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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
Eleições 2002

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A tática do PT para
os primeiros dias

A cúpula do partido alivia a
tensão dos mercados e reafirma
a linha de austeridade fiscal e
estabilidade econômica



Ed Ferreira/AE
FHC na semana passada: seu maior legado talvez tenha sido a solidez das instituições


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Nesta edição
Lula muda a história
Vinte anos na oposição
O que eles esperam de Lula
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Um mundo arriscado e hostil
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Mas não deu
O onda petista perdeu ímpeto
A companheira é fogo
Os vermelhos chegaram ao poder
Na internet
Cobertura completa no site Eleições 2002

Um a um os nomes da cúpula econômica do partido de Lula reafirmaram ao longo da semana passada seu compromisso com a estabilidade. Senador eleito por São Paulo, Aloizio Mercadante disse que o impacto negativo nas contas públicas de elevar o salário mínimo para 240 reais afasta a probabilidade de um reajuste desse montante no primeiro ano de Lula no Planalto. Antônio Palocci, coordenador do plano de governo petista e uma das vozes mais influentes junto de Lula, adiantou que o PT reconhece que os funcionários públicos estão com seus salários defasados, mas que só será possível recompor os ganhos a longo prazo. Guido Mantega, o mais próximo assessor econômico do presidente eleito, informou que o PT "contará cada tostão" na hora de gastar e que a política fiscal do novo governo será "xiita". Pelo que disseram seus auxiliares, Lula vai usar a popularidade e a força que marcam o começo de gestão para aprovar a reforma tributária nos primeiros seis meses e atacar o déficit da Previdência antes do fim de 2003. O mercado agiu convencido de que Lula fará um governo de finanças saudáveis e mostrou isso da forma que sabe: a semana que precedeu o turno final das eleições fechou com o dólar e o risco Brasil em baixa e a bolsa de valores em alta.

"Na segunda-feira haverá um efeito ufa!", disse Donna Hrinak, embaixadora dos Estados Unidos, referindo-se à reação de alívio esperada dos mercados internacionais com a escolha do novo presidente brasileiro. A representante de George W. Bush no Brasil acredita num "convívio produtivo" entre autoridades americanas e brasileiras. Não se poderia esperar uma reta final mais positiva que a vivida pelo Brasil no decorrer da semana passada. Ter dois candidatos com diferenças apenas superficiais e de método no que diz respeito a como administrar o país não é sinal de pobreza ideológica. Ao contrário, é sinal de amadurecimento democrático e de existência de uma sociedade com instituições fortes. É, no fundo, uma conquista civilizada e rara na América Latina. Esse clima consolidado nos momentos finais da campanha brasileira pode produzir o período de tranqüilidade de que o país precisa para retomar o rumo do crescimento econômico. Entre os países vizinhos, apenas o Chile conseguiu esse feito há dois anos, quando o socialista Ricardo Lagos derrotou no segundo turno o direitista Joaquín Lavín, numa eleição em que ambos discordavam em quase tudo, menos na necessidade de manter as conquistas da estabilidade econômica e do sanitarismo financeiro do Estado. Peru, Argentina e Venezuela não souberam fazer a transição e vivem atualmente graus diversos de crises econômicas e sociais.

Ana Araujo
O prédio do Banco do Brasil, em Brasília, que abrigará a equipe de transição

"Os brasileiros vão vencer, seja quem for o vencedor das eleições", afirmou Fernando Henrique Cardoso. O presidente vem dizendo que o maior legado de seus oito anos à frente do governo talvez seja o fato de ter solidificado as instituições a ponto de a oposição vencer sem maiores traumas. Os acontecimentos recentes estão lhe dando razão. O governo montou em Brasília um centro administrativo para abrigar políticos e técnicos da atual administração e da próxima encarregados de fazer a transição. As expectativas do mercado em relação ao período de transição são positivas. Pela primeira vez, governo e oposição estarão, por alguns meses que seja, realmente unidos em busca de um resultado comum que interessa politicamente a ambos. Afinal, Fernando Henrique quer encerrar bem seu governo e a Lula não interessa outra coisa senão começar a governar o Brasil tendo pela frente apenas os problemas estruturais, que, como se sabe, são muitos e resistentes. Os sinais de trégua do mercado estão aos poucos evoluindo para estímulos que beoposição estarão, por alguns meses que seja, realmente unidos em busca de um resultado comum que interessa politicamente a ambos. Afinal, Fernando Henrique quer encerrar bem seu governo e a Lula não interessa outra coisa senão começar a governar o Brasil tendo pela frente apenas os problemas estruturais, que, como se sabe, são muitos e resistentes. Os sinais de trégua do mercado estão aos poucos evoluindo para estímulos que beiram o otimismo. Eles vêm de todos os lados. William McDonough, o representante de Nova York junto ao banco central americano, o Fed, resumiu o novo humor dos mercados com relação ao governo petista. "Tirar dinheiro do Brasil só por causa da eleição de Lula é uma estupidez", disse McDonough a uma platéia de banqueiros. "Há muita choradeira e ranger de dentes, muita estupidez nesse país e em outros desenvolvidos, a respeito do que ocorreria se os brasileiros decidirem, democraticamente, ter um presidente que acredita um pouco mais na justiça social", disse o governador do Fed em Nova York. Ele advertiu que se predominar "a ignorância sobre a realidade brasileira" e ocorrer um efeito manada de fuga de dólares do país o resultado será uma "crise econômica no hemisfério da qual os Estados Unidos não escapam".

Fabio Mota/AE
Meninos de rua participam de uma ceia beneficente no Rio de Janeiro: programa contra a fome a custo quase zero

O PT e o mercado estão falando a mesma linguagem. Estão se comunicando no mesmo idioma, o dos números, em que não existe possibilidade de mal-entendido. Ambos sabem que o Estado brasileiro está quebrado e não pode, portanto, abrir os cofres para atender às demandas que certamente vão desabar sobre o novo governo antes mesmo que Lula tome posse. Do orçamento previsto para 2003, apenas 7,8 bilhões de reais estarão à disposição do Executivo para gastos com programas públicos. Todo o restante tem destinação obrigatória para várias rubricas, entre elas pagar salários e aposentadorias de funcionários e juros das dívidas públicas. "O governo se tornou um mero transferidor de recursos", diz o economista Raul Velloso. "Isso é uma imposição constitucional. Ela independe da ideologia ou da vontade do presidente."

O PT tem montada uma estratégia para desviar ou adiar as demandas que resultem em ampliação de gastos, mesmo aquelas que seus dirigentes consideram justas e alimentam o desejo genuíno de atender quando as nuvens negras tiverem se dissipado no horizonte. É o caso dos aumentos do salário mínimo e do vencimento dos funcionários públicos. Lula e o PT planejam desencadear desde o primeiro dia de governo uma campanha nacional de erradicação da fome no Brasil. "Lula deve deslanchar imediatamente uma guerra contra a fome. Essa deverá ser sua primeira ação nacional na área social", diz um cacique petista. Ele enumera as diversas vantagens de um movimento nacional comandado pelo presidente contra o flagelo da fome. Com ajuda da comunidade, um programa desse tipo pode ser tocado a custo quase zero para o governo e, portanto, não pressionaria as contas públicas. Outra vantagem: para ter sucesso, vai exigir a adesão de bancos, empresas, Estados e prefeituras, o que resultará em algum grau de união desses agentes em torno da figura do presidente. Em terceiro lugar, e talvez o mais importante, uma campanha contra a fome dá ao presidente a força moral para desqualificar como não prioritários os pedidos de aumento de salário dos funcionários e outras custosas demandas corporativistas.

 
 
   
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