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diplomática nacional, o Brasil
se
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Edgard Garrido/Reuters![]() |
| À
vontade Zelaya dorme na embaixada brasileira em Tegucigalpa: ele se diz torturado por "mercenários de Israel" com "radiação de alta frequência" |
VEJA TAMBÉM |
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| • Quadro: Republiqueta de bananas | ||
| • Quadro: Uma diplomacia coerente nas derrotas | ||
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| • Linha do tempo: a crise diplomática em Honduras |
Lula tem na política o instinto matador que caracteriza os grandes artilheiros do futebol tão admirados por ele. Na semana passada, essa habilidade abandonou o presidente da República. Ele esteve em Nova York para discursar na abertura da 64ª Assembleia-Geral da ONU, palco privilegiado para fazer aquilo de que mais gosta e que faz como poucos: enaltecer o Brasil aos olhos do mundo. Em sua fala, Lula assinalou os avanços no uso de energias limpas no Brasil e mesmerizou os burocratas internacionais com ataques à caricatura do mercado onipotente. Ficou nisso. A maior parte do tempo passado sob os holofotes foi dedicada por Lula a falar de um país estrangeiro, Honduras, uma nação paupérrima sem nenhuma relação especial com o Brasil. Politicamente instável, Honduras vem de ejetar do posto e exilar um presidente, Manuel Zelaya, pela tentativa de desrespeitar a Constituição e, por meio da convocação de um plebiscito, perpetuar-se no poder.
Caso típico da contaminação ideológica patrocinada pelo venezuelano Hugo Chávez, Zelaya vendeu a Caracas seu pouco valorizado passado de latifundiário direitista. De repente, começou a se pautar pela cartilha populista chavista de miséria moral e material, supressão de liberdades individuais, desrespeito às leis, aos costumes civilizados, associação com o narcotráfico e, claro, eternização no poder receita que estranhamente passou a ser chamada de esquerda na América Latina. Em uma operação comandada por Chávez, Zelaya foi conduzido de volta a Honduras e se materializou com numerosa comitiva na casa onde funciona a Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Esse hóspede incômodo, de aparência bizarra e com sinais evidentes de distúrbios mentais ele se diz vítima de ataques por radiação de alta frequência e gases tóxicos que ninguém mais percebe , foi o grande assunto de Lula em Nova York. O Brasil pode esperar outra oportunidade.
Zelaya é um problema dos hondurenhos que encurtaram seu mandato antes que ele o espichasse indefinidamente. É um problema também de Chávez, que não se conforma em perder o investimento feito na conversão dele ao seu credo. É um problema dos Estados Unidos pela proximidade geográfica e por estar na sua esfera de influência histórica. Pois a semana acabou com Zelaya sendo um problema e constrangimento para o Brasil. Golpe de mestre de Chávez, que evitou alojar Zelaya na Embaixada da Venezuela, ordenando a seus amigos na paradiplomacia brasileira chefiada por Marco Aurélio Garcia que o acolhessem na representação brasileira. "Hoje, o Brasil tem um problema em Honduras e Chávez, que o produziu, não tem nenhum", diz Maristela Basso, professora de direito internacional da Universidade de São Paulo. Chávez age como o líder do subcontinente americano. Faz troça dos Estados Unidos e ignora Lula.
Edgard Garrido/Reuters![]() |
| SINTAM-SE
EM CASA Partidários de Zelaya sob proteção brasileira: a embaixada em Honduras foi convertida em palanque eleitoral |
Com as eleições
marcadas para o próximo dia 29 de novembro, o governo interino que derrubou
Zelaya se preparava para reconduzir o país à normalidade democrática.
O candidato ligado a Manuel Zelaya aparecia até bem colocado nas pesquisas
de intenção de voto. Seria uma saída rápida e democrática
para um golpe, coisa inédita na América Latina. Seria. Agora o desfecho
da crise é imprevisível. O mais lógico seria deixar o retornado
sob os cuidados dos amigos brasileiros até depois das eleições,
que, se legítimas, convenceriam a comunidade internacional das intenções
democráticas dos golpistas. E, claro, com-binar isso com os apoiadores
e detratores de Zelaya nas ruas (veja a reportagem da enviada especial de VEJA, Thaís Oyama), já que elas costumam ter sua
própria e volátil dinâmica. O Brasil, que poderia ser parte
da solução da crise de Honduras, tornou-se, graças a Chávez,
o problema. A embaixada brasileira agora tem um hóspede que ouve vozes
e uma paradiplomacia que ouve ditadores estrangeiros.
