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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
Eleições 2002

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Ele fez o que pôde.
Mas não deu

Serra dispunha da máquina do governo,
tinha apoio de grandes partidos e não
lhe faltou dinheiro. O que saiu errado?

Maurício Lima e Felipe Patury

Ana Araújo
José Serra durante gravação para o horário eleitoral: governista de oposição


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Nesta edição
Lula muda a história
Vinte anos na oposição
A tática do PT para os primeiros dias
O que eles esperam de Lula
O sonho de ser JK é só isso. Um sonho
Um mundo arriscado e hostil
O onda petista perdeu ímpeto
A companheira é fogo
Os vermelhos chegaram ao poder
Na internet
Cobertura completa no site Eleições 2002

Ele tinha tudo para vencer. Tem um currículo acadêmico respeitável, com dez livros e 46 artigos publicados, alguns em espanhol e inglês. Tem uma carreira pública bem-sucedida. Foi um deputado altamente produtivo na Constituinte em 1988, recebeu votação consagradora ao eleger-se ao Senado em 1994 e deixou uma marca de competência nos quatro anos que passou no Ministério da Saúde. Para ser escolhido candidato oficial ao Palácio do Planalto, derrotou adversários de porte, ganhou o aval do presidente Fernando Henrique e montou uma musculosa aliança eleitoral, com PSDB e PMDB, dois gigantes da cena partidária. Na largada, contava com a máquina federal e a simpatia (além do dinheiro) de grande parte do empresariado nacional. Cercou-se dos melhores profissionais do marketing político e dispunha de dez minutos no horário eleitoral, o dobro do tempo de seu principal adversário no primeiro turno. José Serra, paulistano, 60 anos, tinha tudo para vencer, só não tinha o principal: o eleitorado brasileiro não queria mais quatro anos de governo tucano após oito anos de governo tucano.

Munido das pesquisas que compõem o arsenal de todo candidato, José Serra sabia do dilema de apresentar-se como um continuador para um eleitorado que desejava um renovador. Para superar esse obstáculo, Serra não deixou escapar nenhuma oportunidade de disparar críticas contra boa parte da Esplanada dos Ministérios. Fez reparos ao trabalho do ministro da Educação, Paulo Renato Souza, tucano que também tinha pretensões presidenciais, e condenou decisões da equipe econômica, fazendo questão de frisar que "todo mundo sabe" que foi contra a política econômica do governo, principalmente no primeiro mandato de Fernando Henrique. Também cobrou firmeza do governo no combate à criminalidade e repisou, incansavelmente, que seu governo teria competência e empenho para criar os milhões de empregos de que o país necessita, deixando a sugestão de que ao atual governo faltaram esses atributos. Mas Serra acabou capturado na própria armadilha. Não conseguiu convencer o eleitorado de que era um agente da mudança e acabou cultivando a figura inédita do candidato oficial "de oposição" – uma imagem cuja essência ambígua não escapou à percepção do eleitor.

Omar Freire
Aécio Neves, governador eleito de Minas: a nova estrela tucana fez de tudo para não queimar as pontes com o PT

Durante a campanha, Serra teria feito melhor se houvesse "colado" sua imagem ao governo? O PSDB teria feito melhor opção se tivesse lançado o ex-governador Tasso Jereissati, agora eleito senador pelo Ceará? O ministro Paulo Renato teria conseguido encantar os eleitores? Talvez o desejo do eleitorado de votar em Lula viesse a atropelar qualquer nome, mas há consenso entre os analistas políticos de que a trajetória eleitoral de Serra repetiu a saga de Ulysses Guimarães, o homem que simbolizou o combate à ditadura e personificou a luta pelas eleições diretas. No pleito presidencial de 1989, Ulysses batalhou com todas as forças para tornar-se candidato do PMDB, formou uma ampla coligação de partidos, teve o maior tempo na televisão – e chegou à reta final num melancólico sétimo lugar. José Serra, que em determinado momento da campanha viu ameaçada sua chance de disputar o segundo turno com Lula, fez um papel muito melhor que o de Ulysses, mas também não pôde evitar a derrota. Um ponto que une os dois é a falta de carisma, aquele atributo que cria empatia com o eleitor e encanta as massas – e cuja ausência é o mesmo que arar no mar.

