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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Por que os juros
não baixam?
"Se o governo devolvesse aos
bancos o
dinheiro de seus empréstimos caríssimos,
eles ficariam com um monte de recursos parados
nas mãos e teriam de reduzir os juros"
É impressionante e assustador
o número de políticos, líderes sociais, empresários,
advogados, candidatos à Presidência da República,
jornalistas e leitores que ainda não entendem por que o Banco
Central não baixa os juros em termos reais. O que caiu até
agora foi a inflação, os juros reais até subiram
nestes últimos doze meses. Muitos ainda acham que quem decide
a taxa de juro é o Banco Central, que pode reduzi-la por
canetada, ou pensam que falta "vontade política" para reduzir
os juros a patamares decentes. Se você é um desses,
lembre-se desta singela lição de economia e administração
econômica: só existe uma maneira de reduzir os juros
em um país onde o Estado toma emprestados para si 80% da
poupança do povo. A única forma de baixar os juros
nesses casos é reduzir a dívida, devolvendo o dinheiro
emprestado aos seus legítimos donos, o poupador brasileiro.
Ilustração Atômica
Studio
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Se o governo dissesse para os bancos: "Tomem seu dinheiro de volta,
não queremos mais esses empréstimos caríssimos",
os bancos ficariam com um monte de recursos parados nas mãos,
sem remuneração, e perderiam dinheiro. Para emprestarem
de novo, teriam de reduzir os juros. Administradores financeiros
competentes muitas vezes conseguem essas reduções
simplesmente "ameaçando" devolver suas dívidas. Se
o governo começasse devolvendo pelo menos 10% da dívida,
e "ameaçasse" devolver mais 20% nos próximos anos,
o juro real, aí sim, despencaria.
Nenhum governo até hoje
nestes 500 anos devolveu as dívidas que governos anteriores
contraíram. Não há interesse nem estímulo
político em pagar o que o governo anterior tomou emprestado
e gastou. Isso até dá para entender. Todo governo
quer ser reeleito e para isso tem de gastar mais do que o governo
anterior, e não pagar o que é devido.
O ex-ministro da Fazenda Delfim
Netto ficou famoso por defender abertamente, em 1982, a seguinte
heterodoxia econômica: "Dívida não se paga.
Dívida se rola". Delfim felizmente já mudou de idéia,
e talvez seja o único deputado federal que percebe que a
única forma de baixar os juros é reduzindo o montante
da dívida em termos absolutos, via seu plano de déficit
zero. Reduzir a dívida como proporção do PIB,
política defendida atualmente pela maioria de seus colegas
economistas, não reduz necessariamente o montante da dívida.
Só a faz crescer num ritmo menos acelerado.
A história mostra que
governo algum devolveu aos seus legítimos donos a dívida
interna que contraiu. Pelo contrário, de tempos em tempos,
na época de inflação brava, o governo tungava
os investidores em 30%, e a famosa correção monetária
ao longo de sua vida só "corrigiu" 10% da inflação,
e não os 100% prometidos. Os 5 milhões de famílias
que poupam e investem em títulos públicos, via seus
fundos de pensão ou esses fundos DI, estão obviamente
ressabiados. A maioria acha que a dívida nunca será
devolvida, por isso os juros são elevados. Elas tentam recuperar
o investido via juros, e não via devolução
do principal. Para piorar a situação, a cada eleição
aparece um candidato ou candidata que culpa os bancos e os poupadores
pela alta dos juros e anuncia o repúdio da dívida
ou o seu calote, o que confirma as piores suspeitas e eleva os juros
reais para os níveis que temos.
Quem determina os juros, como
tudo, é o mercado, nesse caso os milhões de poupadores
brasileiros, gente que tem medo de investir em bolsa ou abrir sua
própria empresa. Como prova do que estou dizendo, o governo
Lula devolveu 100% da dívida externa aos poupadores americanos,
e o risco Brasil, os juros que cobram das empresas, nunca esteve
tão baixo. Falta agora devolver a dívida interna.
A primeira lição
ética que cada mãe ensina aos seus filhos é
"devolver sempre o que tomou emprestado", algo que muitos bandidos,
políticos e governos ainda não aprenderam. Se você
é um daqueles que querem ver este país crescer novamente,
saiba que ninguém irá "reduzir" os juros. Lute para
que o governo devolva a dívida que contraiu e nunca devolveu.
Aí, sim, o governo reduzirá suas despesas de juros
para zero e a taxa de juro cairá a um nível que fará
o país crescer. Além do mais, nem seria ético
nossa geração deixar para a próxima uma dívida
que é nossa obrigação pagar.
Stephen Kanitz é formado
pela Harvard Business School
(www.kanitz.com.br)
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