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Artigo: Gustavo
Ioschpe
A opção pelo
subdesenvolvimento
"Diferentemente do palavrório de
alguns, os
trabalhadores brasileiros não ganham pouco
por ser vítimas de uma elite branca e má, mas
por ser pouco produtivos. São assim porque
a escola falhou com eles"
Lia Lubambo
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| Trabalhadores: o salário é definido pela produtividade
e esta pela ênfase na educação |
A situação educacional brasileira
é trágica. Poucos discordam dessa constatação.
Muito poucos se perguntam por que isso é tão ruinoso
e, ainda, por que é tão mais desastroso agora. A primeira
e mais óbvia resposta seria: porque estamos privando uma
enorme fatia da nossa população dos conhecimentos
mínimos necessários para uma vida engajada, consciente,
livre e produtiva. Mas basta notar que os cruzamentos de nossas
grandes cidades se tornaram abrigos ou espetáculos circenses
dos marginalizados para entender que qualquer apelo à solidariedade
humana está fadado ao fracasso neste país cordial.
Apesar da resistência que educadores e pedagogos têm
à intromissão de economistas, empresários e
afins em seu território, é neles que se encontrará
a revolução educacional de que o país necessita.
Porque esses grupos conseguem deixar de tratar a educação
unicamente como um fim em si mesma para entender que ela tem um
papel vital e urgente a cumprir no desenvolvimento
do Brasil. Essas vozes dizem e dirão o que a sociedade precisa
ouvir: com o nosso sistema educacional atual, estamos condenados
ao atraso eterno. Se a fraternidade não o convence a cuidar
de nossa educação, faça-o por interesse próprio,
portanto.
É impossível a um país
desenvolver-se no século XXI quando sua população
ainda não resolveu problemas do século XIX. A comparação
não é exagerada. Ainda não conseguimos ensinar
nossas crianças a ler e a escrever, coisa que outros países
já fazem há mais de 100 anos. O resultado final é
termos só 26% de nossa população de 15 a 64
anos plenamente alfabetizada. A má qualidade do sistema
e não a falta de vagas faz com que só 20% de
nossos jovens cheguem à educação superior.
Países como Coréia do Sul, Finlândia, Estados
Unidos e Noruega já passaram dos 80% quatro vezes
mais, portanto. Os outros países desenvolvidos têm
taxas próximas de 60%. Chile, Argentina e Uruguai estão
na casa dos 40%. A China assusta ainda mais: foi de 6% em 1998 para
quase 20% agora.
Essa comparação não é
uma competição de vaidades, mas o indicador de uma
capacidade fundamental de uma nação: produção
de cérebros. Cérebro, hoje, é o patrimônio
mais valioso que um país pode ter. Essa é a mudança
fundamental que vem redesenhando o mundo e para a qual o Brasil
ainda não acordou: a riqueza das nações não
está em sua terra, seu clima, seus recursos naturais ou minerais.
Em sua maioria, esses fatores já cumpriram seu papel. Hoje
e daqui para a frente o progresso se dará pelo aumento de
produtividade, pela geração de bens de alto valor
agregado. O aumento de produtividade só vem com melhor instrução,
com treinamento adequado, pelo desenvolvimento de novas tecnologias.
A raiz de todos esses fenômenos é uma só: educação.
Nossas carências nessa área e
seus impactos socioeconômicos se tornarão mais aparentes
e agudos nas próximas décadas, mas já são
visíveis. Dados da Organização Internacional
do Trabalho (OIT) apontam o Brasil em 49º lugar em termos de
produtividade são necessários quatro trabalhadores
brasileiros para produzir o mesmo que um americano. Estar mal posicionado
é esperado para um país subdesenvolvido. O preocupante
é estarmos piorando de um ano para o outro, como mostra a
pesquisa da OIT. Dados do IBGE do ano passado indicam que mesmo
dentro do Brasil estamos retrocedendo: a participação
de indústrias de alta concentração tecnológica
diminuiu sua participação no PIB no período
de 2000 a 2003.
