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Entrevista:
William Ury O
inferno somos nós O antropólogo
americano, especialista em técnicas de negociação, explica
como fazer para resolver conflitos de forma pacífica 
Diogo Schelp
Roberto Setton
 | "A
globalização é como uma reunião familiar: no começo,
há brigas e disputas. Leva um tempo para as coisas se ajustarem" |
| O antropólogo
americano William Ury, de 52 anos, passou as últimas duas décadas
mediando conflitos na Indonésia, Venezuela, África do Sul, Iugoslávia
e Oriente Médio. No anos 80, ajudou o governo americano a criar uma fórmula
para controlar o risco de uma crise nuclear acidental com os soviéticos.
Todas as guerras das últimas décadas não foram suficientes
para tirar-lhe o otimismo. "A humanidade está caminhando para uma era em
que os conflitos serão resolvidos na base da conversa", diz Ury, especialista
em negociação da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Ele é
autor de quase duas dezenas de livros sobre técnicas de negociação,
úteis tanto na diplomacia quanto na vida privada. Como Chegar ao Sim
e Supere o Não já venderam mais de 5 milhões de cópias.
Ury vive no Colorado, nos Estados Unidos, com sua esposa paulista e seus três
filhos. Ele falou a VEJA em São Paulo, onde participa da Coexistence,
exposição sobre a convivência entre os povos.
Veja O filósofo francês Jean-Paul
Sartre escreveu que "o inferno são os outros". O senhor concorda? Ury
Eu diria que o outro somos nós. Quando dizemos que o inferno
são os outros, na verdade estamos olhando para o nosso próprio inferno
interior. A humanidade é uma só. Somos todos quase idênticos
geneticamente. A dificuldade em lidar com os outros existe apenas porque não
somos bem resolvidos com nós mesmos. Essa luta interna reflete-se tanto
na vida particular quanto em um conflito entre povos, como o do Oriente Médio.
Em trinta anos trabalhando com negociação, percebi que devemos desenvolver
a habilidade de nos colocar no lugar do outro e entender sua visão do mundo.
Para isso, é preciso saber ouvir. Há quem pense que negociação
é falar. Na verdade, os melhores negociadores, seja no mundo corporativo,
seja na diplomacia, são aqueles que sabem escutar. O maior obstáculo
para isso é o fato de estarmos sempre tão focados em nós
mesmos. Veja Faz
parte da natureza do ser humano matar uns aos outros para resolver as disputas?
Ury Dediquei muitos anos buscando a resposta para essa questão.
Para isso, passei um tempo com os bosquímanos, povo do sul da África
que vive da mesma maneira que nossos ancestrais viveram em 99% da existência
humana. Depois, participei da mediação de conflitos na Chechênia,
na Iugoslávia e na África do Sul. A minha conclusão é
que a guerra faz parte da natureza humana, da mesma maneira que a paz. A idéia,
no entanto, de que os confrontos violentos entre grupos humanos acontecem desde
sempre é falsa. A verdade antropológica é que as guerras
têm suas raízes nos primórdios da civilização,
quando os seres humanos estavam deixando de ser nômades e começaram
a cultivar e a criar animais. Isso levou à concentração de
população e à competição por terra e por comida.
Em seguida, vieram as tensões populacionais e as guerras. De lá
para cá, passaram-se 10.000 anos, o equivalente a apenas 1% de nossa existência.
A guerra como um fenômeno social organizado, portanto, é muito recente.
Veja Em um
livro publicado antes dos atentados terroristas de Nova York, o senhor escreveu
que, em um mundo globalizado, a negociação iria prevalecer sobre
a violência. Sua opinião mudou depois dos ataques do 11 de Setembro?
Ury Não. Estamos vivendo tempos muito turbulentos, de
transição. É um período marcado por uma transformação
na estrutura da sociedade. Antes, prevaleciam as sociedades verticais, em forma
de pirâmide. Assim eram as monarquias, o feudalismo e as ditaduras. Agora,
a democracia está se espalhando ao redor do mundo. Essa democratização
acontece no trabalho, na estrutura familiar e na política. A pirâmide
está sendo achatada, o que significa que todos querem participar das decisões
que os afetam. No curto prazo, isso gera mais conflitos.
