Educação
Um retrato da sala de aula
Lailson
Santos
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Uma
visão prática
Carnoy: "Os professores devem ser treinados
para ensinar e não para difundir teorias genéricas" |
Poucos especialistas
observaram tão de perto o dia a dia em escolas brasileiras quanto o americano
Martin Carnoy, 71 anos, doutor em economia pela Universidade de Chicago e professor
na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, onde atualmente também comanda
um centro voltado para pesquisas sobre educação. Em 2008, Carnoy
veio ao Brasil, país que ele já perdeu as contas de quantas vezes
visitou, para coordenar um estudo cujo propósito era entender, sob o ponto
de vista do que se passa nas salas de aula, algumas das razões para o mau
ensino brasileiro. Ele assistiu a aulas em dez escolas públicas no país,
sistematicamente e chegou até a filmá-las , além
de falar com professores, diretores e governantes. Em entrevista à editora
Monica Weinberg, Martin Carnoy traçou um apurado cenário da educação
no Brasil.
COMO NO SÉCULO XIX
Está claro que as
escolas brasileiras públicas e particulares não oferecem
grandes desafios intelectuais aos estudantes. No lugar disso, não é
raro que eles passem até uma hora copiando uma lição da lousa,
à moda antiga, como se estivessem num colégio do século XIX.
Ao fazer medições sobre como o tempo de aula é administrado
nos colégios que visitei, chamaram-me a atenção ainda a predominância
do improviso por parte dos professores, os minutos preciosos que se esvaem com
a indisciplina e a absurda quantidade de trabalhos em grupo. Eles consomem algo
como 30% das aulas e simplesmente não funcionam. A razão é
fácil de entender: só mesmo um professor muito bem qualificado é
capaz de conferir eficiência ao trabalho em equipe ou a qualquer outra atividade
que envolva o intelecto. E o Brasil não conta com esse time de professores
de alto padrão. Ao contrário. O nível geral é muito
baixo.
MENOS TEORIA E MAIS PRÁTICA
Falta ao Brasil
entender o básico. Os professores devem ser bem treinados para ensinar
e não para difundir teorias pedagógicas genéricas.
As faculdades precisam estar atentas a isso. Um bom professor de matemática
ou de línguas é aquele que domina o conteúdo de sua matéria
e consegue passá-lo adiante de maneira atraente aos alunos. Simples assim.
O que vejo no cenário brasileiro, no entanto, é a difusão
de um valor diferente: o de que todo professor deve ser um bom teórico.
O pior é que eles se tornam defensores de teorias sem saber sequer se funcionam
na vida real. Também simplificam demais linhas de pensamento de natureza
complexa. Nas escolas, elas costumam se transformar apenas numa caricatura do
que realmente são.
QUE CONSTRUTIVISMO É ESSE?
O
construtivismo que é hoje aplicado em escolas brasileiras está tão
distante do conceito original, aquele de Jean Piaget (psicólogo suíço,
1896-1980), que não dá nem mesmo para dizer que se está
diante dessa teoria. Falta um olhar mais científico e apurado sobre o que
diz respeito à sala de aula. É bem verdade que esse não é
um problema exclusivamente brasileiro. Especialistas no mundo todo têm o
hábito de martelar seus ideários sem se preocupar em saber que benefícios
eles trarão ao ensino. Há um excesso de ideologia na educação.
No Brasil, a situação se agrava porque, acima de tudo, falta o básico:
bons professores.
Oscar Cabral
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Tempo
mal gasto
Ensino brasileiro: ausência de desafios intelectuais e excesso
de improviso |
À CAÇA DE MESTRES BRILHANTES
A
chave para um bom ensino é conseguir atrair para a carreira de professor
os melhores estudantes. Basta copiar o que já deu certo em países
como Taiwan, que reuniu em seu quadro de docentes algumas das melhores cabeças
do país. Ali, um professor ganha tanto quanto um engenheiro o que,
por si só, já atrai os alunos mais talentosos para a docência.
Mas não é só isso. Está provado que, para despertar
o interesse dos mais brilhantes pela sala de aula, é preciso, sobretudo,
dar-lhes uma perspectiva de carreira e de reconhecimento pelo talento que os distingue.
No Brasil, o pior problema não está propriamente na remuneração
dos professores, até razoável diante das médias salariais
do país mas justamente na ausência de um bom horizonte profissional.
VIGILÂNCIA SOBRE OS PROFESSORES
Os professores brasileiros
precisam, de uma vez por todas, ser inspecionados e prestar contas de seu trabalho,
como já ocorre em tantos países. A verdade é que, salvo raras
exceções, no Brasil ninguém sabe o que eles estão
ensinando em sala de aula. É o que me faz comparar as escolas públicas
brasileiras às empresas pré-modernas. Elas não contam com
mecanismos eficazes para cobrar e incentivar a produtividade. Contratam profissionais
que ninguém mais no mercado quer, treinam-nos mal e, além disso,
não exercem nenhum tipo de controle sobre eles. Hoje, os professores brasileiros
estão, basicamente, livres para escolher o que vão ensinar do currículo.
Não há padrão nenhum tampouco há excelência
acadêmica.
NA LINHA DA MEDIOCRIDADE
É boa notícia
que os brasileiros comecem a colocar a educação entre suas prioridades,
mesmo que isso ocorra com tanto atraso em relação aos países
mais desenvolvidos. Percebo no Brasil, no entanto, uma visão ainda bastante
distorcida da realidade típica de países onde as notas dos
estudantes são, em geral, muito baixas. A experiência indica que,
num cenário como esse, até mesmo os ótimos alunos tendem
a se nivelar por baixo. Com um resultado superior à média, eles
já se dão por satisfeitos, assim como seus pais e escolas. Na verdade,
estão todos mirando a linha da mediocridade. E é lá que estão
mesmo. Os exames internacionais da OCDE (organização que reúne
os países mais ricos) mostram isso com clareza. Os alunos brasileiros que
aparecem entre os 10% melhores são, afinal, menos preparados do que alguns
dos piores estudantes da Finlândia. Os finlandeses, por sua vez, definem
suas metas com base num altíssimo padrão de excelência acadêmica.
É esse ciclo virtuoso que o Brasil deve perseguir em todos os níveis.
CHEGA
DE UNIVERSIDADE GRATUITA
Se quiser mesmo se firmar como uma potência
no cenário mundial, o Brasil precisa investir mais na universidade. É
verdade que os custos para manter um estudante brasileiro numa faculdade pública
já figuram entre os mais altos do planeta. Por isso, é necessário
encarar uma questão espinhosa: a cobrança de mensalidades de quem
pode pagar por elas, como funciona em tantos países de bom ensino superior.
Sempre me pergunto por que a esquerda brasileira quer subsidiar os mais ricos
na universidade. É um contrassenso. Olhe o que aconteceria caso os estudantes
de renda mais alta pagassem algo como 1 000 dólares por ano às
instituições públicas em que estudam. Logo de saída,
o orçamento delas aumentaria na casa dos 15%. Com esse dinheiro, daria
para atrair professores do mais alto nível. Quem sabe até um prêmio
Nobel. O Brasil precisa, afinal, começar a se nivelar por cima. |