Joedson Alves/AE
Artur da Távola, um dos amigos íntimos de Serra: tentativa fracassada de permanecer na cadeira de senador

Fundindo a falta de carisma com a ambigüidade de ser um continuador de oposição, José Serra não teve dificuldade para conquistar apenas o eleitor, mas até os próprios aliados. Começou sua campanha com o apoio fiel de dez deputados federais do PSDB. Terminou com o apoio de doze. O diretório do partido em São Paulo, seu reduto político, só se moveu a seu favor na reta final. Nem mesmo políticos que chegaram a ser cogitados para compor sua chapa se empenharam na campanha. O governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, convidado a ser vice de Serra, passou a maior parte do primeiro turno voltado para a própria campanha reeleitoral. O senador gaúcho Pedro Simon, cujo nome também surgiu nas listas de candidatos a vice, sumiu da campanha de Serra quando as pesquisas só traziam números ruins e voltou a aparecer já perto do fim. O ex-deputado catarinense Luiz Henrique, outro vice-presidenciável de Serra, protagonizou o episódio mais constrangedor: trocou de lado. Encerrou sua campanha ao governo de Santa Catarina defendendo abertamente a candidatura de Lula.

Armando Favaro/AE
José Aníbal, ativo membro da tropa de choque eleitoral de Serra: quarto lugar na corrida ao Senado

A batalha de Serra para chegar ao Palácio do Planalto é um retrato de sua obstinação, uma marca em sua trajetória pessoal. Nascido no bairro da Mooca, filho único de um modesto casal de imigrantes, pai italiano e mãe argentina, Serra quis ser muita coisa na infância – de chefe de fábrica a dono de mercearia da esquina, numa possível influência do pai, que passou boa parte da vida atrás de um balcão de frutaria no Mercado Municipal de São Paulo. Sua vontade de virar político e, quem sabe, um dia ocupar a Presidência da República apareceu pela primeira vez em algum momento da adolescência. No científico, equivalente hoje ao ensino médio, e depois na universidade, Serra começou a militar no movimento estudantil, conheceu seus primeiros companheiros de política e tratou de vencer o que considerava o obstáculo inicial à carreira pública: a timidez, traço herdado do pai. Para tanto, passou a declamar poesia no banheiro de casa para ganhar confiança e melhorar a impostação de voz.

Chegou à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE), amargou anos de exílio depois do golpe militar de 1964 e, no retorno ao Brasil, retomou a carreira pública como secretário do Planejamento do governador Franco Montoro, nos anos 80. Desde que Fernando Henrique se elegeu presidente, Serra passou a considerar-se seu sucessor em potencial. Na campanha, porém, também teve atritos com o próprio governo. Serra e Fernando Henrique falaram-se praticamente todos os dias durante a batalha eleitoral, mas as conversas nem sempre foram amenas. Em pelo menos três oportunidades Serra se zangou com declarações do presidente por julgá-las prejudiciais à campanha. Não gostou quando FHC veio a público dizer que diploma era irrelevante para pleitear a Presidência, desautorizando um ataque a Lula feito pelo programa tucano. Irritou-se quando o jornal argentino Clarín informou que FHC, em conversa reservada com o presidente Eduardo Duhalde, dissera que Lula ganharia a eleição. Zangou-se com FHC por ter dito que o Brasil manteria o rumo com a vitória de qualquer concorrente, dando um aval de credibilidade a Lula que a campanha tucana pretendia tirar.

Orlando Brito
Frederic Jean
Sergio Motta (à esq.), que queria Serra na sucessão de FHC, e Mário Covas, que defendeu a candidatura de Tasso ao Planalto

Serra também combateu, e tentou neutralizar, várias ações oficiais. Chegou a pedir a cabeça de Francisco Gros, presidente da Petrobras, logo depois do anúncio de um aumento no preço da gasolina e do gás de cozinha, medida altamente impopular. Em visita ao Rio Grande do Sul na época em que o aumento foi decretado, Serra não conteve a ironia. "Sem dúvida, a Petrobras faz reajustes muito oportunos, a três ou quatro dias da eleição", desabafou, corrigindo-se logo em seguida para não dar a impressão de que gostaria de ver a máquina do governo atuando eleitoralmente em seu favor. Em outra ocasião, o então candidato reclamou da equipe econômica quando houve mudança de regras nos fundos de renda fixa. Mais tarde, aborreceu-se quando o Banco Central aumentou a taxa de juros de 18% para 21%, decisão que, faltando duas semanas para a eleição, soou como o tiro de misericórdia nas pretensões presidenciais do tucano.