"O Brasil passou à condição de refém de Zelaya. Ele jamais quis nossa proteção, tudo o que quer é usar a embaixada como palanque eleitoral", definiu na sexta-feira passada o embaixador Marcos Azambuja, expoente do passado de diplomacia profissional de padrão mundial que um dia prevaleceu no Itamaraty. O ministro-conselheiro Francisco Catunda Resende, único diplomata brasileiro em Honduras, foi quem recebeu Zelaya, acompanhado da mulher, Xiomara, filhos e bagagem, às 11 horas da manhã de segunda-feira. Catunda Resende já tinha sido informado, em termos misteriosos, da iminente chegada de um visitante ilustre, conforme VEJA apurou no Itamaraty. O que não estava combinado era que Zelaya transformaria a embaixada em comitê de campanha, com centenas de correligionários acampados dentro do prédio. Ele deu entrevistas dentro da embaixada e proferiu um discurso da varanda do 2º andar. Disse que lutaria pelo cargo até a morte e conclamou a população a resistir. Tomou conta do lugar com tal desfaçatez que seu pessoal se recusou a dividir com os funcionários brasileiros a comida enviada pela ONU. A situação é inédita nas relações internacionais (veja o quadro). Em geral, um país dá asilo em sua embaixada a alguém que é perseguido e corre risco no país. Não é o caso de Zelaya, que estava em segurança na Nicarágua e resolveu voltar para Honduras, onde há um mandado de prisão contra ele. A versão oficial do Itamaraty é que está "abrigando o presidente Zelaya numa situação peculiar, na qual ele corre risco" e que ele "não é um asilado". "Se eu estivesse lá, deixaria o presidente deposto entrar na embaixada e o manteria lá. O que não tem cabimento é a chegada de 300 aliados políticos, que passaram a utilizar a embaixada como um comitê", diz Roberto Abdenur, que foi embaixador em Washington.
Fotos Henry
Romero/Reuters e Franklin Rivera/AFP![]() |
| PAÍS TUMULTUADO Hondurenhos protestam contra Chávez e, ao lado, partidário de Zelaya: o incrível latifundiário que virou ícone esquerdista |
A ajuda a Zelaya
é a confirmação da primazia da ideologia sobre o interesse
nacional no governo Lula. Honduras só tem importância na retórica
e nos planos de Chávez, que procura ampliar sua influência entre
os pequenos países centro-americanos. Honduras não está na
agenda diplomática do Brasil aliás, de nenhum país
exceto seus vizinhos e a Venezuela porque não tem importância
política ou econômica. É um exportador de bananas e, com sua
instabilidade crônica, serviu de modelo para a criação da
expressão "república bananeira". Praticamente, só
conta com um parceiro comercial, os Estados Unidos. A crise é um daqueles
casos em que os dois lados envolvidos não têm razão. Incentivado
por Chávez, Zelaya tentou modificar uma cláusula pétrea da
Constituição e instituir a reeleição. O Congresso
e o Judiciário proibiram um plebiscito sobre o tema, que foi mantido por
Zelaya. A Suprema Corte, então, decretou sua prisão. Em vez de prendê-lo,
porém, um comando militar invadiu sua casa durante a madrugada e o expulsou
do país, ainda de pijama. Em seu lugar foi empossado Roberto Micheletti,
presidente do Congresso e membro do mesmo partido de Zelaya.
Houve um golpe de estado? Sim. País pequeno e pobre, Honduras foi transformada num caso exemplar do repúdio da comunidade internacional aos golpes de estado. Foi castigada com sanções econômicas e congelamento nas relações diplomáticas. Exceto por isso, o problema não era tão grande. A medida de força foi, até certo ponto, justificável pelas leis do país. Até o momento do golpe, o maior perigo para a democracia era o presidente Manuel Zelaya. Ele seguia os passos de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales, e queria reescrever a Constituição para ampliar o próprio mandato. Não foi um golpe revolucionário, que rasga a Constituição, militariza o Poder Executivo e elimina a liberdade de expressão. Ao contrário, o objetivo era preservar as instituições. As eleições foram mantidas, com a presença da oposição, em 29 de novembro. Havia calma nas ruas, apesar de o país sentir o peso das sanções econômicas. A situação em Honduras só tinha importância para Zelaya. Se as eleições fossem realizadas, um novo presidente assumiria e o deposto cairia no anonimato. Em entrevista a VEJA, o americano Peter Hakim, do Diálogo Inter-Americano, um centro de estudos em Washington, colocou a questão em termos realistas: "Honduras pode ter cometido um pecado, mas não é a Sérvia ou Darfur. A comunidade internacional deveria focar no retorno da melhor democracia que eles possam ter". O governo Lula preferiu apoiar os planos de continuísmo de Zelaya. Essa intervenção jogou lenha na fogueira e pôs Honduras à beira da anarquia.
