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A
onda petista perdeu ímpeto
Na reta final, o PT
perde o governo de São
Paulo, mas foi no
Rio Grande do Sul que o
partido colheu sua derrota mais dolorosa
Agliberto Lima/AE
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Charles Guerra
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| O
tucano Geraldo Alckmin, reeleito para o governo de São Paulo: nova
estrela nacional na oposição ao PT |
Germano
Rigotto, do PMDB, novo governador gaúcho: o azarão do início da campanha
venceu a muralha petista |

Veja também |
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A
onda vermelha veio avassaladora na eleição nacional, consagrando
Luís Inácio Lula da Silva como o próximo presidente
da República, mas perdeu o ímpeto na reta final dos pleitos
estaduais. Encerrada a apuração das urnas de domingo, o
PT perdeu no principal colégio eleitoral do país. Em São
Paulo, o atual governador, o tucano Geraldo Alckmin, derrotou seu oponente,
o petista José Genoíno. Com isso, Alckmin conquistou o direito
de exercer um segundo mandato e completará doze anos de
hegemonia tucana no Estado. A derrota mais dolorosa para o PT, no entanto,
foi no Rio Grande do Sul, o primeiro Estado de porte governado pelo partido.
Nos pampas, o petista Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre e pensador
político de bom fôlego, foi derrotado pelo peemedebista Germano
Rigotto, que exerceu três mandatos de deputado federal, perdeu duas
vezes a disputa pela prefeitura de seu reduto eleitoral, Caxias do Sul,
e entrou na corrida sucessória gaúcha como azarão,
com apenas 4% nas pesquisas de intenção de voto. Cresceu
prometendo emprego, combate à violência e às invasões
de terra.
Para o PT, vencer em São Paulo seria uma consagração,
mas nem os próprios petistas acreditavam que poderiam realmente
chegar lá. A própria passagem de José Genoíno
ao segundo turno foi uma surpresa, tendo desbancado, nos últimos
momentos da disputa, o então candidato Paulo Maluf. Na campanha
do segundo turno, Genoíno, ele próprio, dava a impressão
de que fora surpreendido por seu desempenho nas urnas e parecia não
estar preparado para a hipótese de vir a ser governador de São
Paulo. Enfrentando Geraldo Alckmin, um adversário firme e ponderado
que ocupou a maior parte da campanha discutindo assuntos técnicos,
Genoíno teve de partir para o ataque com o objetivo de reverter
sua desvantagem nas pesquisas. Bateu tanto que, a certa altura, chegou
a criticar um programa educacional adotado pelo governador na rede pública
estadual, ignorando o fato de que o mesmo programa é aplicado pela
prefeita paulistana Marta Suplicy, sua companheira de partido. Com a derrota,
José Genoíno poderá vir a ser escalado para exercer
algum papel em Brasília no governo de Lula.
É
no Rio Grande do Sul, porém, que o PT está lambendo as maiores
feridas. Considerado uma aldeia vermelha, onde o PT comanda a prefeitura
da capital há catorze anos, o Estado era a principal vitrine do
partido e, exatamente por isso, ocupou o centro dos embates entre Lula
e Serra no horário eleitoral do segundo turno. Há uma peculiaridade
que pode estar na origem da derrota do PT gaúcho. O atual governador,
Olívio Dutra, que não obteve autorização do
partido para concorrer à reeleição, fez um governo
razoável do ponto de vista administrativo. Praticamente todos os
indicadores socioeconômicos melhoraram. A economia cresceu mais
que a média nacional, a agricultura teve um salto de prosperidade
e a taxa de desemprego caiu. Ocorre que, à frente de um PT fortemente
influenciado pelas correntes mais radicais, Olívio Dutra acabou
fazendo uma gestão altamente ideologizada. Em sua posse, a bandeira
de Cuba chegou a ser hasteada no Palácio Piratini, sede do governo,
o MST ganhou cargos na administração e a polícia
cruzou os braços diante das invasões de terras.
Os primeiros resultados das eleições estaduais sugerem que
esta eleição casada, assim chamada por eleger presidente
e governadores no mesmo pleito, acabou sendo a mais solteira dos últimos
tempos. Afinal, em São Paulo, o governador reeleito desgarrou-se
de seu candidato a presidente, José Serra, e conseguiu vencer.
