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Cinema
A hollywood africana
Sem subsídio do governo, a indústria
de cinema da Nigéria tem o terceiro
maior faturamento do mundo

Thomaz Favaro
Abraham Mclaughlin/Getty Images
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| Cena nollywoodiana: baixo custo |
A Nigéria tem, segundo a ONU, um padrão de vida pior
do que o do Haiti, a nação mais miserável da
América Latina. Como em qualquer outro lugar do mundo, muitos
de seus jovens sonham com uma carreira no cinema. A surpresa é
que, entre os nigerianos, esse objetivo está ao alcance da
mão. Nos últimos quinze anos, o país africano
desenvolveu uma pujante indústria cinematográfica
a terceira maior do mundo, com um faturamento anual de 200
milhões de dólares que a deixa atrás apenas
de Hollywood, nos Estados Unidos, e de Bollywood, na Índia.
Nollywood, como é chamado o conjunto de produtoras nigerianas
de cinema, ganha de americanos e indianos em um quesito: a quantidade
de filmes. São 1.200 novos títulos por ano, o dobro
do que costuma ser produzido nos Estados Unidos. Nollywood é
o segundo maior empregador do país, com 1 milhão de
trabalhadores. Nem o setor de petróleo, responsável
por 95% das exportações nacionais, gera tantos empregos.
A carreira artística é
hoje uma das maneiras mais eficientes para ascender socialmente
na Nigéria. Adim Williams, diretor de Nollywood, recentemente
foi recebido com tapete vermelho e carreata em Uganda, outro país
africano. Ele levou 5.000 dólares pela visita. Um ator de
segundo time ganha entre 2.000 e 3.000 dólares por filme
o que significa dez dias de trabalho, o tempo médio
das filmagens nigerianas. O cachê de Genevieve Nnaji, a atriz
mais bem paga da Nigéria, é de 20.000 dólares.
Uma pequena fortuna, comparada com o salário médio
de 350 dólares mensais dos nigerianos. Outras celebridades
de sucesso são Grace Everly, que vendia laranjas nas feiras
de Lagos antes de virar atriz, e Cossy Orjiakor, ex-dançarina
folclórica e atual sex symbol de Nollywood.
Cossy, escrachadamente voluptuosa,
é execrada pelos líderes religiosos do norte da Nigéria,
região de maioria muçulmana. Os filmes de Nollywood
costumam refletir as divisões étnicas e religiosas
do país, onde são faladas 230 línguas. Um órgão
de censura do governo cuida para que o preconceito étnico
não prevaleça nos roteiros, ainda que uma ou outra
piadinha seja inevitável. A censura quer, por exemplo, impor
limites ao gênero mais popular do cinema nacional: as histórias
de vodu. A indústria cinematográfica do país
começou a crescer justamente depois do sucesso de um filme
de bruxaria, em 1992. Vivendo com um Encosto conta a saga
de um homem que sacrifica a mulher em um ritual de magia negra para
enriquecer. O público gostou, carente que estava de histórias
com sabor local a TV nigeriana não investia em conteúdo
próprio. Aos poucos, ganharam popularidade os filmes românticos,
os policiais e os épicos inspirados em lendas locais. Há
também títulos dedicados a públicos específicos,
como a comunidade muçulmana e os evangélicos. "Os
enredos de Nollywood, ao contrário das produções
americanas, são lineares e têm finais previsíveis,
em que o bem sempre vence o mal", disse a VEJA Afolabi Adesanya,
diretor da Corporação Nigeriana de Filmes, órgão
do governo que regula o setor mas não coloca um centavo nas
produções.
Sem a menor pretensão
de fazer obras de arte, os diretores de Nollywood gastam entre 20.000
e 100.000 dólares por filme. Nessas condições,
a qualidade das locações, do som e do desempenho dos
atores fica seriamente prejudicada. A maioria dos títulos
nem sequer é exibida em salas de cinema Lagos só
tem doze dignas do nome. São Paulo, uma cidade com um número
equivalente de habitantes, tem mais de 240 salas. Como não
podem faturar com a bilheteria, as produtoras nigerianas fazem algumas
dezenas de milhares de cópias em DVD ou VHS e as distribuem
para vendedores ambulantes. O preço final é de 3 dólares.
Os produtores nigerianos têm técnicas peculiares para
incentivar as compras: por exemplo, colocar bilhetes de loteria
dentro das embalagens dos DVDs. Mesmo assim, o lucro tem de vir
em um mês. Depois disso, as cópias piratas começam
a superar as originais. Calcula-se que, se não houvesse pirataria,
o faturamento de Nollywood seria duas vezes maior.
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PLANETA NOLLYWOOD
Os números
do cinema nigeriano
Produz 1 200 filmes por ano, o dobro de Hollywood
Fatura 200 milhões de dólares por ano
É o segundo maior empregador da Nigéria
Paga no máximo 20 000 dólares de cachê
a seus astros
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