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Um
mundo arriscado e hostil
A globalização financeira dos anos 90
foi um ciclo que chegou ao fim, mas
o mercado continua intolerante
com governos gastadores
Lucila
Soares

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Um
artigo recente escrito pelo economista americano John Williamson trazia
um título curto e atemorizante: "O Brasil é a bola da vez?".
Williamson, que trabalha no Instituto Internacional de Economia, em Washington,
gastou 24 páginas para responder à pergunta. Sua conclusão
é que, depois do empréstimo de 30 bilhões recebido
do Fundo Monetário Internacional (FMI) em agosto, o Brasil tem
uma chance melhor de espantar o pânico do mercado e "evitar a implosão
da economia que certamente se seguiria a uma reestruturação
da dívida". Em bom português, com os dólares do Fundo
fica mais distante o risco de uma moratória brasileira seguida
de recessão. Mas o Brasil ainda pode virar uma Argentina? O Brasil
pode quebrar? O sucessor de Fernando Henrique ficará sabendo rapidamente
se sua Presidência vai se manter ou afundar dependendo de como ele
manejar as finanças públicas. Aos olhos do mundo, o desafio
inaugural do novo governo será demonstrar que ele sabe como manter
o país em condições de pagar suas contas.
O mercado
não gosta nem desgosta do Brasil. Os investidores fazem suas equações
para calcular a capacidade de pagamento que um país tem e, conforme
o resultado, passam a especular com a possibilidade de sucesso ou de fracasso
da economia na qual têm recursos aplicados. Nos meses que precederam
a eleição do novo presidente, o mercado especulou contra.
Pela conta que se fazia, para se manter à tona o Brasil teria de
produzir um superávit primário de 5%. Como esse indicador
está em 3,88%, a quebra era questão de tempo, segundo a
equação dos economistas. Como se sabe, o superávit
primário é o que fica no caixa depois de feitas todas as
despesas do governo com exceção do pagamento dos juros da
dívida.
Existe outro
tipo de especulação, essa positiva, em que o mercado passa
a apostar no sucesso de determinado país. Dependendo do anúncio
da equipe econômica e das primeiras medidas, o novo presidente pode
colocar o mercado especulando positivamente a favor do Brasil. O mundo
é hostil. Mas é de uma hostilidade fria e calculista. "Quando
a conclusão geral é que o país é solvente,
então os especuladores começam a apostar em seu sucesso",
diz John Williamson. Documentos como o produzido por ele são uma
ótima leitura para o novo presidente. Seu texto enxuto, sem adjetivos
nem elucubrações, dá uma idéia muito segura
de como funciona a cabeça dos investidores. Sondá-la agora
é um imperativo.
Há
um consenso de que mudou para pior o ambiente externo que brindou Fernando
Henrique Cardoso durante quase todo o seu governo com uma brisa favorável.
Os indicadores são muitos. FHC, é verdade, enfrentou crises
terríveis, espasmos da globalização vindos primeiro
da Ásia, depois da Rússia. Eles cobraram um preço
alto da economia brasileira. A quebra da Argentina também feriu
a economia do Brasil. O cenário externo agora é de uma crise
permanente. Depois do ataque terrorista aos Estados Unidos, em setembro
do ano passado, a economia mundial entrou num rumo recessivo que vem resistindo
às medidas clássicas de recuperação que deram
certo no passado. "Raramente tenho visto uma convergência de fatores
tão adversos como agora", diz o ex-ministro da Fazenda Marcílio
Marques Moreira, consultor da Merrill Lynch. Existe uma aversão
mundial ao risco. Esse sentimento tem dois efeitos relacionados. Nos EUA,
o medo de investir achatou o mercado de ações. No front
externo, tirou o apetite dos investidores de colocar parte de seu dinheiro
em aplicações em países emergentes, como fizeram
no decorrer da década passada. Para piorar, o preço do petróleo
deve subir por causa de um ataque americano ao Iraque. Por essas razões,
o mundo passou a monitorar a economia dos países emergentes com
uma lente ainda mais forte. "A tolerância dos mercados para o que
consideram inconsistências de política macroeconômica,
que já era curta, passou a ser zero", observa Carlos Langoni, diretor
do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio
Vargas.
