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Ele fez o que pôde.
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Ana Araújo![]() |
| José Serra durante gravação para o horário eleitoral: governista de oposição |
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Ele tinha tudo para vencer. Tem um currículo acadêmico respeitável, com dez livros e 46 artigos publicados, alguns em espanhol e inglês. Tem uma carreira pública bem-sucedida. Foi um deputado altamente produtivo na Constituinte em 1988, recebeu votação consagradora ao eleger-se ao Senado em 1994 e deixou uma marca de competência nos quatro anos que passou no Ministério da Saúde. Para ser escolhido candidato oficial ao Palácio do Planalto, derrotou adversários de porte, ganhou o aval do presidente Fernando Henrique e montou uma musculosa aliança eleitoral, com PSDB e PMDB, dois gigantes da cena partidária. Na largada, contava com a máquina federal e a simpatia (além do dinheiro) de grande parte do empresariado nacional. Cercou-se dos melhores profissionais do marketing político e dispunha de dez minutos no horário eleitoral, o dobro do tempo de seu principal adversário no primeiro turno. José Serra, paulistano, 60 anos, tinha tudo para vencer, só não tinha o principal: o eleitorado brasileiro não queria mais quatro anos de governo tucano após oito anos de governo tucano.
Munido das
pesquisas que compõem o arsenal de todo candidato, José
Serra sabia do dilema de apresentar-se como um continuador para um eleitorado
que desejava um renovador. Para superar esse obstáculo, Serra não
deixou escapar nenhuma oportunidade de disparar críticas contra
boa parte da Esplanada dos Ministérios. Fez reparos ao trabalho
do ministro da Educação, Paulo Renato Souza, tucano que
também tinha pretensões presidenciais, e condenou decisões
da equipe econômica, fazendo questão de frisar que "todo
mundo sabe" que foi contra a política econômica do governo,
principalmente no primeiro mandato de Fernando Henrique. Também
cobrou firmeza do governo no combate à criminalidade e repisou,
incansavelmente, que seu governo teria competência e empenho para
criar os milhões de empregos de que o país necessita, deixando
a sugestão de que ao atual governo faltaram esses atributos. Mas
Serra acabou capturado na própria armadilha. Não conseguiu
convencer o eleitorado de que era um agente da mudança e acabou
cultivando a figura inédita do candidato oficial "de oposição"
uma imagem cuja essência ambígua não escapou
à percepção do eleitor.
Omar Freire![]() |
| Aécio Neves, governador eleito de Minas: a nova estrela tucana fez de tudo para não queimar as pontes com o PT |
Durante a
campanha, Serra teria feito melhor se houvesse "colado" sua imagem ao
governo? O PSDB teria feito melhor opção se tivesse lançado
o ex-governador Tasso Jereissati, agora eleito senador pelo Ceará?
O ministro Paulo Renato teria conseguido encantar os eleitores? Talvez
o desejo do eleitorado de votar em Lula viesse a atropelar qualquer nome,
mas há consenso entre os analistas políticos de que a trajetória
eleitoral de Serra repetiu a saga de Ulysses Guimarães, o homem
que simbolizou o combate à ditadura e personificou a luta pelas
eleições diretas. No pleito presidencial de 1989, Ulysses
batalhou com todas as forças para tornar-se candidato do PMDB,
formou uma ampla coligação de partidos, teve o maior tempo
na televisão e chegou à reta final num melancólico
sétimo lugar. José Serra, que em determinado momento da
campanha viu ameaçada sua chance de disputar o segundo turno com
Lula, fez um papel muito melhor que o de Ulysses, mas também não
pôde evitar a derrota. Um ponto que une os dois é a falta
de carisma, aquele atributo que cria empatia com o eleitor e encanta as
massas e cuja ausência é o mesmo que arar no mar.
Joedson Alves/AE![]() |
| Artur da Távola, um dos amigos íntimos de Serra: tentativa fracassada de permanecer na cadeira de senador |
Fundindo
a falta de carisma com a ambigüidade de ser um continuador de oposição,
José Serra não teve dificuldade para conquistar apenas o
eleitor, mas até os próprios aliados. Começou sua
campanha com o apoio fiel de dez deputados federais do PSDB. Terminou
com o apoio de doze. O diretório do partido em São Paulo,
seu reduto político, só se moveu a seu favor na reta final.
