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Home  »  Revistas  »  Edição 2132 / 30 de setembro de 2009


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Antropologia

Cozinho, logo penso

Richard Wrangham, o antropólogo de Harvard que já viveu
como um chimpanzé, diz que o homem moderno é decorrência
do uso do fogo no preparo dos alimentos. Isso garantiu os
nutrientes necessários para o crescimento do cérebro


Gabriela Carelli

Rick Friedman/Corbis/Latin Stock
VIDA DE MACACO
O antropólogo Richard Wrangham: tanga e carne crua na floresta para entender que o homem não vive sem a cozinha


Em termos biológicos, nossa estirpe não é das mais antigas. Cinco ou 6 milhões de anos atrás, um ramo da família dos primatas dividiu-se em duas linhas. Uma levou ao atual chimpanzé. A outra a nós, o Homo sapiens. Como se explica o fosso cognitivo existente entre espécies tão próximas? Sabe-se que os genomas são bastante similares – a divergência ocorre em apenas 0,6% dos genes. Ainda assim, em vez de ser apenas outro tipo de chimpanzé, o homem é uma espécie diferente de todas as outras, dotado de um cérebro com capacidade mental única. A questão que intriga cientistas e filósofos de todos os tempos é: o que, no processo evolutivo, nos tornou humanos? A resposta definitiva esbarra numa dificuldade incontornável – o desaparecimento de todas as espécies intermediárias entre o homem e aquele ancestral que ele teve em comum com o chimpanzé. Ainda assim, o estudo dos fósseis e outros registros do passado permitiram a elaboração de uma teoria amplamente aceita entre os estudiosos. Essa hipótese identifica momentos decisivos na jornada humana e dá uma explicação convincente para o enorme cérebro do Homo sapiens.

O primeiro grande salto foi o uso de ferramentas. Em 1996, o antropólogo Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, descobriu na Etiópia fósseis incompletos de um primata, ao qual deu o nome de Australopithecus garhi, que viveu há 2,5 milhões de anos. Como no mesmo sítio foram encontradas lâminas de pedra lascada, foi possível estimar uma data aproximada do início do uso dos instrumentos. Talvez elas ainda não ajudassem na caça, mas com certeza permitiram cortar e aproveitar melhor a carne das presas. Foi um enorme salto na jornada humana. O tamanho do cérebro do homem moderno é uma extravagância. Com 2% do peso total do indivíduo, consome por volta de 20% de toda a energia disponível. Vista de hoje, a vantagem evolucionista desse arranjo parece óbvia – mas sempre houve discussão sobre como a evolução validou uma mutação de manutenção tão cara. A explicação só pode ser que o homem primitivo descobriu uma fonte farta de nutrientes. Esse alimento foi a carne, o único capaz de fornecer a proteína necessária para a expansão da capacidade mental.

Mãos capazes de movimentos complexos, ferramentas e o consumo de carne foram os elementos básicos. Os hominídeos vegetarianos foram extintos, enquanto seus primos carnívoros sobreviveram e deram origem à linhagem evolutiva que produziu o homem moderno. Mas isso não explica tudo, pois os chimpanzés também usam ferramentas e comem carne, mas continuam animais. O antropólogo inglês Richard Wrangham, da Universidade Harvard, justifica a diferença com o acréscimo de outra vantagem competitiva na equação: a conquista do fogo e seu uso para cozinhar. Isso permitiu ao homem preservar melhor os alimentos e, principalmente, tornar o processo digestivo mais eficiente, com o consequente aumento da absorção de nutrientes pelo organismo. Em seu recém-lançado Catching Fire: How Cooking Made Us Human (Pegando Fogo: como o Cozimento nos Tornou Humanos, em tradução literal), Wrang-ham diz que o domínio do fogo coincidiu com o surgimento do Homo erectus, 1,8 milhão de anos atrás. Anatomicamente, ele já era bastante moderno. Seu cérebro tinha 900 centímetros cúbicos (o do homem atual tem
1 400 centímetros cúbicos). Sabe-se disso porque o cérebro é o único órgão a deixar sua marca no interior da caixa craniana.

