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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
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Um mundo arriscado e hostil

A globalização financeira dos anos 90
foi um ciclo que chegou ao fim, mas
o mercado continua intolerante
com governos gastadores

Lucila Soares

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A companheira é fogo
Os vermelhos chegaram ao poder
Na internet
Cobertura completa no site Eleições 2002

Um artigo recente escrito pelo economista americano John Williamson trazia um título curto e atemorizante: "O Brasil é a bola da vez?". Williamson, que trabalha no Instituto Internacional de Economia, em Washington, gastou 24 páginas para responder à pergunta. Sua conclusão é que, depois do empréstimo de 30 bilhões recebido do Fundo Monetário Internacional (FMI) em agosto, o Brasil tem uma chance melhor de espantar o pânico do mercado e "evitar a implosão da economia que certamente se seguiria a uma reestruturação da dívida". Em bom português, com os dólares do Fundo fica mais distante o risco de uma moratória brasileira seguida de recessão. Mas o Brasil ainda pode virar uma Argentina? O Brasil pode quebrar? O sucessor de Fernando Henrique ficará sabendo rapidamente se sua Presidência vai se manter ou afundar dependendo de como ele manejar as finanças públicas. Aos olhos do mundo, o desafio inaugural do novo governo será demonstrar que ele sabe como manter o país em condições de pagar suas contas.

O mercado não gosta nem desgosta do Brasil. Os investidores fazem suas equações para calcular a capacidade de pagamento que um país tem e, conforme o resultado, passam a especular com a possibilidade de sucesso ou de fracasso da economia na qual têm recursos aplicados. Nos meses que precederam a eleição do novo presidente, o mercado especulou contra. Pela conta que se fazia, para se manter à tona o Brasil teria de produzir um superávit primário de 5%. Como esse indicador está em 3,88%, a quebra era questão de tempo, segundo a equação dos economistas. Como se sabe, o superávit primário é o que fica no caixa depois de feitas todas as despesas do governo com exceção do pagamento dos juros da dívida.

Existe outro tipo de especulação, essa positiva, em que o mercado passa a apostar no sucesso de determinado país. Dependendo do anúncio da equipe econômica e das primeiras medidas, o novo presidente pode colocar o mercado especulando positivamente a favor do Brasil. O mundo é hostil. Mas é de uma hostilidade fria e calculista. "Quando a conclusão geral é que o país é solvente, então os especuladores começam a apostar em seu sucesso", diz John Williamson. Documentos como o produzido por ele são uma ótima leitura para o novo presidente. Seu texto enxuto, sem adjetivos nem elucubrações, dá uma idéia muito segura de como funciona a cabeça dos investidores. Sondá-la agora é um imperativo.

Há um consenso de que mudou para pior o ambiente externo que brindou Fernando Henrique Cardoso durante quase todo o seu governo com uma brisa favorável. Os indicadores são muitos. FHC, é verdade, enfrentou crises terríveis, espasmos da globalização vindos primeiro da Ásia, depois da Rússia. Eles cobraram um preço alto da economia brasileira. A quebra da Argentina também feriu a economia do Brasil. O cenário externo agora é de uma crise permanente. Depois do ataque terrorista aos Estados Unidos, em setembro do ano passado, a economia mundial entrou num rumo recessivo que vem resistindo às medidas clássicas de recuperação que deram certo no passado. "Raramente tenho visto uma convergência de fatores tão adversos como agora", diz o ex-ministro da Fazenda Marcílio Marques Moreira, consultor da Merrill Lynch. Existe uma aversão mundial ao risco. Esse sentimento tem dois efeitos relacionados. Nos EUA, o medo de investir achatou o mercado de ações. No front externo, tirou o apetite dos investidores de colocar parte de seu dinheiro em aplicações em países emergentes, como fizeram no decorrer da década passada. Para piorar, o preço do petróleo deve subir por causa de um ataque americano ao Iraque. Por essas razões, o mundo passou a monitorar a economia dos países emergentes com uma lente ainda mais forte. "A tolerância dos mercados para o que consideram inconsistências de política macroeconômica, que já era curta, passou a ser zero", observa Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas.

As mudanças de cenário podem ser ainda mais profundas. No auge da prosperidade americana nos anos 90, parecia que a globamais forte. "A tolerância dos mercados para o que consideram inconsistências de política macroeconômica, que já era curta, passou a ser zero", observa Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas.

As mudanças de cenário podem ser ainda mais profundas. No auge da prosperidade americana nos anos 90, parecia que a globalização era um fenômeno cujos problemas derivavam apenas do fato de suas receitas não terem sido aplicadas em todos os países. Aceitava-se também como verdade que países bafejados pela globalização, e que mesmo assim afundaram, foram à bancarrota por não aplicar integralmente as lições emanadas de Washington. Fazia algum tempo que já estava claro que era preciso repensar essas certezas. Uma das mais vitais: que o fim do comunismo e a globalização financeira tinham lançado uma nova era de crescimento global. Acreditava-se que, com o aumento do fluxo de capitais dos países industrializados para os emergentes, haveria um enriquecimento geral, baseado na expansão do comércio mundial e na transferência de tecnologia. A rigor, apenas dois países saíram claramente vencedores do processo de globalização, a China e a Índia. Calcula-se que as reformas liberais no país de Mao Tsé-tung tiraram da pobreza cerca de 700 milhões de chineses. Em dez anos, a China viu nascer uma classe média quase tão numerosa quanto a classe média americana. "Agora sabemos que a década de 90 foi um ciclo, não uma tendência", diz o economista Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real e consultor do banco BBA. Hoje vem se firmando uma tese menos monolítica. O próprio FMI aceitou a idéia de que deve tutelar menos a economia dos países-membros e ajudá-los a prevenir crises com maior eficiência. "A idéia de que podem coexistir diversos tipos de capitalismo é um avanço formidável", explica o americano Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia do ano passado.

Outro mito derrubado pelo fim da euforia dos anos 90 foi que à liberdade para o capital corresponderia uma maior liberdade comercial. Não só isso não aconteceu como agora, com a recessão global, o que se vê é uma nova onda de protecionismo – tanto nos EUA quanto na União Européia. "Os países ricos são hipócritas ao pregar abertura para os pobres", sintetizou recentemente Nick Stern, economista-chefe do Banco Mundial, ao divulgar um estudo feito em conjunto com o FMI sobre comércio mundial. Foi a primeira vez que os dois organismos dissecaram as relações comerciais entre ricos e pobres e trouxeram à luz o tamanho das disparidades. Os números são impressionantes. Os países industrializados gastam só na agricultura subsídios da ordem de 1 bilhão de dólares por dia. O fim de todos os subsídios significaria, para a economia mundial, uma injeção de 500 bilhões de dólares por ano – dez vezes mais que toda a ajuda financeira que os ricos destinam aos demais.

O governo que assume em janeiro de 2003 encontrará um mundo que, apesar de toda a pregação a favor dos países emergentes e da flexibilização das políticas econômicas, exige regras estritas de comportamento. Gastar menos do que se arrecada e manter certo grau de abertura da economia continuam sendo regras básicas de convivência internacional. O câmbio flutuante e a eliminação de restrições à movimentação do capital são pré-requisitos para atrair capital externo. Cobrar menos impostos, de maneira mais racional, e permitir que empresas contratem e demitam funcionários com mais liberdade se mantêm como recomendações básicas para o país que precisa crescer. Tudo isso valeu nos anos 90. E vale agora. O que mudou foi o fato de que hoje os governos que seguirem essa receita não estão baixando a cabeça para os ditames de Washington. Estão apenas defendendo os interesses nacionais.

 
 
   
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