Seu adversário petista, José Genoíno, fez o contrário.
Agarrou-se à imagem de Lula, para pegar carona no prestígio
nacional do petista, mas não obteve o efeito desejado. No Rio Grande
do Sul, repetiu-se o mesmo divórcio. José Serra teve muito
mais interesse em aproximar-se de Germano Rigotto, chegando a sapecar-lhe
um beijo na bochecha durante a campanha, do que o contrário
e Rigotto quebrou a espinha dorsal do PT num Estado em que Lula venceu.
Tarso Genro, por sua vez, fez questão de apresentar-se como aliado
de Lula, na tentativa de levar o eleitorado gaúcho a casar governador
e presidente do mesmo partido. Também não deu certo.
O cenário desenhado pelas urnas de domingo deixa o PT numa situação
bem mais adversa do que a do presidente Fernando Henrique Cardoso quando
se elegeu ao primeiro mandato. Naquela época, Fernando Henrique
tinha companheiros de seu partido instalados no comando do principal triângulo
eleitoral do país São Paulo, Minas Gerais e Rio de
Janeiro e em outros três Estados. Com o PT de Lula, a situação
é outra. No primeiro turno, os petistas conseguiram manter o governo
do Acre, reelegendo Jorge Viana, e surpreenderam ao conquistar o governo
do Piauí, com Wellington Dias, ficando assim com o comando de dois
Estados que, juntos, somam menos de 2% do eleitorado. Agora, concluído
o segundo turno, o PT acabou fora da administração dos principais
colégios eleitorais do país, embora tenha aliados em alguns.
O novo mapa eleitoral mostra quanto era premonitória a insistência
com que o presidente eleito, durante a campanha, anunciou que faria freqüentes
reuniões com os 27 governadores do país. De fato, para obter
algum consenso, será preciso muita conversa.
Liane Neves
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| Olívio
Dutra, que não teve autorização do PT para disputar a reeleição gaúcha:
um governo com forte tom ideológico |
Desde o governo do ex-presidente José Sarney, quando os governadores
eram convocados a Brasília de tempos em tempos, os comandantes
dos Estados passaram a viver outra realidade. De lá para cá,
a relação financeira dos governadores com Brasília
tornou-se mais técnica e menos política, ficando concentrada
num órgão chamado Confaz, que reunia os secretários
estaduais de Fazenda. Com isso, os governadores passaram a apelar para
suas bancadas estaduais no Congresso, quando tinham trânsito entre
elas, e acabaram por promover uma guerra fiscal que gerou tumulto em boa
parte do país. O próprio episódio da fábrica
da Ford, que deixou o Rio Grande do Sul para instalar-se na Bahia, uma
transferência que ajudou a derrotar o PT na sucessão gaúcha
e levou Antonio Carlos Magalhães a eleger o quarto governador consecutivo,
foi um resultado da guerra fiscal. A Bahia, no caso, ofereceu à
Ford as vantagens que a montadora queria e que o governo petista do Rio
Grande do Sul se negou a conceder. Agora, com Lula eleito, a julgar pela
promessa de campanha de negociar exaustivamente com representantes estaduais,
é possível que se retome a chamada "política de governadores".
O quadro nacional apresenta ainda uma particularidade curiosa. O segundo
turno nas eleições estaduais fez surgir três figuras
proeminentes de oposição ao governo de Lula. Uma é
o governador Geraldo Alckmin, que, embora dono de uma personalidade contida,
terá a inevitável exposição de comandar o
principal Estado do país. Outra é o próprio peemedebista
Germano Rigotto, autor do notável feito de derrubar a muralha petista
nos pampas. A terceira é o governador eleito de Minas Gerais, o
tucano Aécio Neves, vitorioso nas urnas já no primeiro turno.
O curioso é que, tendo estrelas de oposição com projeção
nacional, a eleição de 2002 não produziu o mesmo
fenômeno entre os membros da situação em relação
aos poderes executivos e, aí, neste campo, a única
estrela incontestável é ele mesmo, o ex-torneiro mecânico
Luís Inácio Lula da Silva. O dado sugere que o eleitorado
brasileiro, ao compor chapas estadual e nacional de partidos diferentes,
é mais lulista do que petista.
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