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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
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A onda petista perdeu ímpeto

Na reta final, o PT perde o governo de São
Paulo, mas foi
no Rio Grande do Sul que o
partido colheu sua derrota mais dolorosa

 
Agliberto Lima/AE
Charles Guerra
O tucano Geraldo Alckmin, reeleito para o governo de São Paulo: nova estrela nacional na oposição ao PT Germano Rigotto, do PMDB, novo governador gaúcho: o azarão do início da campanha venceu a muralha petista


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Na internet
Cobertura completa no site Eleições 2002

A onda vermelha veio avassaladora na eleição nacional, consagrando Luís Inácio Lula da Silva como o próximo presidente da República, mas perdeu o ímpeto na reta final dos pleitos estaduais. Encerrada a apuração das urnas de domingo, o PT perdeu no principal colégio eleitoral do país. Em São Paulo, o atual governador, o tucano Geraldo Alckmin, derrotou seu oponente, o petista José Genoíno. Com isso, Alckmin conquistou o direito de exercer um segundo mandato – e completará doze anos de hegemonia tucana no Estado. A derrota mais dolorosa para o PT, no entanto, foi no Rio Grande do Sul, o primeiro Estado de porte governado pelo partido. Nos pampas, o petista Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre e pensador político de bom fôlego, foi derrotado pelo peemedebista Germano Rigotto, que exerceu três mandatos de deputado federal, perdeu duas vezes a disputa pela prefeitura de seu reduto eleitoral, Caxias do Sul, e entrou na corrida sucessória gaúcha como azarão, com apenas 4% nas pesquisas de intenção de voto. Cresceu prometendo emprego, combate à violência e às invasões de terra.

Para o PT, vencer em São Paulo seria uma consagração, mas nem os próprios petistas acreditavam que poderiam realmente chegar lá. A própria passagem de José Genoíno ao segundo turno foi uma surpresa, tendo desbancado, nos últimos momentos da disputa, o então candidato Paulo Maluf. Na campanha do segundo turno, Genoíno, ele próprio, dava a impressão de que fora surpreendido por seu desempenho nas urnas e parecia não estar preparado para a hipótese de vir a ser governador de São Paulo. Enfrentando Geraldo Alckmin, um adversário firme e ponderado que ocupou a maior parte da campanha discutindo assuntos técnicos, Genoíno teve de partir para o ataque com o objetivo de reverter sua desvantagem nas pesquisas. Bateu tanto que, a certa altura, chegou a criticar um programa educacional adotado pelo governador na rede pública estadual, ignorando o fato de que o mesmo programa é aplicado pela prefeita paulistana Marta Suplicy, sua companheira de partido. Com a derrota, José Genoíno poderá vir a ser escalado para exercer algum papel em Brasília no governo de Lula.

É no Rio Grande do Sul, porém, que o PT está lambendo as maiores feridas. Considerado uma aldeia vermelha, onde o PT comanda a prefeitura da capital há catorze anos, o Estado era a principal vitrine do partido e, exatamente por isso, ocupou o centro dos embates entre Lula e Serra no horário eleitoral do segundo turno. Há uma peculiaridade que pode estar na origem da derrota do PT gaúcho. O atual governador, Olívio Dutra, que não obteve autorização do partido para concorrer à reeleição, fez um governo razoável do ponto de vista administrativo. Praticamente todos os indicadores socioeconômicos melhoraram. A economia cresceu mais que a média nacional, a agricultura teve um salto de prosperidade e a taxa de desemprego caiu. Ocorre que, à frente de um PT fortemente influenciado pelas correntes mais radicais, Olívio Dutra acabou fazendo uma gestão altamente ideologizada. Em sua posse, a bandeira de Cuba chegou a ser hasteada no Palácio Piratini, sede do governo, o MST ganhou cargos na administração e a polícia cruzou os braços diante das invasões de terras.