Veja De que maneira isso levará a
um mundo baseado na convivência pacífica? Ury
Estamos vivendo uma "revolução da negociação". Conforme
o poder de decisão é transferido do topo para a base da sociedade,
a capacidade de negociação se torna mais necessária. Essa
é a primeira vez na evolução humana em que todas as tribos
e os mais de 6 000 grupos lingüísticos do planeta estão em
contato intenso uns com os outros. Essa é nossa primeira grande reunião
de família. Como em qualquer encontro familiar, tudo começa com
picuinhas, disputas e situações de incompatibilidade. Leva um tempo
para as coisas se ajustarem. Esse é o desafio da nossa geração.
Veja O senhor
costuma dizer que, para levar povos ou pessoas a coexistir pacificamente, é
necessário buscar sempre a ajuda de uma "terceira parte". Por quê?
Ury Em um conflito como o que envolve israelenses e palestinos,
por exemplo, a terceira parte pode ser tanto a comunidade internacional como grupos
poderosos que integram esses povos. O conceito da terceira parte é a mais
antiga das heranças humanas em resolução de conflitos. Consiste
basicamente em reunir toda a tribo e fazer com que as pessoas se ouçam
e se entendam. Essa é uma das funções da ONU. Há quem
diga que o conflito no Oriente Médio não tem solução.
Na verdade, não há paz no Oriente Médio porque ninguém
tentou para valer. A terceira parte que poderia mediar o conflito no caso,
os Estados Unidos deixou de prestar atenção ao problema nos
últimos seis anos. Veja
Como a terceira parte deve agir para ajudar a solucionar um conflito?
Ury A terceira parte desempenha muitos papéis. O ambiente
familiar é um bom exemplo de como isso funciona. Pais com filhos briguentos
desempenham a função do provedor, dando atenção e
amor às crianças, e do mediador, estimulando o diálogo. Agem
como terapeutas, tentando conseguir que as pessoas na família se perdoem
e haja reconciliação. Assumem o papel do pacificador, separando
as brigas, e o do árbitro, apontando a solução correta. Os
pais também interpretam, por vezes, o papel do professor, ensinando às
crianças a melhor maneira de resolver suas disputas. No Oriente Médio,
a comunidade internacional está falhando porque não há ninguém
desempenhando todas essas funções de maneira apropriada.
Veja Que princípios
básicos devem nortear uma negociação? Ury
O primeiro é colocar-se no lugar do outro, procurando entender suas reivindicações.
O segundo princípio é o de tentar enxergar quais são os interesses
não declarados do outro. Um exemplo da diplomacia: a primeira conferência
de paz de Camp David, em 1978, cujos bastidores eu acompanhei. Na negociação,
o Egito dizia querer de volta toda a Península do Sinai, que fora ocupada
por Israel. Israel disse que queria um terço do Sinai. Era impossível
atender às reivindicações nesses termos. A questão
era saber as razões de cada lado. Para os egípcios, era uma questão
de soberania. A terra estava lá desde os tempos dos faraós e eles
a queriam de volta. Para os israelenses, a questão era de segurança.
Se os egípcios colocassem os tanques no território, poderiam atacar
Israel facilmente. A partir desse momento, foi possível satisfazer tanto
egípcios quanto israelenses: decidiu-se por uma Península do Sinai
egípcia, mas desmilitarizada. Veja
O senhor pode dar um exemplo de como aplicar esses princípios
no dia-a-dia? Ury Imagine os membros de uma família
em dúvida sobre o que fazer durante uma tarde de domingo. Metade da família
quer ir ao cinema, a outra metade quer só ficar em casa e relaxar. É
preciso discutir quais são os interesses por trás dessas vontades:
um quer ir ao cinema porque é divertido enquanto os outros querem apenas
o conforto de ficar em casa. A solução pode ser simplesmente alugar
um filme e vê-lo em casa. Veja
Como garantir a coexistência com um chefe difícil? Ury
Uma boa opção é chamar o chefe para uma conversa
fora do escritório ou para tomar um café. O empregado deve conduzir
a conversa de maneira a evitar falar das atitudes do chefe, para não colocá-lo
na defensiva. O ideal é concentrar o assunto no desempenho do subordinado,
ou seja, de quem está querendo resolver o conflito. Dessa forma, o chefe
tem a chance de falar sem parecer que está sendo acusado de algo.
Veja Negociações
entre chefes e subordinados são bem-vindas no ambiente de trabalho?
Ury Sim. Há trinta anos, as empresas costumavam ser instituições
muito verticais. Hoje, a hierarquia rígida está dando lugar a organizações
mais horizontais. Por isso todos os executivos e funcionários querem aprender
a negociar. Antes eles não precisavam disso, bastava dar ou seguir as ordens.
