
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
A tática do
PT para
os primeiros dias
A cúpula
do partido alivia a
tensão dos mercados e reafirma
a linha de austeridade fiscal e
estabilidade econômica
Ed Ferreira/AE
 |
| FHC
na semana passada: seu maior legado talvez tenha sido a solidez das
instituições |

Veja também |
|
|
|
Um a um os
nomes da cúpula econômica do partido de Lula reafirmaram
ao longo da semana passada seu compromisso com a estabilidade. Senador
eleito por São Paulo, Aloizio Mercadante disse que o impacto negativo
nas contas públicas de elevar o salário mínimo para
240 reais afasta a probabilidade de um reajuste desse montante no primeiro
ano de Lula no Planalto. Antônio Palocci, coordenador do plano de
governo petista e uma das vozes mais influentes junto de Lula, adiantou
que o PT reconhece que os funcionários públicos estão
com seus salários defasados, mas que só será possível
recompor os ganhos a longo prazo. Guido Mantega, o mais próximo
assessor econômico do presidente eleito, informou que o PT "contará
cada tostão" na hora de gastar e que a política fiscal do
novo governo será "xiita". Pelo que disseram seus auxiliares, Lula
vai usar a popularidade e a força que marcam o começo de
gestão para aprovar a reforma tributária nos primeiros seis
meses e atacar o déficit da Previdência antes do fim de 2003.
O mercado agiu convencido de que Lula fará um governo de finanças
saudáveis e mostrou isso da forma que sabe: a semana que precedeu
o turno final das eleições fechou com o dólar e o
risco Brasil em baixa e a bolsa de valores em alta.
"Na segunda-feira
haverá um efeito ufa!", disse Donna Hrinak, embaixadora dos Estados
Unidos, referindo-se à reação de alívio esperada
dos mercados internacionais com a escolha do novo presidente brasileiro.
A representante de George W. Bush no Brasil acredita num "convívio
produtivo" entre autoridades americanas e brasileiras. Não se poderia
esperar uma reta final mais positiva que a vivida pelo Brasil no decorrer
da semana passada. Ter dois candidatos com diferenças apenas superficiais
e de método no que diz respeito a como administrar o país
não é sinal de pobreza ideológica. Ao contrário,
é sinal de amadurecimento democrático e de existência
de uma sociedade com instituições fortes. É, no fundo,
uma conquista civilizada e rara na América Latina. Esse clima consolidado
nos momentos finais da campanha brasileira pode produzir o período
de tranqüilidade de que o país precisa para retomar o rumo
do crescimento econômico. Entre os países vizinhos, apenas
o Chile conseguiu esse feito há dois anos, quando o socialista
Ricardo Lagos derrotou no segundo turno o direitista Joaquín Lavín,
numa eleição em que ambos discordavam em quase tudo, menos
na necessidade de manter as conquistas da estabilidade econômica
e do sanitarismo financeiro do Estado. Peru, Argentina e Venezuela não
souberam fazer a transição e vivem atualmente graus diversos
de crises econômicas e sociais.
Ana Araujo
 |
| O
prédio do Banco do Brasil, em Brasília, que abrigará a equipe de transição
|
"Os brasileiros
vão vencer, seja quem for o vencedor das eleições",
afirmou Fernando Henrique Cardoso. O presidente vem dizendo que o maior
legado de seus oito anos à frente do governo talvez seja o fato
de ter solidificado as instituições a ponto de a oposição
vencer sem maiores traumas. Os acontecimentos recentes estão lhe
dando razão. O governo montou em Brasília um centro administrativo
para abrigar políticos e técnicos da atual administração
e da próxima encarregados de fazer a transição. As
expectativas do mercado em relação ao período de
transição são positivas. Pela primeira vez, governo
e oposição estarão, por alguns meses que seja, realmente
unidos em busca de um resultado comum que interessa politicamente a ambos.
