CUT estatizada
Pela
primeira vez o líder
da
central não é metalúrgico
Antonio Milena
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João
Felício, o
novo presidente:
recordista
de
greves
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A eleição
do novo presidente da Central Única dos Trabalhadores, ocorrida
no último dia 19, é um marco na história do
sindicalismo no Brasil. Pela primeira vez em seus dezessete anos,
a CUT elegeu um presidente não-metalúrgico. O escolhido
foi o professor de artes plásticas João Felício,
ex-presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do
Estado de São Paulo. Outra razão que torna a eleição
histórica é que aquela CUT originada no ABC paulista,
que as pessoas se acostumaram a ver promovendo greves, acabou. Nasceu
outra entidade, com perfil diferenciado. Da CUT do ABC ficaram uma
lembrança do tempo em que os sindicatos afrontavam os generais
na luta por reposição salarial e um nome, Luís
Inácio Lula da Silva, três vezes segundo colocado nas
eleições presidenciais. Sobre a nova CUT, ninguém
sabe que herança vai deixar, apenas quais são seus
desafios.
João
Felício assume a entidade num momento ruim e em condições
desfavoráveis ao sindicalismo. No passado, as empresas procuravam
os metalúrgicos para negociar, como forma de evitar a greve
e de manter as fábricas funcionando. Atualmente, se for preciso,
mudam as fábricas de cidade ou de Estado, mas não
aceitam as presss. Nos últimos dez anos, as montadoras
demitiram pessoal e ainda assim conseguiram dobrar a produção
de automóveis. Essa falta de poder de barganha dos sindicatos
fez diminuir o grau de interesse dos trabalhadores por suas entidades.
Em alguns lugares, as comissões de operários fazem
coisas que seriam impensáveis no passado. Elas passaram a
fiscalizar as linhas de produção em busca dos improdutivos
ou faltosos. Os números do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística mostram que a proporção de brasileiros
filiados a sindicatos caiu quase pela metade.
O
único lugar onde a CUT mantém sua força razoavelmente
inalterada é naquele setor da economia que não sofreu
grandes modificações com o processo de globalização:
o funcionalismo público. O novo presidente é oriundo
justamente de um ramo do funcionalismo, os professores da rede oficial.
É compreensível que, num momento de transformações,
a ala estatal da CUT seja vencedora, não a ala privada da
entidade, digamos assim. João Felício tem em seu currículo
a greve mais longa já promovida por um grande sindicato no
país. Em 1989, os professores de São Paulo cruzaram
os braços por 82 dias. Uma das principais batalhas que ele
tem pela frente não é contra os patrões, mas
contra os próprios sindicatos. Há 18.000
entidades de empregados no Brasil, muitas de mentirinha, outras
que só existem para acessar os benefícios governamentais.
"Mexer na estrutura sindical e promover grandes fusões é
nosso grande desafio", afirma.
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