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contra a aids
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Irineu
Barreto Filho![]() |
| Ontem e hoje O cantor Cazuza, morto em 1990, foi contaminado com o subtipo B do HIV, uma das versões do vírus combatidas com relativo sucesso pela nova vacina |
A criação de uma vacina contra
o HIV representa um dos maiores desafios da medicina na luta contra a aids. O
vírus, por suas características biológicas, tem uma capacidade
extraordinária de driblar os mecanismos de defesa do organismo. Nos últimos
vinte anos, para se ter uma ideia, pelo menos dez vacinas em fase de testes em
seres humanos foram descartadas dada sua inocuidade. Tal cenário começou
a mudar na semana passada. Um grupo de pesquisadores americanos, franceses e tailandeses
anunciou o desenvolvimento da RV 144, a primeira vacina capaz de reduzir significativamente
o risco de infecção pelo HIV. No maior estudo já realizado
sobre a imunização contra a doença, a taxa de proteção
proporcionada pela RV 144 foi de 31%. Seu grau de eficácia ainda não
permite que ela seja usada comercialmente. Em geral, uma vacina só é
aprovada se apresentar, no mínimo, 70% de sucesso. Em se tratando do HIV,
no entanto, o resultado obtido pela RV 144 já é considerado histórico.
"Uma surpresa enorme", "um passo fabuloso" e "um grande
marco": essas foram algumas das expressões usadas por especialistas
do mundo todo para definir a RV 144.
Conduzido pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, pelo Exército americano e pelo Ministério da Saúde da Tailândia, o trabalho com a RV 144 acompanhou 16.400 tailandeses, de 18 a 30 anos, por três anos, a partir de 2006. O grupo era formado tanto por pessoas com comportamento de risco quanto por homens e mulheres que se precaviam contra a aids. Metade dos voluntários recebeu seis doses da vacina durante seis meses e a outra metade, apenas placebo. Entre os imunizados, 51 foram infectados pelo HIV contra os 74 do outro grupo. "Essa é a primeira evidência de uma vacina antiaids segura e com capacidade imunológica superior a 5%", diz o infectologista Artur Timerman. A RV 144 protege contra dois dos doze subtipos do vírus HIV: o E e o B. O E é o mais comum no Sudeste Asiático, enquanto o B prevalece na maior parte da Europa e nas Américas. O cantor e compositor Cazuza, que morreu em 1990, aos 32 anos, era portador do subtipo B.
Nenhum vírus é tão resistente à imunização quanto o HIV. Ao infectar um organismo, seu primeiro alvo são os linfócitos CD4, as principais células de defesa. Além disso, ao contrário do que acontece com a maioria dos vírus e bactérias, o HIV nem chega a reagir ao ataque de anticorpos produzidos pelo sistema imunológico. Ele se multiplica tão rapidamente e entra nos linfócitos CD4 de forma tão veloz que o corpo não consegue produzir anticorpos eficientes. "Uma vacina contra a aids, portanto, tem de estimular o trabalho dos linfócitos para que eles bloqueiem a entrada do HIV", diz Ricardo Diaz, infectologista da Universidade Federal de São Paulo. É justamente isso que a RV 144 faz.
A nova vacina é resultado da combinação de outras duas. Uma é a Alvac, do laboratório francês Sanofi Pasteur, e a outra é a AidsVax, da ONG americana Global Solutions for Infectious Diseases. Como elas não surtem efeito quando utilizadas em separado, as pesquisas em torno delas foram deixadas de lado em 2003. Pelo fato de não apresentarem riscos, os cientistas voltaram a estudá-las três anos depois. Por que elas funcionam juntas, e não isoladamente, é apenas uma das muitas questões a ser desvendadas a partir de agora. Como disse o médico americano Anthony Fauci, um dos líderes da pesquisa, a RV 144 é apenas o "começo de uma longa estrada" na descoberta de uma vacina que realmente seja a bala de prata contra a aids.