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Coisona do pai

Que pagode o quê. No terreno
do samba,
não tem para ninguém.
Só dá Jorge Aragão

Sérgio Martins

 
Oscar Cabral
Jorge Aragão: versão da Ave Maria de Gounod para cuíca e cavaquinho

Jorge Aragão é o sambista mais bem-sucedido do momento. Cantor e compositor de 51 anos, ele conseguiu, na semana passada, um feito inédito na carreira de muito pagodeiro famoso: colocou dois CDs na lista dos mais vendidos. Lançado há dez meses por uma gravadora pequena, a Indie Records, seu álbum ao vivo bateu a marca de 600.000 cópias, superada apenas pelos últimos álbuns do neo-româ Leonardo e da diva dos "modernos", Marisa Monte. E não é só: uma coletânea de suas canções antigas, entregue às lojas há dois meses pela gravadora Som Livre, já vendeu 100.000 cópias sem contar com nenhum tipo de promoção especial. Embora esteja longe de ser um Cartola ou um Nelson Cavaquinho, Aragão é um músico de boa estirpe. Tem um "clássico" no repertório, Coisinha do Pai, e é ligado ao chamado "samba de raiz". Seu sucesso é uma boa notícia por ser mais um indicativo de que o pagode mauricinho está perdendo a hegemonia de que desfrutava no mercado fonográfico.

A peça-chave do disco ao vivo de Aragão não podia ser mais inusitada: uma versão para cuíca e cavaquinho da Ave Maria, peça religiosa composta pelo francês Charles Gounod no século XIX. A música faz parte de seus shows há mais de doze anos. Mas ele achava que incluí-la em discos poderia parecer apelação. Foi preciso muita insistência de Líber Gadelha, diretor-geral da Indie Records, para que ele a gravasse. "Até o bêbado mais insuportável presta atenção quando toca essa música", diz o executivo, que agora está dando a Aragão tratamento de grande estrela. Recentemente, o músico foi convidado para integrar o cast de uma multinacional. A oferta era de 200.000 reais, mas a Indie dobrou o lance e garantiu o passe do sambista por mais três discos. Além desse dinheiro extra, Aragão também conseguiu melhorar em muito seu cachê em shows. Antes do sucesso, ele cobrava mirrados 3.000 reais por aparição. Hoje, não dedilha as cordas de seu cavaquinho por menos de 10.000 reais e chega a fazer oito espetáculos por semana. "Ainda estou espantado com tudo isso", diz ele. "Afinal de contas, até o dono da padaria que freqüento há dez anos está me olhando de um jeito diferente."

 

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