Nem mesmo políticos que chegaram a ser cogitados para compor sua
chapa se empenharam na campanha. O governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos,
convidado a ser vice de Serra, passou a maior parte do primeiro turno
voltado para a própria campanha reeleitoral. O senador gaúcho
Pedro Simon, cujo nome também surgiu nas listas de candidatos a
vice, sumiu da campanha de Serra quando as pesquisas só traziam
números ruins e voltou a aparecer já perto do fim. O ex-deputado
catarinense Luiz Henrique, outro vice-presidenciável de Serra,
protagonizou o episódio mais constrangedor: trocou de lado. Encerrou
sua campanha ao governo de Santa Catarina defendendo abertamente a candidatura
de Lula.
Armando Favaro/AE![]() |
| José Aníbal, ativo membro da tropa de choque eleitoral de Serra: quarto lugar na corrida ao Senado |
A batalha de Serra para chegar ao Palácio do Planalto é um retrato de sua obstinação, uma marca em sua trajetória pessoal. Nascido no bairro da Mooca, filho único de um modesto casal de imigrantes, pai italiano e mãe argentina, Serra quis ser muita coisa na infância de chefe de fábrica a dono de mercearia da esquina, numa possível influência do pai, que passou boa parte da vida atrás de um balcão de frutaria no Mercado Municipal de São Paulo. Sua vontade de virar político e, quem sabe, um dia ocupar a Presidência da República apareceu pela primeira vez em algum momento da adolescência. No científico, equivalente hoje ao ensino médio, e depois na universidade, Serra começou a militar no movimento estudantil, conheceu seus primeiros companheiros de política e tratou de vencer o que considerava o obstáculo inicial à carreira pública: a timidez, traço herdado do pai. Para tanto, passou a declamar poesia no banheiro de casa para ganhar confiança e melhorar a impostação de voz.
Chegou à
presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE), amargou
anos de exílio depois do golpe militar de 1964 e, no retorno ao
Brasil, retomou a carreira pública como secretário do Planejamento
do governador Franco Montoro, nos anos 80. Desde que Fernando Henrique
se elegeu presidente, Serra passou a considerar-se seu sucessor em potencial.
Na campanha, porém, também teve atritos com o próprio
governo. Serra e Fernando Henrique falaram-se praticamente todos os dias
durante a batalha eleitoral, mas as conversas nem sempre foram amenas.
Em pelo menos três oportunidades Serra se zangou com declarações
do presidente por julgá-las prejudiciais à campanha. Não
gostou quando FHC veio a público dizer que diploma era irrelevante
para pleitear a Presidência, desautorizando um ataque a Lula feito
pelo programa tucano. Irritou-se quando o jornal argentino Clarín
informou que FHC, em conversa reservada com o presidente Eduardo Duhalde,
dissera que Lula ganharia a eleição. Zangou-se com FHC por
ter dito que o Brasil manteria o rumo com a vitória de qualquer
concorrente, dando um aval de credibilidade a Lula que a campanha tucana
pretendia tirar.
Orlando Brito![]() |
Frederic Jean![]() |
| Sergio Motta (à esq.), que queria Serra na sucessão de FHC, e Mário Covas, que defendeu a candidatura de Tasso ao Planalto | |
Serra
também combateu, e tentou neutralizar, várias ações
oficiais. Chegou a pedir a cabeça de Francisco Gros, presidente
da Petrobras, logo depois do anúncio de um aumento no preço
da gasolina e do gás de cozinha, medida altamente impopular. Em
visita ao Rio Grande do Sul na época em que o aumento foi decretado,
Serra não conteve a ironia. "Sem dúvida, a Petrobras faz
reajustes muito oportunos, a três ou quatro dias da eleição",
desabafou, corrigindo-se logo em seguida para não dar a impressão
de que gostaria de ver a máquina do governo atuando eleitoralmente
em seu favor. Em outra ocasião, o então candidato reclamou
da equipe econômica quando houve mudança de regras nos fundos
de renda fixa. Mais tarde, aborreceu-se quando o Banco Central aumentou
a taxa de juros de 18% para 21%, decisão que, faltando duas semanas
para a eleição, soou como o tiro de misericórdia
nas pretensões presidenciais do tucano.