Um executivo passa metade do seu tempo negociando. Ele negocia com clientes, com
fornecedores, com seus funcionários, com o conselho da empresa e com os
colegas. Negociação é uma forma democrática de tomada
de decisão. Se uma informação tem de percorrer todo o caminho
até o topo da hierarquia de uma empresa para, só depois, voltar
em forma de ordem até a base, o resultado será um processo de decisão
lento e inflexível. Só com uma hierarquia plana é possível
trocar informações rapidamente. Veja
Algumas situações do cotidiano deixam as pessoas especialmente
violentas, como brigas de trânsito. Como aplicar o princípio da coexistência
nesses momentos? Ury O ser humano tem tendência a reagir
com fúria, o que costuma despertar muitos arrependimentos no futuro. A
solução para isso é o que eu chamo, metaforicamente, de "sair
para a sacada". Significa sair por um segundo da situação e tentar
lembrar o que, de fato, é relevante naquele momento. Um colega me contou
certa vez que alguém o insultou no trânsito. Ele ficou furioso, alcançou
o outro carro e abriu a janela para xingar de volta. Mas só o que conseguiu
fazer foi pedir desculpa. O outro motorista ficou tão surpreso que acabou
pedindo desculpa também. O que mudou o comportamento do meu amigo? Simplesmente,
por um instante ele se viu fora da situação e percebeu quanto ela
era ridícula. O conflito no Oriente Médio não existiria se
as partes envolvidas se concentrassem no que realmente lhes interessa. Os dois
lados costumam justificar suas ações dizendo que estão reagindo
a uma agressão do outro. Por isso o cessar-fogo é um mecanismo tão
vital ele tem o efeito positivo de esfriar as emoções e fazer
com que as pessoas tomem decisões mais sábias.
Veja Qual a melhor estratégia para
negociar com alguém muito mais poderoso? Ury Primeiro,
é preciso definir exatamente o que você quer. Segundo, é fundamental
saber quais são suas alternativas caso a negociação não
dê em nada. Se a negociação for com o chefe, por exemplo,
é preciso ter opções como conseguir uma transferência
para outro departamento ou ter outra possibilidade de emprego. Mahatma Gandhi
e Martin Luther King achavam que não era suficiente negociar, era preciso
também ter uma alternativa viável de ação manifestações
pacíficas, por exemplo. Dessa forma, ganha-se mais poder na mesa de negociação.
Veja Há
culturas mais abertas a resolver conflitos através de negociações
do que outras? Ury Sociedades democráticas costumam
ter uma tradição maior de negociação. Conforme os
países fazem a transição da autocracia para a democracia,
a primeira coisa que precisam aprender é como negociar. Certas culturas,
como as do mundo muçulmano, têm o hábito arraigado de negociar
no cotidiano, mas têm dificuldade em discutir princípios que mexem
com sua identidade, como a religião. Veja
Alguns críticos dizem que o governo do presidente americano
George W. Bush não é bom em negociação. O senhor concorda? Ury
Como estudioso da área, posso dizer que esse realmente não
é o forte dessa administração. Quando Bush assumiu o poder,
parou de dar atenção à solução do conflito
Israel-Palestina, em um momento em que os dois lados do conflito estavam muito
propensos a chegar a um acordo. Os Estados Unidos perderam uma grande oportunidade
de avançar nas negociações como mediadores.
Veja Mas é realista tentar convencer
um povo a coexistir com um inimigo histórico? Ury
Ninguém imaginaria, na Europa de 1940, que em sessenta anos teríamos
a União Européia, pacífica e próspera, após
1 000 anos de conflitos armados. Para mim, essa é uma grande lição
de coexistência. Primeiro, é preciso se convencer de que não
é possível vencer. Segundo, deve-se inventar uma fórmula
de convivência em que todas as partes possam se beneficiar. Foi o que os
europeus fizeram. O mundo todo tende a seguir esse caminho, que eu chamo de pós-nacionalismo.
O Oriente Médio está um pouco atrasado nesse processo. Estou trabalhando
em um projeto na região que consiste em criar uma trilha que refaz o percurso
de Abraão. A idéia é fazer algo como o Caminho de Santiago
de Compostela, na Espanha. Abraão é o pai espiritual de judeus,
cristãos e muçulmanos. A idéia é usar sua figura para
integrar os povos da região. Talvez, no futuro, seja criada até
uma comunidade de Abraão, em que, como na União Européia,
as fronteiras não interessem tanto e o foco esteja na interação
econômica. |