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• Livros: Picos e Vales, de Spencer JohnsonExposiçãoO último imperadorEle foi grande, poderoso, misterioso, cruel e humano. Montezuma, o soberano que entregou os astecas de mão beijada aos espanhóis, reencarna em exposição do Museu Britânico. Para começar, o nome dele era Moctezuma
As interpretações sobre os conquistados astecas variam: eram bons selvagens, dotados de prodigiosos conhecimentos astronômicos, fruidores de uma civilização superior e, aqui e ali, faziam uns sacrifícios humanos extremamente cerimoniais. Quem sabe descendiam de cepas extraterrestres, especulam os místicos. Já sobre os conquistadores espanhóis, existe unanimidade: eram uns bárbaros destruidores. Essa é a visão prevalecente da história da conquista do que hoje é o México. Simplista, mas ancorada na ímpar capacidade de autocrítica das sociedades ocidentais. Quem visitar a exposição aberta na semana passada no Museu Britânico poderá continuar uma discussão que já dura quase cinco séculos. Ou, mais modestamente, se assombrar com as camadas simultâneas de sofisticação e crueza da mais conhecida civilização pré-colombiana. Para efeitos didáticos, alcançados com a habitual eficácia, a exposição tem como figura principal o mais conhecido dos astecas, Montezuma. Trágico, patético, fatalmente condenado à autoextinção, o imperador Moctezuma, a forma na língua original, o nahuatl, de falar seu nome, simbolizou o choque dos mundos que aconteceu quando os espanhóis chegaram à Mesoamérica. Chegaram, viram e venceram: em dois tempos, Hernán Cortés e seu punhado de soldados dominaram o todo-poderoso tlatoani, conquistaram seus súditos, destruíram sua cidade, soterraram seus templos, roubaram seu ouro e, ao contrário da visão comumente apregoada, consagraram seu nome. Numa terrível ironia para uma cultura escatológica como a dos astecas, o fim dos tempos garantiu a sobrevivência histórica do oitavo e último imperador eleito. A história de Moctezuma: Soberano Asteca, o título da exposição, é apresentada em 131 esculturas, armas, joias, objetos, símbolos e maquetes. Os espanhóis queriam ouro e qualquer coração arqueológico se aperta só de pensar nas preciosidades que derreteram. Alguns adornos, descobertos recentemente, dão uma ideia dos tesouros perdidos. Para os astecas, porém, o material mais precioso era a turquesa, pedra sagrada da cor sublime que hoje estarrece os turistas diante do mar do Golfo do México e da água dos poços cerimoniais. A turquesa recobre a magnífica máscara da foto à esquerda, um Picasso asteca com a complexidade das grandes obras de arte é sereno, feroz, belo, feio, divino e humano, demasiado humano. Aparece na serpente de duas cabeças que servia de adorno e proteção peitoral e em crânios com restos de dentes e mandíbula que se move, provavelmente usados por sacerdotes nas cerimônias diárias de sacrifícios humanos o lado mais Indiana Jones da exposição. Todos os artefatos de pedra datam da época do imperador e trazem seu nome: um grande coração com veias na forma de dentes afiados, um pássaro com costas escavadas para receber o sangue dos sacrifícios, guerreiros com "armaduras" imitando os jaguares e as águias, os dois grupos combatentes de elite. Não existem, evidentemente, representações contemporâneas realistas de Montezuma. Seu retrato imaginário foi pintado por um espanhol no fim do século XVII, mas desde as sandálias até o piercing no queixo, passando pelo escudo emplumado, são baseados em imagens autênticas reproduzidas nos preciosos e extensos códices feitos por catequizadores espanhóis e seus alunos locais.
Nesse mundo, Montezuma era o imperador-deus. Tinha pouco mais de 30 anos quando ascendeu ao trono e terminou de dominar os povos do México central. Na descrição famosa de um dos conquistadores espanhóis, era "de boa altura, bem proporcionado e esbelto" também tomava banho todos os dias, uma novidade. O próprio Cortés descreveu a impressionante cerimônia em que Montezuma, cercado por 200 nobres, recebeu os espanhóis marchando por uma rua "muito larga e bela e tão reta" que podia ser vista do começo ao fim. A cidade era Tenochtitlán, sede do império asteca. Com estimados 250.000 habitantes, tinha as tais ruas retas que impressionaram Cortés, um sistema de canais e, presume-se, nenhum sinal da poluição de sua sucessora, a Cidade do México. Em 1507, quando estava havia cinco anos no trono, deu-se o fim de um dos ciclos de 52 anos que regiam o calendário asteca uma espécie de prenúncio do fim do mundo. Mas o sol voltou a nascer (ao custo, calcula-se, do sangue de 20 000 sacrifícios em uma só noite); Montezuma mandou erguer um teocalli, escultura de pedra na forma de trono que é um dos pontos altos da exposição, e gravou nele sua própria imagem ao lado dos deuses. Estava no auge e lá continuava quando Cortés desembarcou, em 1519, com 450 homens. Muitos historiadores rejeitam, por considerar desmoralizante, a interpretação de que o grande Montezuma viu nos conquistadores a realização de uma profecia sobre o retorno de Quetzacóatl, o deus pássaro-serpente. Mas o fato é que recebeu os espanhóis no palácio, cobriu-os de presentes e de homenagens. A colaboração acabou por provocar a revolta dos súditos, que o apedrejaram. A aura de espanto e esplendor que o cercava se perpetuou. É só conferir no Museu Britânico. |