Os primeiros resultados das eleições estaduais sugerem que esta eleição casada, assim chamada por eleger presidente e governadores no mesmo pleito, acabou sendo a mais solteira dos últimos tempos. Afinal, em São Paulo, o governador reeleito desgarrou-se de seu candidato a presidente, José Serra, e conseguiu vencer. Seu adversário petista, José Genoíno, fez o contrário. Agarrou-se à imagem de Lula, para pegar carona no prestígio nacional do petista, mas não obteve o efeito desejado. No Rio Grande do Sul, repetiu-se o mesmo divórcio. José Serra teve muito mais interesse em aproximar-se de Germano Rigotto, chegando a sapecar-lhe um beijo na bochecha durante a campanha, do que o contrário – e Rigotto quebrou a espinha dorsal do PT num Estado em que Lula venceu. Tarso Genro, por sua vez, fez questão de apresentar-se como aliado de Lula, na tentativa de levar o eleitorado gaúcho a casar governador e presidente do mesmo partido. Também não deu certo.

O cenário desenhado pelas urnas de domingo deixa o PT numa situação bem mais adversa do que a do presidente Fernando Henrique Cardoso quando se elegeu ao primeiro mandato. Naquela época, Fernando Henrique tinha companheiros de seu partido instalados no comando do principal triângulo eleitoral do país – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – e em outros três Estados. Com o PT de Lula, a situação é outra. No primeiro turno, os petistas conseguiram manter o governo do Acre, reelegendo Jorge Viana, e surpreenderam ao conquistar o governo do Piauí, com Wellington Dias, ficando assim com o comando de dois Estados que, juntos, somam menos de 2% do eleitorado. Agora, concluído o segundo turno, o PT acabou fora da administração dos principais colégios eleitorais do país, embora tenha aliados em alguns. O novo mapa eleitoral mostra quanto era premonitória a insistência com que o presidente eleito, durante a campanha, anunciou que faria freqüentes reuniões com os 27 governadores do país. De fato, para obter algum consenso, será preciso muita conversa.

Liane Neves
Olívio Dutra, que não teve autorização do PT para disputar a reeleição gaúcha: um governo com forte tom ideológico


Desde o governo do ex-presidente José Sarney, quando os governadores eram convocados a Brasília de tempos em tempos, os comandantes dos Estados passaram a viver outra realidade. De lá para cá, a relação financeira dos governadores com Brasília tornou-se mais técnica e menos política, ficando concentrada num órgão chamado Confaz, que reunia os secretários estaduais de Fazenda. Com isso, os governadores passaram a apelar para suas bancadas estaduais no Congresso, quando tinham trânsito entre elas, e acabaram por promover uma guerra fiscal que gerou tumulto em boa parte do país. O próprio episódio da fábrica da Ford, que deixou o Rio Grande do Sul para instalar-se na Bahia, uma transferência que ajudou a derrotar o PT na sucessão gaúcha e levou Antonio Carlos Magalhães a eleger o quarto governador consecutivo, foi um resultado da guerra fiscal. A Bahia, no caso, ofereceu à Ford as vantagens que a montadora queria e que o governo petista do Rio Grande do Sul se negou a conceder. Agora, com Lula eleito, a julgar pela promessa de campanha de negociar exaustivamente com representantes estaduais, é possível que se retome a chamada "política de governadores".

O quadro nacional apresenta ainda uma particularidade curiosa. O segundo turno nas eleições estaduais fez surgir três figuras proeminentes de oposição ao governo de Lula. Uma é o governador Geraldo Alckmin, que, embora dono de uma personalidade contida, terá a inevitável exposição de comandar o principal Estado do país. Outra é o próprio peemedebista Germano Rigotto, autor do notável feito de derrubar a muralha petista nos pampas. A terceira é o governador eleito de Minas Gerais, o tucano Aécio Neves, vitorioso nas urnas já no primeiro turno. O curioso é que, tendo estrelas de oposição com projeção nacional, a eleição de 2002 não produziu o mesmo fenômeno entre os membros da situação em relação aos poderes executivos – e, aí, neste campo, a única estrela incontestável é ele mesmo, o ex-torneiro mecânico Luís Inácio Lula da Silva. O dado sugere que o eleitorado brasileiro, ao compor chapas estadual e nacional de partidos diferentes, é mais lulista do que petista.

 
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