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André
Petry
A "ética do silêncio"
"Com o silêncio
apático, estamos, como
nação, nos privando daquilo
que Paul Valéry
chamou de as duas grandes invenções
da
humanidade o passado e o
futuro"
É impressionante. O presidente
Lula diz que não viu nada nem sabia de nada e o tucano
Geraldo Alckmin também. Em seu programa no horário
eleitoral, Alckmin não mostra nada, não informa nada,
não fala nada sobre o maior escândalo de corrupção
que envolveu o governo do homem cujo cargo ele espera ocupar, com
a descoberta dos mensaleiros. Também não mostra, não
informa nem fala nada sobre o maior escândalo de corrupção
que envolveu o Congresso, com o caso dos sanguessugas. Por quê?
Por que tanto silêncio? Por que tanta apatia? Seu programa
eleitoral mais recente exibido na televisão até tocou
no assunto. Lá pelas tantas, um locutor diz: "Sanguessuga,
mensalão, com Geraldo não tem disso, não".
E ponto. E nada mais, nenhum diagnóstico, nenhuma reflexão.
Nada.
Quer dizer que tudo o que infelicita,
decepciona e enoja o país, tudo aquilo que deveria ser denunciado,
cobrado e debatido com insistência e profundidade na campanha
presidencial, agora serve apenas para embalar jingle? Serve apenas
para fazer um chiste, um gracejo, uma rima pobre, uma reles tiradinha
de marketing?
Dizia-se que o terremoto provocado
pelo mensalão e suas adjacências escandalosas tinham
um aspecto pedagógico e saudável, pois ajudariam o
Brasil a melhorar. O país seria confrontado com suas misérias
e aprenderia com seus erros. Que nada. A terra está revolta,
parte de suas entranhas está exposta à luz do sol,
mas a campanha eleitoral se desdobra silenciosa e indiferente, fazendo
uma renúncia escancarada ao seu efeito depurador e
assim prossegue quente como se transcorresse nos fiordes noruegueses.
Na esteira dessa modorra, ainda aparece um rebanho de artistas oficiais
dizendo que a política é coisa suja mesmo, que a ética
é coisa para ingênuos e que vale tudo se o objetivo
é o poder. Se para eles a vida é assim, ela não
o é para a maioria dos brasileiros.
Para Lula, o PT e os mensaleiros,
essa indiferença chocante, esse mutismo assombroso é
uma grande notícia. A turma fica prosa e nenhuma cobrança
sequer se ouve. Não são obrigados a se explicar e
ainda ganham fôlego para voltar ao discurso de que tudo não
passou de uma conspiração das elites.
Para o resto todo tucanos,
verdes, pefelistas, socialistas... , o silêncio fica
parecendo conivência. Autoriza a platéia a supor que
não reagem, não denunciam e não cobram porque,
de fato, no escurinho do cinema, fazem a mesma coisa. Serve para
jogar água no moinho dos petistas mensaleiros quando dizem
que todos são iguais. Que todos são igualmente bandidos.
Com esse silêncio apático
sobre o tanto que se passou, a bandalheira fica invisível.
Com esse marasmo nunca rompido por um laivo sequer de legítima
indignação, fica parecendo que a bandalheira é
parte integrante de nossa vida. Com essa indiferença em relação
ao que podemos corrigir e construir, com essa anestesia sobre as
ofensas e o desrespeito, com tudo isso estamos abertamente, como
nação, nos privando daquilo que o escritor e poeta
Paul Valéry chamou de as duas maiores invenções
da humanidade o passado e o futuro. Para que mesmo serviriam
as eleições de outubro?
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