha, é católica devota. Tímida em
público, é mandona na intimidade, simpática e afetuosa
com o círculo mais próximo, gélida com quem não
passa por seu crivo. É esse crivo que separa os "amigos de verdade",
aqueles que serão admitidos no convívio familiar, dos que
se aproximam "por interesse". Estes sem dúvida estão se
proliferando em velocidade vertiginosa e, previsivelmente, continuarão
a fazê-lo pelos próximos quatro anos. A eles, um aviso: quando
virem dona Marisa com a expressão séria e cantos da boca
apontando para baixo, cuidado com os excessos de bajulação.
Cortejando
o voto feminino, arredio e cheio de caprichos nesta eleição,
durante a campanha Lula desdobrou-se em elogios de palanque a "minha galega"
maneira corrente no Nordeste de se referir às pessoas claras.
Em algumas ocasiões, regou o discurso a lágrimas sinceras
e condizentes com seu temperamento sentimental. Com muito pouco de "Marisinha
paz e amor", a próxima primeira-dama agüentou firme. Sua maior
manifestação pública de emoção foi
no dia do primeiro turno, quando saiu para votar com o marido, em São
Bernardo do Campo. Diante de um mar de eleitores transbordando de entusiasmo,
ela estendeu a mão e acusou: "Olha como estou tremendo".
Marisa da
Silva provavelmente tem mais em comum com a grande massa das brasileiras
do que qualquer outra mulher que já compartilhou um lar presidencial.
Ela é a penúltima dos doze filhos de Antonio João
Casa e Regina Rocco, descendentes de imigrantes italianos. O pai era sitiante,
a mãe acumulava as funções de benzedeira. Quando
Marisa nasceu, a família morava numa casa de pau-a-pique e dois
quartos, na área rural de São Bernardo do Campo, na Grande
São Paulo. Aos 9 anos já estava trabalhando, como babá,
tomando conta de outras crianças. Aos 13, tirou carteira de trabalho
e subiu na escala laboral: foi embalar bombons na fábrica de chocolates
Dulcora, também em São Bernardo.
Do ponto
de vista político, a grande prova de persistência de Lula
foi chegar à Presidência depois de três campanhas fracassadas.
Na vida pessoal, espetacular mesmo foi ganhar o coração
da viuvinha loira, de olhos esverdeados e lábios sedutores. Antes
mesmo de conhecê-la, o então incipiente dirigente sindical
já alimentava pensamentos concupiscentes em relação
a ela, embalado pelas descrições de um motorista de táxi,
cujos serviços costumava usar, que louvava a beleza da nora, viúva
de seu filho recentemente assassinado. Os destinos se cruzaram quando
ela foi buscar um atestado no sindicato, e ele encontrou a oportunidade
de realizar suas fantasias. Grudou até conquistá-la.
O sindicalismo
e depois a política deixaram pouco espaço para a normalidade
na vida do casal Silva. Marisa fez o que se espera de uma mulher de político:
assumiu o comando da casa, a educação dos filhos, o sustento
emocional da família. Quando ele foi preso, organizou uma marcha
de mulheres. Costurou a estrela da primeira bandeira petista, num corte
de tecido vermelho que tinha em casa. O marido não estava presente
no nascimento de nenhum dos filhos. "Ela chorou muitas vezes por causa
da ausência dele", conta uma pessoa da família. No passado,
já foi capaz de tomar satisfação com mulheres que
julgava flagrar em excesso de interatividade com Lula. Hoje, com quatro
filhos e dois netos, ela mantém a chama do temperamento italiano
sob controle moderado. Em situações em que se sente inseguro,
ou muito assediado, a primeira reação de Lula é procurar
por Marisa. Em geral, como qualquer marido ajuizado, tenta evitar encrenca
com ela. Vez por outra, reproduzindo um sentimento que alguns milhões
de brasileiros alimentam em relação às próprias
caras-metades, ele suspira: "Marisa é fogo".
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