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Vinte anos na oposiçãoA
chegada de Lula, um ex-torneiro
Thaís Oyama
Vanderlei Almeida/AFP
O sucesso do ex-metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva em sua quarta tentativa de chegar à Presidência da República representa mais do que o triunfo da persistência é a vitória do improvável. O imigrante nordestino que desembarcou em São Paulo montado num pau-de-arara chega ao Planalto ostentando não só o mérito de ter vencido a lógica que condenou tantos como ele à exclusão como o de ter virado de cabeça para baixo o script da trajetória política convencional. Lula não conquistou o mais alto posto da hierarquia do país alavancado por triunfos eleitorais. Jamais foi vereador e nunca administrou uma cidade. Também não se elegeu governador de Estado nem foi ministro de nada. Construiu sua vitória à base de derrotas. E, por meio delas, forjou o que é hoje. Sua primeira tentativa eleitoral, para o governo de São Paulo, se deu em 1982 e foi um jato de água fria no entusiasmo do político iniciante. O ex-líder metalúrgico acabara de trocar o sindicalismo pela política e era um elemento ainda exótico demais na paisagem do poder. O orçamento da campanha também não dava margem para entusiasmo: de tão apertado, as viagens eram feitas de ônibus e o candidato se via obrigado a dormir em colchonetes espalhados nas casas de militantes. Lula tinha, no entanto, três trunfos que o faziam apostar numa votação encorajadora: liderava um partido que representava a grande novidade do cenário político brasileiro, tinha o apoio de trabalhadores, de setores da Igreja progressista e já era então o queridinho de uma ala de intelectuais que incluía nomes como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o crítico literário e professor Antonio Candido, um dos intelectuais mais reverenciados pela esquerda. A abertura das urnas, porém, reservou-lhe uma surpresa: Lula terminou em quarto lugar, com 11% dos votos. "Ele ficou perplexo. Não entendeu o que havia acontecido", lembra Wander Bueno do Prado, seu ex-fiel escudeiro e hoje secretário adjunto de governo da prefeitura de São Bernardo do Campo. "Mesmo em cidades onde havia reunido 20 000 pessoas, não teve mais do que 500 votos. Ficou completamente prostrado, sem rumo", conta. A
ressaca, curtida em exílio doméstico na companhia de alguns
poucos amigos e muita cachaça de cambuci, só passou três
meses depois. Lula emergiu dela com um mea-culpa que, para um recém-criado
partido que chegara a resistir à própria legalização
com o argumento de que estaria se "dobrando à legislação
burguesa", caiu com a força de um coquetel Molotov. Disse que errara
ao pensar que o Brasil era feito de metalúrgicos e ao dirigir-se
ao eleitorado como se estivesse falando para peões na fábrica.
Afirmou que "esse negócio de que trabalhador vota em trabalhador
não funciona" e que, se o partido quisesse ganhar alguma eleição,
teria de perseguir "o voto do pobre e o voto do rico". A partir daí,
o slogan "Lula, um brasileiro como você" foi banido para sempre
da propaganda petista.
Lula tinha chances reais de vencer Fernando Collor em 1989, mas, como se sabe, de novo perdeu. Hoje, acredita que poderia ter evitado a derrota se não houvesse cometido o que considera seu maior erro político: a recusa em aceitar o apoio do então presidenciável Ulysses Guimarães na reta final da campanha. O deputado Waldir Pires, candidato do PMDB à Vice-Presidência, chegou a procurá-lo mais de uma vez com um apelo: "O doutor Ulysses só quer subir no seu palanque". Lula recusou. "Ele temia ser identificado com aquilo que considerava a velha esquerda brasileira. Até hoje se arrepende da decisão", afirma José Dirceu, presidente do PT e deputado federal. A diferença entre os votos do petista e os conquistados por Collor foi praticamente igual àquela obtida no primeiro turno pelo PMDB que Lula havia esnobado. Ele jamais se esqueceu do episódio. Tanto que, nesta campanha, usou-o como argumento definitivo para convencer setores resistentes do PT a aderir à aliança do partido com o PL. Entre os erros menores acumulados na eleição de 1989, um marcou-o tanto que virou motivo de piada entre os amigos. Lula credita parte de seu mau desempenho no fatídico debate com Collor, exibido pela Rede Globo, ao fato de ter chegado ao estúdio devendo-se várias noites de sono. Neste ano, por via das dúvidas, adotou o hábito de paralisar toda a atividade eleitoral pelo menos um dia antes dos embates. Entregou-se com fé de devoto à massagem relaxante prescrita por seu marqueteiro, Duda Mendonça, e, para enterrar de vez a imagem descabelada e exausta que exibiu no enfrentamento com o ex-governador de Alagoas, brincam assessores, passou a exigir maquiagem até para dar entrevista em rádio. O terceiro fracasso ocorreu em 1994, ano em que Lula, em sua segunda tentativa de chegar à Presidência, apostou todas as fichas no fracasso do Plano Real. A decisão se mostrou tão equivocada que, quatro anos depois, ele partiria para a terceira campanha presidencial com o entusiasmo de quem caminha para a forca. Concorreu contra a vontade, pressionado pelo partido que fundara e que agora enxergava como seu algoz. Sentia-se explorado pelo PT, exausto diante da perspectiva de enfrentar uma eleição com pouquíssimas chances de vitória e prejudicado em sua vida pessoal. Em entrevista que concedeu à época, afirmou que a política o impediu de estar ao lado da mulher, Marisa, quando seus três filhos nasceram; reclamou do fato de que sua imagem pública não lhe permitia "ir a um baile e dançar até morrer"; e chegou a dizer que, na próxima encarnação, gostaria de vir ao mundo rico e anônimo, em vez de pobre e famoso.