Afinal, Fernando Henrique quer encerrar bem seu governo e a Lula não
interessa outra coisa senão começar a governar o Brasil
tendo pela frente apenas os problemas estruturais, que, como se sabe,
são muitos e resistentes. Os sinais de trégua do mercado
estão aos poucos evoluindo para estímulos que beoposição estarão, por alguns meses que seja, realmente
unidos em busca de um resultado comum que interessa politicamente a ambos.
Afinal, Fernando Henrique quer encerrar bem seu governo e a Lula não
interessa outra coisa senão começar a governar o Brasil
tendo pela frente apenas os problemas estruturais, que, como se sabe,
são muitos e resistentes. Os sinais de trégua do mercado
estão aos poucos evoluindo para estímulos que beiram o otimismo.
Eles vêm de todos os lados. William McDonough, o representante de
Nova York junto ao banco central americano, o Fed, resumiu o novo humor
dos mercados com relação ao governo petista. "Tirar dinheiro
do Brasil só por causa da eleição de Lula é
uma estupidez", disse McDonough a uma platéia de banqueiros. "Há
muita choradeira e ranger de dentes, muita estupidez nesse país
e em outros desenvolvidos, a respeito do que ocorreria se os brasileiros
decidirem, democraticamente, ter um presidente que acredita um pouco mais
na justiça social", disse o governador do Fed em Nova York. Ele
advertiu que se predominar "a ignorância sobre a realidade brasileira"
e ocorrer um efeito manada de fuga de dólares do país o
resultado será uma "crise econômica no hemisfério
da qual os Estados Unidos não escapam".
Fabio Mota/AE
 |
| Meninos
de rua participam de uma ceia beneficente no Rio de Janeiro: programa
contra a fome a custo quase zero |
O PT e o
mercado estão falando a mesma linguagem. Estão se comunicando
no mesmo idioma, o dos números, em que não existe possibilidade
de mal-entendido. Ambos sabem que o Estado brasileiro está quebrado
e não pode, portanto, abrir os cofres para atender às demandas
que certamente vão desabar sobre o novo governo antes mesmo que
Lula tome posse. Do orçamento previsto para 2003, apenas 7,8 bilhões
de reais estarão à disposição do Executivo
para gastos com programas públicos. Todo o restante tem destinação
obrigatória para várias rubricas, entre elas pagar salários
e aposentadorias de funcionários e juros das dívidas públicas.
"O governo se tornou um mero transferidor de recursos", diz o economista
Raul Velloso. "Isso é uma imposição constitucional.
Ela independe da ideologia ou da vontade do presidente."
O PT tem
montada uma estratégia para desviar ou adiar as demandas que resultem
em ampliação de gastos, mesmo aquelas que seus dirigentes
consideram justas e alimentam o desejo genuíno de atender quando
as nuvens negras tiverem se dissipado no horizonte. É o caso dos
aumentos do salário mínimo e do vencimento dos funcionários
públicos. Lula e o PT planejam desencadear desde o primeiro dia
de governo uma campanha nacional de erradicação da fome
no Brasil. "Lula deve deslanchar imediatamente uma guerra contra a fome.
Essa deverá ser sua primeira ação nacional na área
social", diz um cacique petista. Ele enumera as diversas vantagens de
um movimento nacional comandado pelo presidente contra o flagelo da fome.
Com ajuda da comunidade, um programa desse tipo pode ser tocado a custo
quase zero para o governo e, portanto, não pressionaria as contas
públicas. Outra vantagem: para ter sucesso, vai exigir a adesão
de bancos, empresas, Estados e prefeituras, o que resultará em
algum grau de união desses agentes em torno da figura do presidente.
Em terceiro lugar, e talvez o mais importante, uma campanha contra a fome
dá ao presidente a força moral para desqualificar como não
prioritários os pedidos de aumento de salário dos funcionários
e outras custosas demandas corporativistas.
|
|
 |