As mudanças
de cenário podem ser ainda mais profundas. No auge da prosperidade
americana nos anos 90, parecia que a globamais forte. "A tolerância dos mercados para o que
consideram inconsistências de política macroeconômica,
que já era curta, passou a ser zero", observa Carlos Langoni, diretor
do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio
Vargas.
As mudanças
de cenário podem ser ainda mais profundas. No auge da prosperidade
americana nos anos 90, parecia que a globalização era um
fenômeno cujos problemas derivavam apenas do fato de suas receitas
não terem sido aplicadas em todos os países. Aceitava-se
também como verdade que países bafejados pela globalização,
e que mesmo assim afundaram, foram à bancarrota por não
aplicar integralmente as lições emanadas de Washington.
Fazia algum tempo que já estava claro que era preciso repensar
essas certezas. Uma das mais vitais: que o fim do comunismo e a globalização
financeira tinham lançado uma nova era de crescimento global. Acreditava-se
que, com o aumento do fluxo de capitais dos países industrializados
para os emergentes, haveria um enriquecimento geral, baseado na expansão
do comércio mundial e na transferência de tecnologia. A rigor,
apenas dois países saíram claramente vencedores do processo
de globalização, a China e a Índia. Calcula-se que
as reformas liberais no país de Mao Tsé-tung tiraram da
pobreza cerca de 700 milhões de chineses. Em dez anos, a China
viu nascer uma classe média quase tão numerosa quanto a
classe média americana. "Agora sabemos que a década de 90
foi um ciclo, não uma tendência", diz o economista Edmar
Bacha, um dos pais do Plano Real e consultor do banco BBA. Hoje vem se
firmando uma tese menos monolítica. O próprio FMI aceitou
a idéia de que deve tutelar menos a economia dos países-membros
e ajudá-los a prevenir crises com maior eficiência. "A idéia
de que podem coexistir diversos tipos de capitalismo é um avanço
formidável", explica o americano Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio
Nobel de Economia do ano passado.
Outro mito
derrubado pelo fim da euforia dos anos 90 foi que à liberdade para
o capital corresponderia uma maior liberdade comercial. Não só
isso não aconteceu como agora, com a recessão global, o
que se vê é uma nova onda de protecionismo tanto nos
EUA quanto na União Européia. "Os países ricos são
hipócritas ao pregar abertura para os pobres", sintetizou recentemente
Nick Stern, economista-chefe do Banco Mundial, ao divulgar um estudo feito
em conjunto com o FMI sobre comércio mundial. Foi a primeira vez
que os dois organismos dissecaram as relações comerciais
entre ricos e pobres e trouxeram à luz o tamanho das disparidades.
Os números são impressionantes. Os países industrializados
gastam só na agricultura subsídios da ordem de 1 bilhão
de dólares por dia. O fim de todos os subsídios significaria,
para a economia mundial, uma injeção de 500 bilhões
de dólares por ano dez vezes mais que toda a ajuda financeira
que os ricos destinam aos demais.
O governo
que assume em janeiro de 2003 encontrará um mundo que, apesar de
toda a pregação a favor dos países emergentes e da
flexibilização das políticas econômicas, exige
regras estritas de comportamento. Gastar menos do que se arrecada e manter
certo grau de abertura da economia continuam sendo regras básicas
de convivência internacional. O câmbio flutuante e a eliminação
de restrições à movimentação do capital
são pré-requisitos para atrair capital externo. Cobrar menos
impostos, de maneira mais racional, e permitir que empresas contratem
e demitam funcionários com mais liberdade se mantêm como
recomendações básicas para o país que precisa
crescer. Tudo isso valeu nos anos 90. E vale agora. O que mudou foi o
fato de que hoje os governos que seguirem essa receita não estão
baixando a cabeça para os ditames de Washington. Estão apenas
defendendo os interesses nacionais.
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