| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
Crie seu grupo |
O que eles esperam de Lula
Dezesseis economistas, analistas
"O PT tem tido, nos últimos meses, posturas bastante sensatas, mas sua história torna difícil acreditar nesse compromisso com a estabilidade fiscal. O partido defendeu durante muito tempo o não-pagamento das dívidas públicas. Além disso, tem uma base extremamente corporativa e politicamente ativa, que se soma a uma tradição muito forte de defender a intervenção do Estado na economia, seja como produtor ou investidor. Há também uma posição extremamente protecionista em relação à indústria nacional. Tudo isso torna muito mais difícil obter a austeridade fiscal, o que é fundamental para um bom governo. Existe, portanto, o risco de que o governo Lula venha a se perder à medida que ceda a essas pressões. Há um outro dado. Os economistas do partido têm pouca experiência no mercado financeiro e em política monetária. Isso é ruim porque, num cenário de câmbio flutuante, a política monetária é fundamental. Este é um momento de riscos muito grandes e, por pura falta de experiência, pode-se colocar a perder todo o esforço de estabilização dos últimos oito anos. Apesar de tudo isso, devo reconhecer que me agrada muito a prioridade que o partido dá à questão social e o entendimento de que esse é o problema mais grave do país no longo prazo. Esse poderá ser o ponto forte do PT."
"O Lula
tem tantas condições de governar o Brasil quanto qualquer
um dos outros três candidatos com os quais concorreu. Essa idéia
de que o PT não tem quadros me parece um daqueles mitos sobre o
partido. O PT tem hoje representantes numa boa parcela do segundo escalão
do Banco Central, do Banco do Brasil, do Itamaraty. Tem uma participação
importante na Receita Federal e no BNDES. O PT está na máquina
do governo há muito tempo. Só quem não conhece o
governo é que acha que faltam quadros ao PT. Mas é preciso
que trabalhe com inteligência. O partido deve apresentar claramente
as condições para o Brasil superar as dificuldades existentes.
Basicamente, isso inclui absoluto respeito à propriedade privada,
aos contratos e à política econômica acertada com
o FMI. Esse é o caminho mais curto para ganhar credibilidade e
ir lentamente corrigindo a herança recebida. As instituições
estão funcionando normalmente e não há, portanto,
nenhum risco de que algo seja feito sem aprovação do Congresso.
Espero que Lula nos diga tão logo quanto possível que reforma
tributária vai fazer e como vai enfrentar o problema da Previdência
Social. Ele deve dar esperanças ao povo brasileiro. Isso significa
demonstrar que seu programa, num prazo razoável, absorverá
a nova mão-de-obra que entra no mercado e começará
a reduzir o estoque de desempregados."
"Espero que o PT seja capaz de governar em ordem e em direção ao progresso. O governo central é uma prova à qual o partido ainda não foi submetido. Temos uma história de relação difícil entre o setor agrícola e o PT, que continua com idéias obsoletas, com preconceitos em relação à questão fundiária e com ligação direta com o Movimento dos Sem-Terra. Se num passado recente o MST foi capaz de invadir a fazenda do presidente da República, não se sabe a que ponto chegaria num governo Lula. Há uma outra inquietação no setor. Ela é motivada pela maneira com que Lula se refere à agricultura familiar, indicando que haverá uma prevalência dela em relação à agricultura empresarial. Isso é um erro. Ela pode ser importante do ponto de vista social, e por isso merece investimentos sociais, desde que não faltem investimentos na agricultura empresarial. O empresário rural é o responsável pela pujança do setor agrícola brasileiro e pela sanidade das contas públicas. O superávit do setor foi de 20 bilhões de reais neste ano. Para que mantenhamos esse ritmo, são necessários investimentos em tecnologia, luta contra o protecionismo e aumento da capacidade de investimento do produtor. Tudo isso depende de apoio forte do governo federal, e que não sei se haverá."
"Lula será o presidente eleito com maior carga de responsabilidade desde o fim do regime militar. Criou muitas expectativas e alertou para poucos contratempos e riscos. Deu declarações muito contraditórias ao longo da campanha. Criou expectativa muito negativa no mercado financeiro e muito positiva naqueles setores aos quais prometeu mudanças que não são viáveis tendo em vista o cenário doméstico e internacional. Um outro desafio é o da coalizão de forças majoritárias. Terá de fazer alianças com setores com os quais nunca se aliou. O PT também não tem noção completa da quantidade de mudanças pelas quais o país passou. Há uma classe média toda nova. Por causa dela o PT mudou, mas ainda de forma rasa. As forças novas são muito mais ligadas à parte do país que avança econômica e socialmente, e o PT mostrou que não tem muita noção da nova correlação de forças ao buscar alianças com a parte mais atrasada, com as forças decadentes. Incluem-se aí o pedaço mais nacionalista do patriciado industrial de São Paulo e a parte das Forças Armadas mais ligada a conceitos atrasados de geopolítica. Lula vive hoje um momento contraditório, porque o PT ainda não fez a transição para a visão da sociedade brasileira que certamente terá no futuro."
