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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
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A companheira é fogo

A nova primeira-dama reformulou
o visual, mas não o jeito de ser:
de gênio forte, continua tímida
em público e durona em particular


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Nesta edição
Lula muda a história
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O sonho de ser JK é só isso. Um sonho
Um mundo arriscado e hostil
Ele fez o que pôde.
Mas não deu
O onda petista perdeu ímpeto
Os vermelhos chegaram ao poder
Na internet
Cobertura completa no site Eleições 2002

Marisa Letícia Lula da Silva, 52 anos, torna-se em janeiro a nova primeira-dama do Brasil já de posse de um visual reformulado: cabelos cortados e tingidos em salão da elite, guarda-roupa orientado por profissional do ramo, rugas aparadas na mesa de cirurgia, auto-estima afagada por elogios públicos e emocionados do marido. Até aula de maquiagem ela teve. Essa foi a parte boa de sua contribuição para o esforço de campanha – que mulher não gosta de dar uma tremenda melhorada na aparência? A parte mais aborrecida foi acompanhar o marido na maratona eleitoral com uma freqüência que nunca havia ocorrido antes, subir sorridente e calada a uma infinidade de palanques, descer deles calada e sorridente, não deixar passar nem um pensamento de rejeição à perspectiva da mudança para Brasília, cidade pela qual no passado manifestara simpatia zero. Ah, sim, e acostumar-se a ser chamada de primeira-dama, um tratamento pomposo e antiquado que, infelizmente, não dá o menor sinal de enfraquecimento. Primeira-companheira, como ela chegou a cogitar em campanhas anteriores, é mais uma idéia empurrada para o departamento de esquerdismos arquivados pelo PT.

Antonio Milena
Marisa da Silva, com um terninho elegante: guarda-roupa e auto-estima em alta


O visual mudou e os arroubos ideológicos arrefeceram, mas o jeito de ser continua exatamente o mesmo. Em lugar da antropóloga Ruth Cardoso (que queria ser chamada de doutora, em respeito a seu Ph.D., mas não conseguiu livrar-se da maldição da primeira-dama), entra uma dona-de-casa que começou a trabalhar aos 9 anos e estudou até a 7ª série. Poucos meses antes da largada da campanha, durante o feriado de fim de ano, foi vista num dia de praia em toda a desafetação suburbana de uma bermudinha branca e camisetão idem. "Ela é uma mulher simples, uma caipira como eu", compara uma de suas cinco irmãs, membro de uma família numerosa em que a súbita semelhança da nova primeira-dama com a prefeita Marta Suplicy, a arrumadíssima prefeita de São Paulo, é recebida com divertida admiração. Marisa fuma, gosta de tomar uma cervejinha, é católica devota. Tímida em público, é mandona na intimidade, simpática e afetuosa com o círculo mais próximo, gélida com quem não passa por seu crivo. É esse crivo que separa os "amigos de verdade", aqueles que serão admitidos no convívio familiar, dos que se aproximam "por interesse". Estes sem dúvida estão se proliferando em velocidade vertiginosa e, previsivelmente, continuarão a fazê-lo pelos próximos quatro anos. A eles, um aviso: quando virem dona Marisa com a expressão séria e cantos da boca apontando para baixo, cuidado com os excessos de bajulação.

Cortejando o voto feminino, arredio e cheio de caprichos nesta eleição, durante a campanha Lula desdobrou-se em elogios de palanque a "minha galega" – maneira corrente no Nordeste de se referir às pessoas claras. Em algumas ocasiões, regou o discurso a lágrimas sinceras e condizentes com seu temperamento sentimental. Com muito pouco de "Marisinha paz e amor", a próxima primeira-dama agüentou firme. Sua maior manifestação pública de emoção foi no dia do primeiro turno, quando saiu para votar com o marido, em São Bernardo do Campo. Diante de um mar de eleitores transbordando de entusiasmo, ela estendeu a mão e acusou: "Olha como estou tremendo".

Marisa da Silva provavelmente tem mais em comum com a grande massa das brasileiras do que qualquer outra mulher que já compartilhou um lar presidencial. Ela é a penúltima dos doze filhos de Antonio João Casa e Regina Rocco, descendentes de imigrantes italianos. O pai era sitiante, a mãe acumulava as funções de benzedeira. Quando Marisa nasceu, a família morava numa casa de pau-a-pique e dois quartos, na área rural de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Aos 9 anos já estava trabalhando, como babá, tomando conta de outras crianças. Aos 13, tirou carteira de trabalho e subiu na escala laboral: foi embalar bombons na fábrica de chocolates Dulcora, também em São Bernardo.

Do ponto de vista político, a grande prova de persistência de Lula foi chegar à Presidência depois de três campanhas fracassadas. Na vida pessoal, espetacular mesmo foi ganhar o coração da viuvinha loira, de olhos esverdeados e lábios sedutores. Antes mesmo de conhecê-la, o então incipiente dirigente sindical já alimentava pensamentos concupiscentes em relação a ela, embalado pelas descrições de um motorista de táxi, cujos serviços costumava usar, que louvava a beleza da nora, viúva de seu filho recentemente assassinado. Os destinos se cruzaram quando ela foi buscar um atestado no sindicato, e ele encontrou a oportunidade de realizar suas fantasias. Grudou até conquistá-la.

O sindicalismo e depois a política deixaram pouco espaço para a normalidade na vida do casal Silva. Marisa fez o que se espera de uma mulher de político: assumiu o comando da casa, a educação dos filhos, o sustento emocional da família. Quando ele foi preso, organizou uma marcha de mulheres. Costurou a estrela da primeira bandeira petista, num corte de tecido vermelho que tinha em casa. O marido não estava presente no nascimento de nenhum dos filhos. "Ela chorou muitas vezes por causa da ausência dele", conta uma pessoa da família. No passado, já foi capaz de tomar satisfação com mulheres que julgava flagrar em excesso de interatividade com Lula. Hoje, com quatro filhos e dois netos, ela mantém a chama do temperamento italiano sob controle moderado. Em situações em que se sente inseguro, ou muito assediado, a primeira reação de Lula é procurar por Marisa. Em geral, como qualquer marido ajuizado, tenta evitar encrenca com ela. Vez por outra, reproduzindo um sentimento que alguns milhões de brasileiros alimentam em relação às próprias caras-metades, ele suspira: "Marisa é fogo".

 
 
   
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