Ricardo Stuckert
Luís Eduardo Magalhães, do PFL baiano: sua morte deixou o caminho livre para Serra

José Serra sempre gostou de dizer que é um político que "cresce na dificuldade". Nas últimas semanas de campanha, esse atributo manifestou-se com mais clareza: a iminência da derrota p"top">

Luís Eduardo Magalhães, do PFL baiano: sua morte deixou o caminho livre para Serra

José Serra sempre gostou de dizer que é um político que "cresce na dificuldade". Nas últimas semanas de campanha, esse atributo manifestou-se com mais clareza: a iminência da derrota parece ter vitaminado sua disposição de ir à luta. Apesar de toda a adversidade que enfrentava, Serra adensou seus ataques a Lula, começou a aparentar mais calma, sorria com maior freqüência e, nas entrevistas, demonstrava um nível de segurança que não chegou a exibir no primeiro turno da campanha. "Serra está sendo um bravo", comentou FHC. Afinal, Serra estava jogando por uma aposta que sempre o seduzira e cujo caminho pavimentou com o zelo de um engastador de pedras preciosas. Em 1996, por exemplo, quando disputou a prefeitura de São Paulo com Celso Pitta, o tucano vetou a exibição de um programa eleitoral que satirizava o fato de Pitta ser carioca, e não paulista. Na cena, o torcedor de um time paulista entrava num bar vestindo a camiseta do Flamengo e, diante da surpresa dos amigos, dizia que já estava se acostumando, caso "o carioca" vencesse a eleição. Serra barrou a sátira. Um dia se candidataria ao Palácio do Planalto e, nessa empreitada, precisaria do eleitorado fluminense.

Claudio Rossi
O ex-governador Tasso Jereissati, eleito senador pelo Ceará: o PSDB chegou a um ponto de inflexão


Para os tucanos, é relevante descobrir o que aconteceu de errado, mas, para a política em geral, é mais importante conhecer os efeitos da derrota no jogo nacional do poder. Nascido da costela do PMDB, em 1988, em repúdio à excessiva liberalidade ética de algumas lideranças peemedebistas, o PSDB surgiu com ideário social-democrata. Na época, era um partido médio, com quarenta deputados em Brasília. Defendia o parlamentarismo, o voto distrital, a fidelidade partidária e a interferência econômica do Estado para resolver a ineficiência do mercado. Com apenas sete anos de existência, os tucanos, num salto vertiginoso, chegaram à Presidência da República e, bafejados pela realidade do poder, sofreram a primeira mutação ideológica. Não se implantaram o parlamentarismo, o voto distrital nem a fidelidade partidária. No campo econômico, o governo decidiu privatizar estatais, livrar-se dos bancos estaduais e quebrar o monopólio estatal do petróleo, empreitadas que enfrentou com o apoio do PMDB e, principalmente, do PFL. "O partido ficará menos ideológico e mais pragmático do que é hoje", diz José Richa, um dos fundadores.

E, agora, para onde vai o PSDB? A partir de janeiro de 2003, quando Luís Inácio Lula da Silva tomar posse, o partido começará a recolher os cacos da derrota e a sentir os efeitos da inevitável mudança geracional. Não terá Fernando Henrique Cardoso no Palácio do Planalto. Lá também não terá José Serra. Mário Covas, que exerceu por anos uma liderança incontrastável no partido, já se foi. Também partiu Sergio Motta, que foi ministro das Comunicações, braço direito de Fernando Henrique e que, com seu jeito ativo, parecia encarnar a garra e a energia no projeto tucano de poder. Essas estrelas do PSDB estiveram no centro da política brasileira por muitos anos. A dupla Serra-FHC destacou-se na Constituinte, foi chamada a salvar Fernando Collor quando o governo entrou em crise – proposta devidamente recusada – e participou do grupo que deu governabilidade a Itamar Franco. A derrota de Serra suspende por tempo indeterminado o projeto do PSDB. Sergio Motta achava que o partido comandaria o país por vinte anos. O primeiro passo era eleger Fernando Henrique. A ameaça, depois, era enfrentar a liderança ascendente do deputado Luís Eduardo Magalhães, do PFL baiano, mas ele também se foi. O campo ficou livre para Serra. Mas não deu certo.