"Suponho
que Lula vá ter muita oposição do capital financeiro
nacional e internacional, assim como das oligarquias políticas.
Os grandes líderes históricos são grandes líderes
populares, dirigentes partidários e estadistas. Nos dois primeiros
casos, Lula tem experiência de sobra. Não se trata de ser
um administrador. Trata-se de ser estadista. Não é ter administrado
prefeitura ou governo do Estado. Terá de ter a consciência
que mostrou na campanha. Terá de ter o caráter e a força
para dizer 'não' como teve em toda a campanha eleitoral para dizer
'sim'. Afinal, toda afirmação é uma negação.
Espero que seu governo reforme o Brasil na direção de uma
sociedade mais justa, menos mercantilizada, mais humanista, mais solidária.
Para isso, precisa romper com a política do ministro Pedro Malan.
Espero que em lugar da Alca ele promova uma política de integração
latino-americana e de fortalecimento do Mercosul. Espero que ele faça
uma reforma democrática do Estado, incluindo o orçamento
participativo. Que promova a reforma agrária e a distribuição
de renda com um modelo econômico voltado para um mercado interno
de consumo popular."
"Vai haver uma continuidade da política econômica que está sendo seguida pelo governo Fernando Henrique Cardoso. O empréstimo do FMI, que disponibiliza 24 bilhões de dólares para o Brasil, depende da capacidade de obter superávits primários. Lula se comprometeu com o acordo. Espero também continuidade da política monetária. Poderia apostar que será seguida a mesma política de metas de inflação, com a qual será possível obter índices anuais baixos, talvez menores que 6%. Acho que Lula terá de fazer a reforma fiscal nos primeiros dias de seu governo. Há uma cobrança de impostos em cascata e em duplicidade da ordem de 40% no Brasil. Por isso, a reforma tributária é urgente. Outra área em que haverá reforma será a Previdência Social. Como o PT não terá maioria dos deputados e dos senadores na próxima legislatura, precisará firmar compromissos com outros partidos. A base de apoio do PT deverá estar no PSDB e no PMDB. O PSDB deverá ser também uma fonte de ministros. Não estou deduzindo que não haverá uma mudança no governo. Haverá, sim, mas vejo muito mais a continuidade do que uma revolução."
"Nossa esperança é que o governo Lula, tão consciente da importância crítica da indústria para o crescimento econômico, concentre o talento e a vontade de trabalhar de sua equipe ministerial na rápida solução dos nós que travam as forças produtivas deste país. Precisamos, no Brasil, de uma renovada parceria entre governo e empresários para liberar as energias e a vitalidade do capitalismo moderno. Uma equipe governamental realmente dinâmica e engajada poderá fazer maravilhas em favor da atividade produtiva do país, abrindo muito espaço, ao mesmo tempo, para uma ação determinada no plano social, a começar pela expansão do emprego. Nós da indústria mudamos bastante nestes anos e adotamos como nossos os temas da responsabilidade social das empresas. Do governo Lula também esperamos mudanças. Por exemplo, que deixe para trás eventuais traços corporativos e que não exagere em matéria de regulamentação governamental e de pressão burocrática. Esperamos uma relação amistosa de parceiros bem-intencionados, para o bem do país: de nossa parte, aceitamos a responsabilidade social, mas, de outro lado, desejamos a liberdade para empreender e o encorajamento para crescer mais depressa."
"Não
acredito que Lula fará um governo radical. Serão mudanças
graduais. Vai prevalecer a cautela. Lula receberá uma herança
macroeconômica e financeira muito pesada. Não vou dizer que
o governo estará todo amarrado, porque seria um exagero. Mas existem
restrições internas e um cenário internacional pesado.
Os riscos externos na área econômica e na área militar
são grandes. Há outra razão para supor que seja pragmático,
cauteloso. É o fato de que não terá maioria. Vai
ter de negociar para governar. Outra coisa é que as alas mais extremadas
dentro do PT são hoje mais fracas do que foram no passado. Isso
também influi de alguma maneira. Lula tentará provavelmente
fazer um ministério amplo, convocando outras forças políticas
que não só as da aliança. Ele não pode cometer
o erro de trair o eleitorado, o que significaria manter o modelo econômico
atual. Por outro lado, não pode renegar os compromissos, no sentido
de que não fará transformações abruptas, de
que cumprirá contratos. Vai ter de mostrar que o leão é
manso, senão perde a credibilidade. Será um governo com
muita dificuldade, e o primeiro ano talvez seja o mais difícil."
