Seções
• VEJA.comPanorama
• Imagem da SemanaBrasil
• Sucessão: Lula abençoa a candidatura de Ciro GomesInternacional
• Estados Unidos: A mini-ONU do ex-presidente Bill ClintonGeral
• Antropologia: Cozinhar ajudou o homem a raciocinarArtes e Espetáculos
• Livros: Picos e Vales, de Spencer JohnsonMedicinaDoentes imagináriosFaculdades de medicina e hospitais recorrem às
artes cênicas
|
Manoel Marques![]() |
| TENSÃO No Hospital Albert Einstein, atriz interpreta mãe desesperada que tumultua uma conduta de ressuscitação |
Dona Maria Helena, eu sou o doutor Rodrigo, médico que aplicou a anestesia no seu filho.
Sentado numa cadeira em frente à mãe, ele continua, de forma cuidadosa, mas sem rodeios:
Eu e os meus colegas seguimos as melhores condutas médicas, mas infelizmente seu filho teve uma reação inesperada à anestesia e sofreu uma parada cardiorrespiratória. Embora tenhamos feito todo o possível para salvá-lo, ele faleceu.
A mãe entra em choque:
Como assim "faleceu"? Ele já tinha feito esse exame outras vezes, sem nenhum problema.
No momento mais tenso da conversa, Maria Helena diz:
O senhor está me dizendo que errou e, por causa disso, o meu filho está morto. E tudo o que o senhor tem a me dizer é "sinto muito"?
A cena vivida pelo anestesista Rodrigo de Angelis, de 34 anos, não é real. Faz parte de um treinamento realizado no Centro de Simulação Realística do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O papel da mãe é desempenhado pela atriz Maria Teresa Cordeiro. O objetivo desse teatro é treinar os médicos para enfrentar situações tão delicadas quanto frequentes. "A maioria das faculdades não prepara os médicos para falar com pacientes e familiares", diz Angelis. "É muito mais difícil lidar com o desespero e a indignação de uma mãe que perdeu o filho do que passar por testes técnicos, como aplicar uma anestesia ou realizar as manobras de ressuscitação."
Manoel Marques![]() |
| PROVA DE FOGO O médico Rodrigo de Angelis simula comunicar a uma mãe a morte de sua criança |
O treinamento médico mediante a simulação de situações
que podem ocorrer em centros cirúrgicos, salas de emergência e leitos
de terapia intensiva surgiu nos Estados Unidos nos anos 90. O objetivo era aprimorar
habilidades técnicas, adestrar os profissionais para a tomada rápida
de decisões e afinar o trabalho em equipe. De uma década para cá,
no entanto, as simulações incorporaram cenas que visam a suprir
uma das maiores carências entre os médicos: a dificuldade de comunicação.
As dramatizações servem para que aprendam a transmitir notícias
difíceis e também adquiram a capacidade de conquistar a confiança
dos doentes e de criar empatia com eles. Os médicos, por exemplo, são
ensinados a não desviar os olhos do paciente enquanto falam com ele (existe
algo mais irritante do que médico que faz perorações enquanto
olha para a tela do computador?). "A partir do século XIX, com o avanço
nos conhecimentos científicos e o aumento do tecnicismo, recursos básicos
como escutar, observar e confortar o doente foram se perdendo", diz Roberto
Padilha, diretor do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês,
em São Paulo. Acredita-se que um médico que preserve tais cuidados,
além de muito mais agradável, pode ser mais certeiro em seus diagnósticos.
Bettmann/Corbis/Latinstock![]() |
| CAMINHO INVERSO No século XVII, o dramaturgo francês Molière satirizava os médicos frios e mercenários. Por que não incluir a leitura de suas peças nas aulas hospitalares? |
Algumas
faculdades de medicina no Brasil oferecem aulas sobre a relação
médico-paciente, como ocorre na Universidade Federal de São Carlos
e na Universidade de São Paulo. O modo como o médico se comunica
com o paciente é tão valorizado hoje em dia que entrou para o processo
seletivo de hospitais brasileiros. Há três anos, a avaliação
para a residência no Hospital Sírio-Libanês incorporou à
prova prática testes teatrais para aferir o desempenho dos candidatos em
situações que exigem comportamentos mais cuidadosos. As simulações
respondem por 40% da nota final.
No século XVII, o dramaturgo francês Molière (1622-1673) usava o palco para criticar a precariedade da ciência de seu tempo e condenar, em especial, o comportamento dos médicos, marcado pelo charlatanismo, descaso e frieza. Em O Doente Imaginário, uma de suas peças mais encenadas, os médicos são bufões que só pensam em dinheiro. Talvez fosse interessante e instrutivo incluir a leitura de Molière nas simulações que ensinam os médicos a ouvir, consolar e olhar nos olhos de seus pacientes.