Rodrigo Abd/AP![]() |
| CAOS E TEMOR O país estava em paz, mas a volta do presidente deposto esquentou os ânimos: supermercado saqueado |
Manuel Zelaya é o mais improvável
dos ícones adotados pela esquerda pró-Chávez. Um homem rico,
dono de fazendas e madeireiras, anda sempre de botas, guayabera (a camisa
típica da América Central) e chapéu branco, de abas largas.
Com quase 2 metros de altura, bigodão de mexicano em filme americano, ele
cultiva a imagem de um homem do campo honesto e trabalhador. Gosta de ser chamado
de "Comandante Vaqueiro". Filho de uma família tradicional de
fazendeiros, Zelaya filiou-se ao Partido Liberal, o mais à direita de Honduras,
em 1970. Seu pai tinha sido do mesmo partido, mas teve suas ambições
políticas frustradas quando passou sete anos na cadeia. Foi condenado como
mandante do assassinato de dois padres e treze agricultores sem-terra que haviam
invadido sua propriedade. A aproximação com Chávez ocorreu
em 2008 e contou, no início, com apoio no Congresso. Em troca de 130 milhões
de dólares, 4 milhões de lâmpadas e 100 tratores, Honduras
entrou para a Alba, a associação de amigos de Chávez.
Os hondurenhos desconheciam então que o presidente também recebera de Chávez conselhos perversos sobre como se utilizar de mecanismos democráticos, como eleições e plebiscitos, para aniquilar a democracia e se perpetuar no poder. Um comunista diria que faltaram ao chavista neófito as condições objetivas para aplicar o modelo bolivariano de tomada do poder. Em fim de mandato, com popularidade baixa (30%), andava às turras com os companheiros liberais e, quando não conseguiu cooptar o chefe das Forças Armadas para a realização do plebiscito, ele fez a besteira de demiti-lo sumariamente. É um mistério como ele pretendia ser aceito como caudilho sem ter o apoio do Judiciário, do Legislativo, das Forças Armadas e da população. É difícil deduzir se Zelaya se atrapalhou por esperteza ou ingenuidade. Não se deve descartar a hipótese de que o homem seja um lunático. Como sugere sua queixa, na semana passada, de que "um grupo de mercenários israelenses" estava perturbando seu cérebro com "radiações de alta frequência". A paranoia dos raios mentais é um sintoma clássico de esquizofrenia. O certo é que Zelaya não cabe no figurino de um mártir da democracia.
Oswaldo Ribas/Reuters![]() |
| SEQUELAS DO GOLPE Roberto Micheletti, presidente interino de Honduras: sanções econômicas já causaram uma queda de 6% no PIB hondurenho |
Desde que foi deposto e expulso do país, em 28 de junho,
Zelaya conta com a ajuda do Brasil. O presidente Lula e o senador José
Sarney o receberam em Brasília com honras de chefe de estado. Um exagero,
mas ainda dentro do razoável. Lula é obcecado por fazer do Brasil
um protagonista no cenário mundial. Daí a mania de dar palpite em
temas sobre os quais seria melhor ser discreto. O Brasil está bem equipado
para desempenhar um papel mais ativo. Uma das dez maiores economias do mundo,
o país é uma democracia de dimensões continentais. Seu presidente,
por sua vez, é festejado e bem-vindo no exterior. Pode-se contar também
com o apoio dos Estados Unidos, que veem o fortalecimento do Brasil como uma boa
forma de conter a influência de Chávez no continente. Se o país
é humilhado pelos vizinhos, tem suas riquezas roubadas impunemente e acumula
derrotas nos organismos internacionais, é porque o presidente e seus diplomatas
escolheram o caminho da ideologização da diplomacia nacional (veja
o quadro). Qualquer regime minimamente antiamericano conta
com o apoio tático do governo brasileiro ainda que esteja envolvido
em genocídio, como o do Sudão, ou seja tratado como pária
mundial, como o do Irã. As estripulias dos governantes de esquerda da região
mesmo que eles estejam agindo contra os interesses brasileiros são
toleradas em silêncio pelo presidente Lula. "Por causa dessa política
externa, estamos sempre a reboque dos acontecimentos", disse a VEJA Rubens
Barbosa, que foi embaixador brasileiro em Washington. O Brasil poderia ser protagonista
de uma solução pacífica em Honduras, cujo formato foi definido
por Oscar Arias, Prêmio Nobel da Paz e presidente da Costa Rica, com o apoio
dos Estados Unidos e da Organização dos Estados Americanos. Chávez
foi mais convincente. Na Assembleia-Geral da ONU, em rompante, Lula chegou a dar
ultimato ao governo de Honduras. Vai mandar os fuzileiros navais? Seria a suprema
vitória de Chávez na armadilha que armou para Lula.
Com reportagem de Thomaz Favaro