"O governo do PT vai ter de conciliar as expectativas de seu eleitorado com disciplina fiscal, baixa inflação e um mercado aberto e competitivo. Não espero um grande aumento do gasto público nem que contratos e direitos de propriedade sejam desrespeitados, mas não duvido que haja pressões fortes nesse sentido. Como o próximo ano vai ser difícil para a economia mundial, a tendência de investidores e credores externos será esperar para ver. A demora pode ser crucial. Será preciso muita habilidade política para lidar com as tensões que surgirão quando as mudanças esperadas não vierem no curto prazo. Espero que nesse momento o governo tenha cabeça fria para manter o rumo e não retomar idéias antigas, ainda não esquecidas por muitos do PT. Em termos de perfil da política econômica, acho que haverá mais intervenção na economia através de barreiras às importações, direcionamento do crédito e tolerância com estruturas industriais mais concentradas. A tendência é que haja mais inflação, ainda que muito longe da que tivemos no passado. Por outro lado, acho que Lula conseguirá avanços importantes na área social, acabando com gargalos no processo de negociação política, como é o caso das reformas administrativa e da Previdência."
"Com todas as restrições e blindagens atuais, a margem de manobra do novo governo será muito pequena se não for negociado um pacto em torno de um projeto de política econômica. Isso envolverá, no mínimo, o empresariado e o operariado organizado. Isso já foi tentado no passado, com resultados pífios, mas, a julgar pelas declarações das lideranças empresariais, a idéia é abrir caminho para um pacto bem-sucedido. A segunda coisa é a idéia de um projeto nacional. Nenhum novo governo, e muito especialmente o de Lula, pode repetir o discurso passado de inserção no processo de globalização. Por uma série de razões, mas principalmente por causa da crise econômica mundial. Outro dado é que a infra-estrutura no Brasil está fazendo água. Estamos com problemas muito sérios na rede rodoviária. Tenho certeza de que vai haver uma reconvocação da engenharia pesada em torno da infra-estrutura. O apagão foi uma espécie de avant-première. Se o Brasil não resolver logo a questão do abastecimento de energia, vai ter sua capacidade de exportação muito prejudicada."
"Lula não
tem nenhuma experiência prévia que nos dê uma indicação
do que vai fazer. Tudo vai depender das restrições que encontrar.
A maior delas é o acordo com o FMI. Ao mesmo tempo que coloca 24
bilhões de dólares nas mãos do próximo presidente,
esse acordo vai exigir um superávit primário mínimo
para que se alcance uma redução da dívida pública
em relação ao produto interno bruto. Vai ser difícil,
portanto, evitar uma redução de gastos, o que já
seria um cenário difícil para qualquer governo. A segunda
restrição, que é parte da primeira, é que
o próximo governo de fato não vai contar com a principal
ferramenta usada pelo Fernando Henrique, que foi o aumento da receita.
Sem as receitas extras pagas ao governo em 2002 que não
se repetirão , o governo Lula terá 16 bilhões
de reais a menos no caixa. Por isso, é mais importante manter o
Everardo Maciel do que o Armínio Fraga, como se falou num determinado
momento. O secretário da Receita Federal foi quem conseguiu gerar
as condições que garantiram a estabilidade. Não é
qualquer um que vai chegar lá e fazer a mesma coisa. A função
da pessoa naquele lugar é arrecadar."
"O PT apresentou teses novas e, se elas forem implementadas, de fato pode-se ter um bom governo. Fala em manutenção da estabilidade, equilíbrio fiscal, superávit mínimo acertado com o FMI e inflação sob controle. Mas é claro que Lula tentará imprimir a marca de um governo petista. A questão é saber até que ponto, na implementação das políticas do governo, ele vai respeitar esses parâmetros da responsabilidade fiscal e monetária. As bases do partido são formadas por setores que querem uma mudança mais radical na política econômica. Esses setores querem colher frutos mais imediatos, o que nem sempre é factível. A grande dúvida é sobre a capacidade de resistir a essa impaciência tanto do partido quanto da sociedade. De maneira geral, o PT não vai ter a boa vontade inicial do mercado e dos investidores. Além disso, a situação externa neste momento é muito mais grave do que no começo do governo Fernando Henrique, quando houve a crise do México. O PT nunca foi testado nessas condições. A gestão nos Estados é muito menos complexa do que no nível federal. O PT está dizendo que o pessoal da área econômica poderá vir de fora do partido, o que é bom."
