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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Uma
riqueza que escapa do Brasil O futebol
é mais um produto nacional que
acaba por engordar de preferência
as fortunas estrangeiras
Rogério Ceni, do São Paulo, e Rafael Sobis, do Internacional, os
dois principais jogadores dos times finalistas da Taça Libertadores da
América, representam com perfeição, cada um a seu modo, a
crise do futebol brasileiro. Rogério Ceni é o mais festejado jogador
em atividade no país. Além de ser o melhor goleiro do Brasil, acaba
de se sagrar o maior goleiro artilheiro do futebol mundial. Rafael Sobis é
uma das boas vocações de artilheiro surgidas nos últimos
dois anos. Os dois gols que marcou contra o São Paulo, no campo do adversário,
garantiram o título da Libertadores ao seu time. Ele é um símbolo
da crise do futebol brasileiro porque tão logo conquistou o campeonato
bateu asas e voou rumo ao futebol espanhol. Rogério Ceni é outro
símbolo porque encarna uma situação em que o que nos resta
a festejar é um goleiro. Não apenas
Rogério mas os goleiros como um todo configuram um caso especial no atual
panorama futebolístico eles são os que mais ficam, num tempo
de corrida para ir embora. Não é por outro motivo que hoje se assiste
ao fenômeno bizarro de tantos goleiros feitos capitães de seus times.
O capitão do Santos é Fábio Costa. O do Palmeiras, quando
joga, é Marcos. O do São Paulo é Rogério Ceni. Tirante
um jogador que diz coisas que ninguém entende caso do argentino
Tevez, segundo Leão, o novo técnico do Corinthians , ninguém
menos indicado para capitão do time do que um goleiro. Ele fica lá
atrás, parado e distante dos outros, num lugar difícil de se fazer
ouvir. No entanto, que fazer? Os outros vão partindo e sobra o goleiro
como o mais respeitado e experiente do time. Os
goleiros ficam porque valem menos no mercado. Há goleiros brasileiros no
exterior, mas a demanda por eles não se compara com a que existe pelos
jogadores de linha. Daí que Rogério Ceni, aos 33 anos, ainda permaneça
no Brasil, enquanto Rafael Sobis, aos 21, já tenha partido. Não
faltam méritos a Rogério, que, além de dono de reflexos apurados
e emérito pegador de pênaltis, desenvolveu como cobrador de faltas
pontaria comparável à de virtuoses da especialidade, como Didi e
Zico. Mas é fato inédito, na história do futebol brasileiro,
que o maior jogador em atividade no país seja um goleiro. Um goleiro!
espécime que entra em campo para jogar com as mãos num esporte em
que a arte está na habilidade dos pés.
O modelo exportador, que nos leva os Rafael Sobis e deixa os goleiros como prêmio
de consolação, é o responsável pela crise do futebol
brasileiro. O Internacional, encerrada a Libertadores, vendeu, além de
Sobis, outros três de seus titulares. Vai disputar o Mundial de Clubes como
um atleta que tem um de seus membros amputados. Hoje em dia os jogadores são
vendidos não só para a Espanha ou a Itália. Vão até
para a Ucrânia e a Turquia, países muito inferiores ao Brasil tanto
em PIB quanto em público para o futebol. O São Paulo vendeu o zagueiro
Lugano para o futebol turco. Não há razão alguma para a Turquia
possuir cacife que lhe permita levar os bons craques do Brasil. Ou melhor, há:
lá não existe uma teia de dirigentes esportivos, empresários
e políticos trabalhando com tanto afinco contra os interesses do próprio
país. A gestão amadorística, o uso do futebol como instrumento
de promoção pessoal e política e a corrupção
são os fatores que arrastam ao buraco o mais popular esporte do país.
Estudos do Atlas do Esporte no Brasil indicam
que o futebol mundial movimenta 250 bilhões de dólares anuais, dos
quais apenas 3,2 bilhões no Brasil menos de 1,5%. É uma participação
indigna até mesmo de um país acomodado à condição
de colônia produtora da matéria-prima. O futebol não é
nem mesmo o esporte que mais movimenta dinheiro no Brasil perde para o
hipismo e para o rodeio, segundo o mesmo Atlas do Esporte, o hipismo por
ser um esporte de gente rica, o rodeio por atrair crescentes adeptos, e ambos
por ser administrados de forma profissional. O professor Lamartine DaCosta, especialista
em gerência esportiva da Universidade Gama Filho e um dos editores do Atlas,
afirma que em 1971, quando ele começou a mexer com o assunto, o futebol
representava a metade do dinheiro movimentado pelo esporte brasileiro. Hoje fica
nos 20%. O futebol cinco vezes campeão do
mundo é um ratinho raquítico em termos econômicos. E vai continuar
a sê-lo enquanto vigorar uma cultura que já incorporou como natural
que jogadores de nível de seleção se mudem para a Turquia,
e que os times comecem os campeonatos com determinada formação e
terminem com outra, tantos são os desfalques no meio do caminho. Jornais,
rádios e TVs dedicam amplos espaços ao futebol, mas raramente o
assunto são suas estruturas. Tal desatenção contribui para
que, como o ouro de Minas, outrora, ou a borracha da Amazônia, o futebol
seja mais uma riqueza nacional a engordar de preferência as fortunas estrangeiras.
P.S.: Ah, mas que bom que o futebol exista.
Ou que exista uma pendenga em torno do ex-planeta Plutão. Assim não
se precisa falar de campanha eleitoral. |