Ricardo Stuckert![]() |
| Luís Eduardo Magalhães, do PFL baiano: sua morte deixou o caminho livre para Serra |
José Serra sempre gostou de dizer que é um político que "cresce na dificuldade". Nas últimas semanas de campanha, esse atributo manifestou-se com mais clareza: a iminência da derrota p"top">
José
Serra sempre gostou de dizer que é um político que "cresce
na dificuldade". Nas últimas semanas de campanha, esse atributo
manifestou-se com mais clareza: a iminência da derrota parece ter
vitaminado sua disposição de ir à luta. Apesar de
toda a adversidade que enfrentava, Serra adensou seus ataques a Lula,
começou a aparentar mais calma, sorria com maior freqüência
e, nas entrevistas, demonstrava um nível de segurança que
não chegou a exibir no primeiro turno da campanha. "Serra está
sendo um bravo", comentou FHC. Afinal, Serra estava jogando por uma aposta
que sempre o seduzira e cujo caminho pavimentou com o zelo de um engastador
de pedras preciosas. Em 1996, por exemplo, quando disputou a prefeitura
de São Paulo com Celso Pitta, o tucano vetou a exibição
de um programa eleitoral que satirizava o fato de Pitta ser carioca, e
não paulista. Na cena, o torcedor de um time paulista entrava num
bar vestindo a camiseta do Flamengo e, diante da surpresa dos amigos,
dizia que já estava se acostumando, caso "o carioca" vencesse a
eleição. Serra barrou a sátira. Um dia se candidataria
ao Palácio do Planalto e, nessa empreitada, precisaria do eleitorado
fluminense.
Claudio Rossi![]() |
| O ex-governador Tasso Jereissati, eleito senador pelo Ceará: o PSDB chegou a um ponto de inflexão |
Para os tucanos, é relevante descobrir o que aconteceu de errado,
mas, para a política em geral, é mais importante conhecer
os efeitos da derrota no jogo nacional do poder. Nascido da costela do
PMDB, em 1988, em repúdio à excessiva liberalidade ética
de algumas lideranças peemedebistas, o PSDB surgiu com ideário
social-democrata. Na época, era um partido médio, com quarenta
deputados em Brasília. Defendia o parlamentarismo, o voto distrital,
a fidelidade partidária e a interferência econômica
do Estado para resolver a ineficiência do mercado. Com apenas sete
anos de existência, os tucanos, num salto vertiginoso, chegaram
à Presidência da República e, bafejados pela realidade
do poder, sofreram a primeira mutação ideológica.
Não se implantaram o parlamentarismo, o voto distrital nem a fidelidade
partidária. No campo econômico, o governo decidiu privatizar
estatais, livrar-se dos bancos estaduais e quebrar o monopólio
estatal do petróleo, empreitadas que enfrentou com o apoio do PMDB
e, principalmente, do PFL. "O partido ficará menos ideológico
e mais pragmático do que é hoje", diz José Richa,
um dos fundadores.
E, agora,
para onde vai o PSDB? A partir de janeiro de 2003, quando Luís
Inácio Lula da Silva tomar posse, o partido começará
a recolher os cacos da derrota e a sentir os efeitos da inevitável
mudança geracional. Não terá Fernando Henrique Cardoso
no Palácio do Planalto. Lá também não terá
José Serra. Mário Covas, que exerceu por anos uma liderança
incontrastável no partido, já se foi. Também partiu
Sergio Motta, que foi ministro das Comunicações, braço
direito de Fernando Henrique e que, com seu jeito ativo, parecia encarnar
a garra e a energia no projeto tucano de poder. Essas estrelas do PSDB
estiveram no centro da política brasileira por muitos anos. A dupla
Serra-FHC destacou-se na Constituinte, foi chamada a salvar Fernando Collor
quando o governo entrou em crise proposta devidamente recusada
e participou do grupo que deu governabilidade a Itamar Franco.
A derrota de Serra suspende por tempo indeterminado o projeto do PSDB.
Sergio Motta achava que o partido comandaria o país por vinte anos.