"O Brasil avançou muito no governo Fernando Henrique e está com suas instituições preparadas para um governo Lula. O PT também se preparou para chegar ao poder. Portanto, não espero um retrocesso, seja institucional, de quebra de contratos, na condução política ou no relacionamento com os empresários. Acredito na normalidade das relações entre o governo e a sociedade. Temo um pouco a inexperiência nas questões nacionais, porque o PT nunca esteve no governo federal. A equipe de Fernando Henrique é muito experiente e, no entanto, derrapou. Ninguém é infalível. Ou seja, sempre há risco na condução dos problemas. A gente não sabe quais serão as primeiras medidas de Lula. Deve haver alguma turbulência, mas depois se acerta. No primeiro ano em que fui presidente de empresa, também fiz besteira. Com a experiência, você vai melhor. O passado não me assombra. Todo mundo evolui. Temos uma experiência muito boa com o governo petista do Rio Grande do Sul. Quando se tem uma função definida na sociedade, não há o que temer."
"Eu não
tenho dúvida de que será mantida a estabilidade institucional
e econômica do país. No caso específico de Luís
Inácio Lula da Silva, há um compromisso público e
formal nessa direção. O que se espera, e que ele prometeu
em sua campanha, é a reativação da atividade econômica
como condição para poder melhorar a sorte dos trabalhadores.
A rigor, é isso que se tem de esperar de seu governo. As instituições
estão preparadas para enquadrar qualquer governo, não importa
a doutrina. O que acontece é que o Brasil está absolutamente
consciente das limitações que decorrem do cenário
internacional e dos compromissos que o país tem com seus credores.
No plano interno, há muitas outras questões que podem ser
igualmente bem administradas. No que diz respeito à segurança,
esse é um problema de competência e liderança. Se
o líder for competente, dá conta do recado. O que se precisa
é ter liderança sobre as polícias. Basta isso. No
mais, é com as instituições. Cada um dos poderes
agirá dentro dos limites de sua competência."
"As quatro provações do governo Lula serão as demandas de aumento salarial por parte do funcionalismo público, as pressões para a renegociação das dívidas de Estados e municípios, a pressão pela redução da taxa de juros e o aumento do salário mínimo. Serão tentações presentes no dia seguinte à posse. Se cair em qualquer uma delas, pode passar o resto do tempo correndo atrás do prejuízo. Ele terá de mostrar, nesse contexto tão difícil, que é capaz de deter o crescimento da dívida pública. E estará navegando em meio à crise de confiança e a um quadro internacional muito deteriorado. Vai ter de operar com tolerância zero ao erro, sob o risco de disparar uma onda de suspeição sobre seu governo. Também terá oportunidades. O primeiro ponto positivo é que a economia está reprimidíssima. Existe, por isso, um elevado potencial de crescimento. O segundo é que já houve uma espetacular virada nas relações com o exterior. Saímos de um déficit de transações correntes de 33 bilhões de dólares em 1998 para 14 bilhões de dólares em 2002. O terceiro grande trunfo é que o PT tem políticos e administradores experientes, que já passaram por situações difíceis e grandes frustrações e já aprenderam a governar sem dinheiro."
"A primeira
coisa que espero é que a equipe nomeada por Lula seja competente,
honesta e tenha credibilidade. E que essa equipe firme compromissos claros
com a Lei de Responsabilidade Fiscal e com a retomada do crescimento.
Os grandes problemas que pairam hoje sobre o país poderão
ser resolvidos. Isso também deverá melhorar bastante a perspectiva
para os investidores, principalmente os estrangeiros. Claro que o anúncio
da equipe, em si, não será um passe de mágica para
dissipar as dúvidas e as preocupações que o investidor
estrangeiro tem hoje, porque o problema não está só
no Brasil. É mundial. A incerteza com relação à
política a ser adotada no Brasil é só um complicador
a mais. Vai haver um período de observação no qual
se examinará para que lado o governo vai. Será uma fase
difícil e preocupante. Os investidores estrangeiros foram chamados
a investir, como aconteceu, por exemplo, no setor elétrico. Fizeram
isso em dólares. Agora precisam de rentabilidade em dólar.
E como ficam as tarifas? O segundo ponto fundamental é que o novo
governo estabeleça metas e um plano robusto para aumentar fortemente
as exportações. A exportação traz dólares,
melhora a balança comercial, diminui os juros e favorece a relação
fiscal. É como um dominó que vai cair na direção
certa."
|
|
|