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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
Eleições 2002

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Lula muda a história

Ao escolherem o candidato do PT
como o novo presidente do Brasil,
os eleitores reconheceram a
existência de duas forças poderosas:
Lula e as instituições do país


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Capas de VEJA
2000 | 2001 | 2002
Veja também
Nesta edição
Vinte anos na oposição
A tática do PT para os primeiros dias
O que eles esperam de Lula
O sonho de ser JK é só isso. Um sonho
Um mundo arriscado e hostil
Ele fez o que pôde.
Mas não deu
O onda petista perdeu ímpeto
A companheira é fogo
Os vermelhos chegaram ao poder
Na internet
Cobertura completa no site Eleições 2002

"O menino é pai do homem", diz o ditado ancestral usado por escritores em diversos idiomas e culturas. O brasileiro Machado de Assis dá esse título a um dos capítulos de sua obra-prima, Memórias Póstumas de Brás Cubas. O menino Lula da fotografia abaixo mostra muito sobre a conquista do homem Lula no domingo passado nas urnas. A foto foi tirada por um profissional itinerante, figura corriqueira no interior pobre de Pernambuco durante a infância do presidente eleito. Ele tinha 3 anos. Meninos pobres como Lula não nascem no Brasil para ser presidentes da República. Antes dele, os mandatários da nação, mesmo os que se apresentavam como políticos de esquerda, foram todos escolhidos entre marechais, generais, fazendeiros, advogados, empresário e um sociólogo. Como Machado de Assis, mulato, epiléptico, nascido pobre num morro carioca e que se tornou o maior escritor brasileiro em todos os tempos, Lula desafiou a história para chegar ao posto máximo da atividade política. Sua vitória representa o triunfo de uma idéia, de uma férrea vontade pessoal, mas é também o certificado de qualidade da democracia brasileira.


Álbum de família
Lula aos 3 anos com a irmã Maria: sandálias emprestadas pelo fotógrafo


Da mesma forma que os prognósticos sobre seu futuro governo variam de acordo com as simpatias ou antipatias ideológicas, a ascensão de Lula pode ser lida de diversas maneiras. Mas sua simbologia é inegável. Lula presidente é uma demonstração para o mundo de que a democracia no Brasil, e por reflexo na América Latina, não é exercida apenas para salvar as aparências das elites que se revezam no poder. Ligado historicamente às esquerdas, Lula elegeu-se com uma agenda política moderada e com a aceitação das regras civilizadas de gerência das contas públicas. Estudou até a 5ª série. Projetou-se como líder sindical e político radical. Sua posse, em janeiro próximo, estará carregada de significados, todos favoráveis ao país. O Brasil afirma-se como uma nação de extraordinária mobilidade social, com a chegada de um homem do povo à Presidência. Sua democracia está madura o suficiente para receber no Planalto um partido desligado das esferas que tradicionalmente mandaram no país. Lula e o PT, por seu lado, prometeram arquivar seu tradicional fascínio pelo projeto anticapitalista que acompanhou a história do partido desde sua fundação, duas décadas atrás.

A estabilidade institucional e econômica do Brasil não esteve em jogo nas eleições que levaram Lula ao poder. O novo presidente não recebeu das urnas mandato para revogá-la. A sociedade brasileira exigiu dos candidatos esse compromisso público e formal. Lula aceitou as negociações do atual governo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e não perdeu a oportunidade de informar os eleitores sobre sua decisão de pagar dívidas e respeitar contratos. A outra garantia vem da sociedade. As instituições brasileiras estão preparadas para funcionar independentemente das doutrinas e das convicções políticas do chefe de Estado. No domingo passado, portanto, os eleitores deram ao Brasil uma dupla vitória.

 
 
   
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