O primeiro passo era eleger Fernando Henrique. A ameaça, depois,
era enfrentar a liderança ascendente do deputado Luís Eduardo
Magalhães, do PFL baiano, mas ele também se foi. O campo
ficou livre para Serra. Mas não deu certo.
Marcia Gouthier/Folha Imagem![]() |
| Paulo Renato, colega de ministério: ele chegou a ter ambição de suceder a FHC. Serra o atropelou |
Nem tucanos de alta plumagem conseguiram emplacar. O senador Artur da Távola, um dos amigos mais íntimos de Serra, não conseguiu reeleger-se no Rio de Janeiro. O deputado José Aníbal, um dos coordenadores da campanha de Serra e membro ativo de sua tropa de choque eleitoral, ficou em quarto lugar na disputa ao Senado por São Paulo. Com o afastamento de Fernando Henrique e Serra, a estrela maior do partido desloca-se de endereço. Deixa São Paulo e passa para Minas Gerais, onde Aécio Neves, governador eleito no primeiro turno, muda de patamar com o resultado das urnas. Outra figura de destaque nacional é Tasso Jereissati. O senador eleito pelo Ceará não é propriamente um novato na política, mas não se pode dizer que fizesse parte do núcleo central do governo FHC. Suas relações com a chamada ala paulista do PSDB nunca foram fraternais, a não ser com Mário Covas. Tanto que, na semana passada, Tasso e Aécio já começaram a se articular e tentam convencer um ex-tucano a voltar às origens Ciro Gomes, que concorreu ao Planalto pelo PPS e apoiou Lula no segundo turno.
Por ironia, Tasso tende a obter mais poder em Brasília com Lula do que obteria com Serra, com quem se desentendeu politicamente para apoiar a candidatura de Ciro e a quem deu apoio constrangido na segunda rodada. Antes mesmo do primeiro turno, Tasso já tinha um diagnóstico pronto a respeito da mudança de perfil do partido. "Todo um grupo de intelectuais, acadêmicos ligados ao Serra e ao Fernando Henrique que sempre predominaram como pensamento dentro do PSDB, naturalmente perde o espaço na cena", dizia. Resta saber como os tucanos se portarão em relação a Lula e que tratamento o presidente eleito pretende dar a eles. Pelas declarações já conhecidas, Lula e Tasso até podem iniciar um namoro e existem alguns sinais, ainda envergonhados, de que parte do PSDB pode vir a integrar a base de sustentação do novo governo petista. Aécio Neves, por sua vez, subiu ao palanque de Serra na reta final da campanha e gravou depoimento a favor do candidato do PSDB no horário eleitoral gratuito, mas fez questão de frisar que os tucanos não podiam dinamitar as pontes com os petistas. A quatro dias da eleição, depois de uma reunião com o presidente Fernando Henrique e outros altos tucanos para avaliar a campanha de Serra, Aécio anunciou que o PSDB faria oposição ao governo do PT mas uma "oposição responsável, e não sistemática".
Uma primeira
olhada para a eventual associação entre petistas e tucanos,
ou pelo menos parte deles, sugere certa incongruência. Afinal, em
oito anos de poder o PSDB liderou o processo de mudanças neoliberais
e agora pode vir a aliar-se a um governo de esquerda. A incongruência,
porém, esconde sutilezas dos partidos é possível
desvendar uma faceta esquerdista dentro do PSDB e uma faceta social-democrata
dentro do PT. Além disso, a história mostra que os partidos
políticos no Brasil são como pessoas. Nascem, crescem, amadurecem
e acabam morrendo com o tempo. A longevidade das legendas varia, mas a
cronologia política mostra que o ciclo se repete. Os principais
partidos criados no Império resistiram quase sessenta anos. No
conjunto, foram os mais estáveis da história. O PCB foi
fundado em 1922 e resistiu setenta anos com o mesmo nome até virar
PPS. Os partidos fundados na ditadura militar sobreviveram catorze anos.
O PMDB, origem dos tucanos, é um dos mais velhos da praça.
Tem 37 anos, considerando que permaneceu o mesmo desde o tempo em que
se chamava MDB. Quem sabe agora, com a eleição de Lula e
a derrota de Serra, o PSDB tenha chegado a um novo ponto de inflexão.
A história dirá.
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