Nasceu pobre e anônimo. Caçula dos meninos Silva, só
foi conhecer o pai aos 7 anos de idade. Quando Aristides Inácio
da Silva saiu de Garanhuns para tentar a vida em São Paulo, deixou
a esposa, Eurídice, grávida de Lula. Em 1952, Lindu, como
era chamada a mulher, decidiu juntar-se ao marido. Reuniu os sete filhos
e embarcou com eles num pau-de-arara, numa viagem que durou treze dias
durante os quais Lula usou uma única camisa.
Lindu separou-se dele pouco tempo depois da chegada da família a Santos. Pegou os filhos e mudou-se para a Vila Carioca, periferia de São Paulo, numa casa que ficava nos fundos de um bar, cujo banheiro era o mesmo usado pela família. Os Silva eram na época tão pobres que, entre as lembranças de Lula, está a de ter saído correndo de vergonha quando um médico veio visitar sua irmã e a mãe não tinha uma cadeira para oferecer-lhe. Lindu sustentava os filhos lavando roupa para fora. Lula vendia tapioca na rua, fazia bicos de engraxate e entregava roupas de uma tinturaria. Lembra-se de ter percebido que a vida começava a melhorar quando, numa das mudanças da família, o caminhão de transportes já levava um fogão: "Eu e o meu irmão colocamos ele bem no alto da carroceria e fomos com muito orgulho em cima. Afinal de contas, a gente já tinha um fogão", conta, em um trecho do livro O Filho do Brasil, da escritora Denise Paraná. Lula chora à toa. Chora quando lembra que a mãe passou horas numa fila para ganhar o primeiro presente de Natal que ele recebeu na vida, um carrinho de plástico. Chora quando diz que, por causa da política, não conseguiu dar aos filhos aquilo que ele próprio gostaria de ter tido: um pai que o levasse para passear e que o ajudasse nos deveres da escola. Chorou quando, durante a campanha, um idoso se aproximou do seu carro e, pela janela, jogou-lhe um relógio no colo, dizendo ser a única coisa que podia oferecer para ajudá-lo nas eleições. Lula chora muito e, muitas vezes, explode também. Quando se irrita, fala alto, xinga, gesticula e dá murros na mesa. Berra que querem matá-lo sobrecarregando-lhe a agenda ou que é inacreditável que ninguém tenha conseguido lembrá-lo de um compromisso importante. Sua equipe de campanha, alvo mais freqüente dessa ira nos últimos meses, costuma ouvir as broncas calada. Sabe que, no minuto seguinte, o chefe poderá virar-se para seu assessor de imprensa um tanto fora de forma e embrulhado em uma camiseta vermelha para dizer-lhe que está "parecendo uma melancia de boné". Lula, o possesso, vira Lulinha Paz e Amor em questão de segundos.
Outra de suas características, que amigos conhecem e desavisados
descobrem rápido, é que Lula não gosta de críticas
pelo menos não as que tenham ele próprio como objeto.
Tanto assim que, mesmo no mais restrito círculo petista, pouquíssimos
cardeais se dão ao luxo de discutir uma atitude sua. O ex-deputado
Luiz Gushiken é um dos poucos que se atrevem a fazê-lo. O
todo-poderoso José Dirceu dificilmente ousa.