Attila Kisbenedek/AFP
FERRAMENTAS NÃO BASTAM
As pesquisas de Jane Goodall na Tanzânia comprovaram que os chimpanzés usam ferramentas, mas isso não os torna mais inteligentes


O Homo erectus foi o protagonista de uma revolução. Talvez o aumento de seu cérebro possa ter a ver com a nova forma de vida, baseada na exploração de recursos dispersos das savanas, bem diferentes das florestas tropicais onde vive até hoje o chimpanzé. Ele precisou armazenar no interior da cabeça a cartografia de um território amplo, identificar os urubus que indicavam a localização da carniça, adiantar-se aos acontecimentos do mundo natural e planejar-se para o futuro. É possível imaginar que o grupo social, reunido agora em torno do fogo e mais cooperativo nas caçadas, tenha ajudado a aumentar a complexidade cerebral. Nada disso se sabe com certeza – mas se pode ser mais assertivo a respeito do efeito da cozinha. "Sem o cozimento, seríamos parecidos com os outros primatas, que também usam ferramentas, caçam e comem carne. Passaríamos a maior parte do tempo mastigando, teríamos braços longos e corpo pequeno", disse Wrang-ham a VEJA. "O advento da carne foi fundamental, mas o nosso salto evolutivo deve-se ao preparo dos alimentos ao fogo, que permitiu aos nossos ancestrais absorver o máximo de nutrientes e calorias."

Richard Wrangham é um ícone da antropologia moderna. Ele iniciou sua carreira como auxiliar de Jane Goodall, a primatologista inglesa cuja vida entre os chimpanzés nas florestas da Tanzânia já virou filme. O próprio Wrangham estuda esses primos do homem há quatro décadas. Para entendê-los melhor, ele até tentou viver como um deles. Vestiu uma tanga e entrou no mato numa manhã, disposto a encontrar alimentos na selva, como fazem os chimpanzés. Na maioria das vezes, tudo o que conseguiu foram frutas amargas e a carne crua de algum macaco que os chimpanzés tinham matado e deixado para trás. "Fiquei faminto", admite Wrangham. A experiência o levou a refletir sobre o papel do fogo na evolução do homem. "Comecei a pensar como os nossos ancestrais teriam sobrevivido dessa forma, comendo o mesmo que os chimpanzés. E cheguei à conclusão de que isso não seria possível." Não se conhece nenhum grupo humano que deixe de cozinhar seus alimentos (os crudistas, os radicais chiques americanos que só consomem alimentos crus, não valem como exemplo). Na mitologia de muitos povos, a descoberta do fogo simboliza o início da cultura humana (veja o quadro abaixo). "Com o fogo, nossos ancestrais mudaram a maneira de se relacionar. Os indivíduos passaram a gastar um bocado de tempo ao redor do fogo, juntos", diz Wrangham. "Uma forma de viver bem diferente da dos chimpanzés, que dormiam em qualquer lugar e estavam sempre dispostos a deixar o grupo ao primeiro sinal de conflito." No fim das contas, foi a cozinha que deu o empurrão que faltava para nossa transformação em humanos.


Entre gregos e bororos

Fotos Corbis/Latinstock e Apic/Getty Images
O MITO FUNDADOR da humanidade é o fogo: pintura do Prometeu Acorrentado da peça de Ésquilo e o francês Lévi-Strauss na mata tropical brasileira


Fonte de calor e luz, origem da vida, purificador de pecados, castigo divino... Do zoroastrismo aos ritos indígenas das Américas, da Grécia clássica ao catolicismo, de uma forma ou de outra, o fogo teve papel central nas cerimônias, liturgias e mitos de todas as culturas e religiões conhecidas. O mito do Prometeu Acorrentado, escrito por Ésquilo no século IV a.C., não é o mais antigo registro da relevância do fogo na vida humana, mas é o que melhor encarna seus significados essenciais: a transição entre o divino e o terrestre, a mudança do estado natural para o cultural. Prometeu rouba o fogo então privativo dos deuses e o entrega aos mortais. Pelo crime, ele não perde a imortalidade, mas é condenado a viver acorrentado a um penhasco e ter seu fígado devorado pelos abutres todos os dias. Nas palavras de Ésquilo: "Assim ele aprenderá o que é atrair sobre si a fúria de Zeus / E vai parar de agir como o adorador da humanidade".

O etnólogo francês Claude Lévi-Strauss deu ao primeiro volume de sua obra principal, Mythologiques, um título culinário: O Cru e o Cozido. O livro trata dos mitos prevalentes entre os índios bororos do interior do Brasil, em meio aos quais o francês viveu em períodos alternados entre 1935 e 1939. O mito fundador da raça humana para os bororos era o fogo e seu significado, muito parecido com o dos gregos da antiguidade clássica. Também entre os indígenas o fogo tinha origem divina – no Sol. Apropriar-se dele nas fogueiras da tribo equivalia a libertar-se da tirania das divindades naturais, mesmo que não totalmente de sua ira, e estabelecer-se como uma cultura essencialmente humana.


Com reportagem de Nathália Butti

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