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O homem dos sapos
e a garota atrevida
O lado
romântico de um namoro até aqui
revelado de preferência em sua versão mais crua
Ele tinha fascínio
por sapos. Não sapos propriamente ditos, imagina-se, mas
a forma de sapo, ou o "conceito" de sapo.
Então ela lhe deu de presente uma estatueta de sapo.
Noutra ocasião, deu-lhe uma faca de abrir envelopes em
forma de sapo. Ele a chamava de "querida" e
outros nomes doces e costumava, enquanto conversavam,
afastar os cabelos de sua testa, o que a fazia pensar
que, sim, ele gostava dela. Ficavam de mãos dadas,
abraçavam-se muito. Ele tinha interesse, além de sapos,
por objetos antigos, e então ela lhe deu um peso de
papel antigo, na forma da Casa Branca, e livros antigos.
Ele deu a ela, entre outras coisas, dois broches, um
alfinete de chapéu, um ursinho de mármore e uma bonita
edição de Leaves of Grass (Folhas da Relva), do
poeta Walt Whitman.
Está-se
descrevendo um caso de amor. Ou, se caso de amor for
muito para o episódio em questão, um namoro, ou, vá
lá, namorico. Tinha sexo, claro, mas a relação
incluía também conversas conversas relaxadas e
sem rumo, conversas tolas de namorados. Foi assim que ela
ficou sabendo dos gostos e interesses dele. Contavam
histórias de sua infância, um para o outro. Comentavam
os assuntos da atualidade. Uma vez ele foi passar uns
dias em Martha's Vineyard, um lugar chique de veraneio,
no Estado de Massachusetts (ah, sim, os namorados de que
se fala eram americanos), e ela pediu que ele lhe
trouxesse uma camiseta do Black Dog, um conhecido
restaurante do local. Ele trouxe não só uma, mas duas.
E ainda um chapéu e um vestido do Black Dog! Ela
exultou.
O namoro começou
com certas trocas de olhares. Eles trabalhavam no mesmo
lugar e toda hora se encontravam. Uma vez, viram-se
sozinhos numa sala e se falaram pela primeira vez.
Conversa vai, conversa vem, ela levantou o casaco e
epa! mostrou-lhe a alça de sua
calcinha-biquíni, que se elevava acima da cintura da
calça. Mais tarde nesse mesmo dia, eles de novo se
encontraram e ela foi logo dizendo que tinha uma queda
por ele. Garota atrevida... Ele riu e perguntou se ela
queria conhecer seu escritório. As coisas se
precipitavam. No caminho, ele perguntou se podia
beijá-la. Ela disse que sim.
Ele dizia que ela o
fazia sentir-se jovem (ah, sim, ele era muito mais velho)
e ela chegou a pensar, pelo menos uma vez, que poderiam,
quem sabe, vir a juntar seus destinos. Isso ocorreu num
dia em que ele insinuou que dali a três anos talvez se
separasse da mulher (ah, sim, ele era casado) e ela
comentou que nesse caso... Bem, nesse caso, ele não
achava que dariam um bom par? Ledo engano. Com o tempo,
ele cansou. Chamou-a para dizer que queria terminar. Ela
chorou, e não se conformou. Fez várias tentativas de
reatar. No aniversário dele, trouxe-lhe um bolinho com
vela, cantou parabéns e sugeriu que eles se beijassem,
para comemorar. Ele concordou, mas quando ela quis
avançar além do beijo ele a cortou. Cortou-a outras
vezes. Ela foi ficando nervosa. Queria um encontro, e ele
o recusava. Escreveu-lhe bilhetes. Num deles, disse que
compreendia que "o que se passa no mundo tem
precedência", mas, ainda assim, não achava seu
pleito desarrazoado.
Ah, sim, ele era
presidente dos Estados Unidos. Daí o fato de "o que
se passava no mundo" concorrer, em sua atenção,
com a namorada. Esta é a história de Bill Clinton e
Monica Lewinsky, com detalhes extraídos do minucioso
relatório do promotor Kenneth Starr. O leitor já
conhece as partes mais, digamos, cruas do caso,
merecedoras de ampla divulgação. Aqui se reproduziram
as partes mais inocentes. Vista deste ângulo, a
história fica ainda mais humana, demasiado humana. O
presidente dos Estados Unidos emerge não apenas como um
fauno, mas como um homem vulnerável, carente talvez,
para usar a língua dos psicólogos, e meio ingênuo. Ele
pedia a ela que não contasse dos dois a ninguém. Ela
prometia que não, mas mantinha mais de uma dezena de
confidentes informados. Ele deixava recados na
secretária eletrônica dela. Ela os mostrava aos amigos.
De parte a parte, no namoro, a possível porção de amor
misturava-se a intenções esquivas.
O caso que começou
com uma troca insistente de olhares, como tantos outros,
termina com altas indagações. Deve ser considerado um
avanço, no plano político, ou um recuo? É o sinal
benfazejo de que os poderosos terão cada vez menos
espaço para abusos, ou a ilustração ominosa de que a
conduta sexual fora dos padrões tidos como aceitáveis
continua a ser motivo para ofensivas inquisitoriais? Ele
antecipa o século XXI ou pereniza o século XVII? Há
ainda uma questão mais pedestre: como os americanos
sairão dessa? Farão o impeachment, com base num namoro,
ou, para ser mais vulgar, numa pulada de cerca do
presidente, que é o que ficará para a História, por
mais que digam que a questão é mentira e perjúrio? Ou
deixam onde está, por mais dois anos, um presidente
humilhado, exposto e diminuído? Os americanos são
ricos, desenvolvidos, constituem uma grande potência e
devem saber o que estão fazendo. A nós, do resto do
mundo, fica a impressão de que se meteram numa
enrascada.

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