Dos cinco que tem Marcos, do casamento anterior da mulher; Fábio, Sandro e Luís Cláudio, da sua união com Marisa; e Lurian, fruto do romance com Mírian Cordeiro , nenhum até hoje se arriscou a enveredar pela política. Marcos e Lurian, ele estudante de psicologia, ela jornalista, ainda demonstram algum interesse pela profissão do pai. Já Fábio, formado em biologia, Sandro, que cursa propaganda e marketing, e Luís Cláudio, o caçula, de 17 anos, querem distância do assunto. Até seu primeiro dia de trabalho como torneiro mecânico, Lula havia feito poucas escolhas na vida. Não decidiu mudar-se para São Paulo e tampouco optou pela profissão de metalúrgico. Na verdade, queria ser motorista de caminhão, mas a mãe já havia resolvido que, ao menos o caçula dos meninos, teria um diploma do Senai. A fábrica foi sua porta de entrada para a política mas ele não a atravessou de bom grado nem por iniciativa própria. Quando o irmão, José Ferreira da Silva, o "Frei Chico", soldador e militante do Partido Comunista, o convidou para participar do movimento sindical, o futuro líder metalúrgico tinha 23 anos e pouquíssimo interesse pelos destinos da categoria. "O negócio dele era jogar pelada e namorar. Dizia: 'O que é que eu vou fazer no sindicato? Lá só tem ladrão e comunista'", lembra Frei Chico, apelidado assim pela calva no alto da cabeça, como a marca dos frades. Em 1968, Lula cedeu à pressão e ingressou no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo como suplente de secretário. Em 1975, foi eleito presidente da entidade e, em 1978, reconduzido ao cargo com 98% dos votos. Para entender essa espetacular ascensão, é preciso olhar o Lula de hoje. Ninguém duvida de que entre suas qualidades está a extraordinária capacidade de conciliar diferenças. A sobrevivência de seu partido é a prova desse talento. No início da década de 80, o PT era uma bomba prestes a explodir. Saco de gatos indóceis, abrigava desde o mais incendiário militante do MR-8 até o mais moderado egresso do PCB. "Naquele momento, o PT tinha três alternativas: podia virar um cartel de esquerdas, implodir diante das pressões das correntes radicais ou se transformar em um partido hegemônico", analisa um de seus fundadores, o atual secretário de Cultura da prefeitura de São Paulo, Marco Aurélio Garcia. Dois fatores ajudaram na consolidação da terceira alternativa: a criação do grupo Articulação, uma espécie de rolo compressor liderado por José Dirceu, que foi aos poucos cuidando de esmagar a ala ultra-radical do partido, e a habilidade de Lula em fortalecer sua posição de mediador, do líder que paira acima das correntes e das disputas pessoais a mesmíssima imagem que alavancou sua fulminante trajetória no sindicalismo. Nesse percurso, há outro elemento que não pode ser desprezado: o fascínio que Lula exerce sobre uma multidão. "No apogeu dos movimentos grevistas, quando ele pegava o microfone, você via 100 000 metalúrgicos, que cinco minutos antes estavam enfurecidos, ficar em silêncio total", conta Frei Chico. "Se o Lula quisesse tocar fogo no Brasil naquele momento, conseguiria. Ele tinha o controle total da massa", diz. A direita sabia disso tão bem quanto a esquerda. O general Golbery do Couto e Silva, bruxo político no Palácio do Planalto durante o governo Geisel e parte do governo Figueiredo, admitiu que os militares enxergavam em Lula a chance de surgimento de uma liderança "positiva" ou, em outras palavras, alguém que, desvinculado dos grupos tradicionais de esquerda, poderia ajudar o governo a construir o chamado "sindicalismo a favor". O flerte da direita com o metalúrgico, porém, teve tanto sucesso quanto o assédio da esquerda organizada sobre ele nenhum. Mais por diferenças de estilo do que de ideologia, o namoro de Lula com o Partido Comunista, por exemplo, não durou mais que meia hora começou e terminou num banco de praça. Certa vez, a pedido de Frei Chico, Lula aceitou encontrar-se com um militante do PCB. A reunião foi marcada na Praça da Matriz em São Bernardo. Lula conta: "O codinome do sujeito era Ivo. Ele se sentou do meu lado com a cara enfiada num jornal e começou a me perguntar o que eu estava achando da conjuntura do país, como é que eu via isso e aquilo. Eu tinha de responder também fingindo que estava lendo jornal. Quando fui embora, ele disse para eu não olhar para trás. Achei aquilo uma coisa tão ridícula que briguei com o Frei Chico: 'Escuta aqui, eu não sou palhaço nem tenho a minha mãe na zona. Se os seus amigos quiserem falar comigo, diz para eles irem lá no sindicato'". Fim do namoro com o partidão. "O fato de Lula não ter passado pela clandestinidade, e de ter uma certa impaciência com o que considera excesso de solenidade, talvez explique sua resistência a algumas precauções. Às vezes, temos de chamar a atenção dele para as coisas que fala ao telefone", conta Marco Aurélio Garcia.
No processo de transformação do líder sindical em
líder político, um episódio teve importância
decisiva: a prisão e a tortura de Frei Chico, nos porões
do DOI-Codi, em 1975. Naquele ano, quando Lula viajou para o Japão
para representar os metalúrgicos num congresso da Toyota, o irmão
foi preso sob acusação de subversão. "Os policiais
queriam que eu confessasse que o Lula tinha viajado para levar uma carta
para o [líder comunista] Luís Carlos Prestes, exilado
na época," conta. Torturado durante uma semana, Frei Chico recebeu
choques e conheceu a temida cadeira do dragão, instrumento no qual
a vítima, com as pernas e os braços imobilizados por uma
estrutura de madeira, era obrigada a apoiar as mãos sobre uma tampa
para que fossem marteladas por seus algozes.
Lula especializou-se na arte de fazer do limão uma limonada. Com base em adversidades, amadureceu a si e ao partido que criou e construiu uma biografia desde já extraordinária. Agora, sai triunfante de sua quarta tentativa de eleger-se presidente da República. A pergunta que se faz é se saberá se comportar na vitória com o mesmo bom senso com que se portou diante das derrotas.
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