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Lula muda a história
Ao
escolherem o candidato do PT
como o novo presidente do Brasil,
os eleitores reconheceram a
existência de duas forças poderosas:
Lula e as instituições do país

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"O
menino é pai do homem", diz o ditado ancestral usado por escritores
em diversos idiomas e culturas. O brasileiro Machado de Assis dá
esse título a um dos capítulos de sua obra-prima, Memórias
Póstumas de Brás Cubas. O menino Lula da fotografia
abaixo mostra muito sobre a conquista do homem Lula no domingo passado
nas urnas. A foto foi tirada por um profissional itinerante, figura corriqueira
no interior pobre de Pernambuco durante a infância do presidente
eleito. Ele tinha 3 anos. Meninos pobres como Lula não nascem no
Brasil para ser presidentes da República. Antes dele, os mandatários
da nação, mesmo os que se apresentavam como políticos
de esquerda, foram todos escolhidos entre marechais, generais, fazendeiros,
advogados, empresário e um sociólogo. Como Machado de Assis,
mulato, epiléptico, nascido pobre num morro carioca e que se tornou
o maior escritor brasileiro em todos os tempos, Lula desafiou a história
para chegar ao posto máximo da atividade política. Sua vitória
representa o triunfo de uma idéia, de uma férrea vontade
pessoal, mas é também o certificado de qualidade da democracia
brasileira.
Álbum de família
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| Lula
aos 3 anos com a irmã Maria: sandálias emprestadas pelo
fotógrafo |
Da mesma forma que os prognósticos sobre seu futuro governo variam
de acordo com as simpatias ou antipatias ideológicas, a ascensão
de Lula pode ser lida de diversas maneiras. Mas sua simbologia é
inegável. Lula presidente é uma demonstração
para o mundo de que a democracia no Brasil, e por reflexo na América
Latina, não é exercida apenas para salvar as aparências
das elites que se revezam no poder. Ligado historicamente às esquerdas,
Lula elegeu-se com uma agenda política moderada e com a aceitação
das regras civilizadas de gerência das contas públicas. Estudou
até a 5ª série. Projetou-se como líder sindical
e político radical. Sua posse, em janeiro próximo, estará
carregada de significados, todos favoráveis ao país. O Brasil
afirma-se como uma nação de extraordinária mobilidade
social, com a chegada de um homem do povo à Presidência.
Sua democracia está madura o suficiente para receber no Planalto
um partido desligado das esferas que tradicionalmente mandaram no país.
Lula e o PT, por seu lado, prometeram arquivar seu tradicional fascínio
pelo projeto anticapitalista que acompanhou a história do partido
desde sua fundação, duas décadas atrás.
A
estabilidade institucional e econômica do Brasil não esteve
em jogo nas eleições que levaram Lula ao poder. O novo presidente
não recebeu das urnas mandato para revogá-la. A sociedade
brasileira exigiu dos candidatos esse compromisso público e formal.
Lula aceitou as negociações do atual governo com o Fundo
Monetário Internacional (FMI) e não perdeu a oportunidade
de informar os eleitores sobre sua decisão de pagar dívidas
e respeitar contratos. A outra garantia vem da sociedade. As instituições
brasileiras estão preparadas para funcionar independentemente das
doutrinas e das convicções políticas do chefe de
Estado. No domingo passado, portanto, os eleitores deram ao Brasil uma
dupla vitória.
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