Marcia Gouthier/Folha Imagem
Paulo Renato, colega de ministério: ele chegou a ter ambição de suceder a FHC. Serra o atropelou

Nem tucanos de alta plumagem conseguiram emplacar. O senador Artur da Távola, um dos amigos mais íntimos de Serra, não conseguiu reeleger-se no Rio de Janeiro. O deputado José Aníbal, um dos coordenadores da campanha de Serra e membro ativo de sua tropa de choque eleitoral, ficou em quarto lugar na disputa ao Senado por São Paulo. Com o afastamento de Fernando Henrique e Serra, a estrela maior do partido desloca-se de endereço. Deixa São Paulo e passa para Minas Gerais, onde Aécio Neves, governador eleito no primeiro turno, muda de patamar com o resultado das urnas. Outra figura de destaque nacional é Tasso Jereissati. O senador eleito pelo Ceará não é propriamente um novato na política, mas não se pode dizer que fizesse parte do núcleo central do governo FHC. Suas relações com a chamada ala paulista do PSDB nunca foram fraternais, a não ser com Mário Covas. Tanto que, na semana passada, Tasso e Aécio já começaram a se articular e tentam convencer um ex-tucano a voltar às origens – Ciro Gomes, que concorreu ao Planalto pelo PPS e apoiou Lula no segundo turno.

Por ironia, Tasso tende a obter mais poder em Brasília com Lula do que obteria com Serra, com quem se desentendeu politicamente para apoiar a candidatura de Ciro e a quem deu apoio constrangido na segunda rodada. Antes mesmo do primeiro turno, Tasso já tinha um diagnóstico pronto a respeito da mudança de perfil do partido. "Todo um grupo de intelectuais, acadêmicos ligados ao Serra e ao Fernando Henrique que sempre predominaram como pensamento dentro do PSDB, naturalmente perde o espaço na cena", dizia. Resta saber como os tucanos se portarão em relação a Lula e que tratamento o presidente eleito pretende dar a eles. Pelas declarações já conhecidas, Lula e Tasso até podem iniciar um namoro – e existem alguns sinais, ainda envergonhados, de que parte do PSDB pode vir a integrar a base de sustentação do novo governo petista. Aécio Neves, por sua vez, subiu ao palanque de Serra na reta final da campanha e gravou depoimento a favor do candidato do PSDB no horário eleitoral gratuito, mas fez questão de frisar que os tucanos não podiam dinamitar as pontes com os petistas. A quatro dias da eleição, depois de uma reunião com o presidente Fernando Henrique e outros altos tucanos para avaliar a campanha de Serra, Aécio anunciou que o PSDB faria oposição ao governo do PT – mas uma "oposição responsável, e não sistemática".

Uma primeira olhada para a eventual associação entre petistas e tucanos, ou pelo menos parte deles, sugere certa incongruência. Afinal, em oito anos de poder o PSDB liderou o processo de mudanças neoliberais e agora pode vir a aliar-se a um governo de esquerda. A incongruência, porém, esconde sutilezas dos partidos – é possível desvendar uma faceta esquerdista dentro do PSDB e uma faceta social-democrata dentro do PT. Além disso, a história mostra que os partidos políticos no Brasil são como pessoas. Nascem, crescem, amadurecem e acabam morrendo com o tempo. A longevidade das legendas varia, mas a cronologia política mostra que o ciclo se repete. Os principais partidos criados no Império resistiram quase sessenta anos. No conjunto, foram os mais estáveis da história. O PCB foi fundado em 1922 e resistiu setenta anos com o mesmo nome até virar PPS. Os partidos fundados na ditadura militar sobreviveram catorze anos. O PMDB, origem dos tucanos, é um dos mais velhos da praça. Tem 37 anos, considerando que permaneceu o mesmo desde o tempo em que se chamava MDB. Quem sabe agora, com a eleição de Lula e a derrota de Serra, o PSDB tenha chegado a um novo ponto de inflexão. A história dirá.
 
 
   
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