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Home  »  Revistas  »  Edição 2132 / 30 de setembro de 2009


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Livros

O nascimento dos Sherlocks

Uma jornalista inglesa reconstitui um crime bárbaro do século XIX no
qual comparece uma nova figura da investigação criminal: o detetive


Jerônimo Teixeira

Hulton Archive/Getty Images
LUZ SOBRE A SORDIDEZ
A polícia de Londres em ação, no século XIX


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Na madrugada de 30 de junho de 1860, Francis Saville Kent, de 3 anos e 10 meses, desapareceu do berço em que dormia na casa de seu pai, o inspetor de fábricas Samuel Kent, em Road, vilarejo do sul da Inglaterra. Seu corpo seria encontrado no fundo de um vaso sanitário, degolado e esfaqueado no peito. A comoção pública que o crime causaria, noticiado por jornais de toda a Inglaterra, é compreensível. O caso trazia todos os elementos para excitar aquele inapelável fascínio mórbido que nos acomete diante de tais situações: a vítima indefesa e inocente, a exposição de detalhes sórdidos de um lar afluente e a possibilidade de que o criminoso pertencesse ao círculo familiar da vítima (o pai e a babá estavam entre os maiores suspeitos). Uma dose extra de interesse foi provida por um investigador da Scotland Yard, Jonathan Whicher, chamado de Londres para deslindar o caso. Minuciosa reconstituição do crime e do ambiente social que o cercava, As Suspeitas do Sr. Whicher (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras; 432 páginas; 56 reais), da jornalista inglesa Kate Summerscale, apresenta os primórdios de uma categoria profissional que, na literatura do período, já começava a ganhar o status de um mito moderno: o detetive.

Rischgitz/Getty Images
PRODÍGIOS DO SÉCULO
Charles Dickens: um admirador dos pioneiros da Scotland Yard


Whicher foi um pioneiro. Ex-operário que encontrou uma carreira promissora na Polícia Metropolitana de Londres - fundada em 1829 -, desde logo mostrou uma sagacidade excepcional na identificação e captura dos larápios da região que patrulhava. Foi um dos oito escolhidos para integrar a primeira turma de detetives da Scotland Yard, em 1842. Com um conhecimento psicológico acurado dos vigaristas elegantes, ficou famoso por uma série de prisões espetaculares, como a de uma ladra de joias capturada em uma estação de trem, prestes a fazer sua fuga. O escritor Charles Dickens era um grande admirador de Whicher e de seus pares - escreveu reportagens em que descrevia a percepção quase sobrenatural desses detetives, e tomou um colega de Whicher como modelo para um personagem de A Casa Soturna. Mas o assassinato do pequeno Saville tornou-se uma nódoa na carreira de Whicher: ele sustentou a culpa da meia-irmã do menino, Constance, de 16 anos, excêntrica e enciumada filha de um casamento anterior de Samuel Kent. Os indícios que apontavam para Constance eram apenas circunstanciais, e ela saiu inocentada do julgamento. Whicher acabou desacreditado. Desligou-se da Scotland Yard em 1864 - um ano antes de Constance comparecer à polícia para finalmente confessar seu crime (talvez com o intuito de livrar seu irmão William, possível cúmplice do assassinato, de qualquer suspeita).

Dickens e outros autores contemporâneos descreviam os detetives como o equivalente humano do telégrafo, do trem e outros prodígios de então. O detetive seria uma verdadeira máquina de observação, fria e objetiva. De certo modo, é a mesma ideia que fundamenta hoje séries de televisão como CSI: a técnica asséptica seria capaz de impor ordem a um mundo desordenado. O fracasso de Whicher - mais melancólico ainda porque, afinal de contas, ele estava certo - demonstra que os conflitos humanos são, não raro, sujos demais para quaisquer assepsias.

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