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Edição 2071

30 de julho de 2008
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Cinema
Arquivo morto

O longa Eu Quero Acreditar enterra de forma melancólica as
boas lembranças que a série Arquivo X deixara a seu público


Isabela Boscov

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Trailer do filme

Hoje em dia, quando a febre em torno de uma série de televisão dura com sorte uma ou duas temporadas, parece desproporcional o tipo de devoção que Arquivo X inspirou. Quinze anos atrás, quando o programa estreou, ele foi um marco – uma solitária ficção científica de hora cheia numa planície de sitcoms de meia hora. Ao contrário dessas, também, Arquivo X exigia do espectador envolvimento pessoal com sua mitologia em constante evolução e com as transformações por que passavam os agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson). Ainda que os temas de que tratava – o inexplicável, o fantástico, o extraterreno – fossem quase que diretamente herdados do Além da Imaginação de Rod Serling, exibido nas décadas de 50 e 60, a maneira como a série os trançava à trajetória dos protagonistas era inovadora. Não mais, claro. De C.S.I. a Heroes e Lost, onde há algum mistério há também alguma dívida ao trabalho pioneiro de Arquivo X. Problema adicional: a série morreu uma morte lenta e cheia de agonia, à medida que o elenco ia se exaurindo (Duchovny nem participou do nono e último ano) e o criador Chris Carter se embananava. Só por isso – e pelo fato de a série ter já rendido um longa, em 1998 – seria difícil achar sentido para uma ressurreição como a que se tenta em Arquivo X – Eu Quero Acreditar (The X-Files: I Want to Believe, Estados Unidos/Canadá, 2008), desde sexta-feira em cartaz no país. Em face do que se vê, então, a empreitada resulta positivamente patética.

Concebido como o que se chama de stand-alone – um filme que prescinde de familiaridade com a matéria-prima original –, Eu Quero Acreditar martela o último prego no caixão de Arquivo X: não resolve nada do que ficou inexplicado e ainda apaga as boas lembranças com sua trama copiada do cinema-tortura de O Albergue e Jogos Mortais. Fox e Dana, já desligados do FBI e assombrados por fantasmas pessoais variados, voltam à ativa para contribuir com seus conhecimentos arcanos num caso de desaparecimento. A agente encarregada do caso está se guiando pelas pistas de um vidente, que calha de ser também padre – e, como está na moda, um padre pedófilo (o escocês Billy Connolly, único sinal de luz nessa treva). O começo, encenado em paisagens gélidas, é auspicioso; o que se segue é aborrecido, tolo e demagógico. Num atropelo de caracterização, os vilões são russos cruéis que não apenas fumam muito como também se dedicam a experimentos médicos bizarros (dois deles, por razões que não se sabe se destinadas a redimi-los ou o quê, formam um apaixonado casal gay). Nunca um episódio da série desceu tão baixo. Eis o único enigma que resta de Arquivo X: como Chris Carter foi capaz de perder de tal forma o controle da situação.

Trailer do filme

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