Os negacionistas empedernidos dirão
que o Brasil está mal, mas que sempre foi assim. Que sempre
estivemos distantes, tecnologicamente, dos países desenvolvidos
e que, mesmo assim, conseguimos taxas invejáveis de crescimento
econômico no século passado. Que, eliminados os problemas
de juros, câmbio e infra-estrutura, o gigante adormecido acordará
e tornar-se-á a potência com que todos sonhamos.
Infelizmente, não é verdade.
O descompasso de qualificação entre o Brasil e os
países de renda média e alta aumentou enormemente
nas últimas décadas. Porque esses países perceberam
a importância do capital humano e se esforçaram para
massificar o conhecimento em seu nível mais alto, o universitário.
De 1980 a 2000, por exemplo, a Malásia aumentou seu número
de matrícula universitária em 539%, a Coréia
em 429%, Portugal em 368%, o Chile em 202% e a média dos
países da OCDE em 146%. O Brasil? Só 45%. É
muito em termos absolutos, mas muito pouco ante o que acontece no
resto do mundo. Vamos ficando para trás. E, em um período
de enormes e rápidos avanços, cada etapa perdida torna
a tarefa de equiparação exponencialmente mais difícil.
Se persistirem as tendências recentes, em breve não
estaremos batalhando pelo acesso ao Primeiro Mundo, mas, sim, para
nos mantermos no estágio de subdesenvolvimento atual. Nas
décadas de 70 e 80, fomos ultrapassados pelos Tigres Asiáticos.
Nos anos 90 e atualmente, assistimos inertes ao forte crescimento
de China, Índia, Chile e Europa Oriental. Onde estaremos
daqui a vinte anos? Competindo com a África? Gabando-nos
de que nosso maravilhoso solo é mais rico que o da Antártica?
Essa perspectiva sombria não diz respeito
apenas à posição internacional do Brasil. Os
efeitos são igualmente sentidos em nosso bem-estar interno,
no dia-a-dia de todos. Estudos que analisam os fatores determinantes
da desigualdade de renda brasileira, essa nossa chaga vergonhosa,
são unânimes ao apontar a causa, que é disparada
a mais importante: desigualdade educacional. Ela sozinha explica
de 40% a 50% de nossa desigualdade de renda, enquanto outros fatores
comumente apontados como vilões diferenças
de gênero, raça, região geográfica e
ocupação não aparecem com mais de 10%
cada um.
Essas desigualdades de renda e educação,
por sua vez, alimentam aquele que talvez seja hoje o maior pesadelo
dos habitantes das grandes cidades: a violência. Estudos quantitativos
nessa área começam a ser feitos no Brasil. Nos EUA,
onde a literatura é mais robusta, os resultados são
claros: o aumento de escolaridade especialmente completar
a high school, o ensino médio tem impacto significativo
sobre a redução da criminalidade. Uma pesquisa estimou
que um aumento de 1% da taxa nacional de conclusão do ensino
médio causaria 400 homicídios e 8.000 agressões
a menos por ano, gerando uma economia de 1,4 bilhão de dólares.
Um ano adicional de escolaridade traria uma diminuição
de 30% de homicídios e agressões, 20% de roubo de
veículos e 6% de furto de domicílios. Os autores do
estudo concluíram que se obteria maior redução
da criminalidade investindo na expansão da escola secundária
do que na da força policial.
O filme Notícias de uma Guerra Particular
traduz a frieza desses números para a realidade brasileira
com uma pungência inescapável. Ao perguntar a jovens
membros do tráfico de drogas o porquê de sua opção
pelo crime, o diretor João Moreira Salles ouve alguns dizer
não querer repetir a trajetória de seus pais e avós,
que trabalharam de sol a sol por décadas por salários
miseráveis, terminando a vida na mesma precariedade em que
vieram ao mundo. O fato não justifica nem desculpa o crime,
mas representa uma realidade. Só que, diferentemente do palavrório
de alguns, os trabalhadores brasileiros não ganham pouco
por ser vítimas de uma elite branca e má, mas por
ser pouco produtivos. São assim porque a escola falhou com
eles. Enquanto ela continuar como está, tendemos a seguir
sendo um país irrelevante para o mundo e desalentador para
os brasileiros.
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