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Cinema O longa Eu Quero Acreditar
enterra de forma melancólica as
Hoje em dia, quando a febre em torno de uma série de televisão dura com sorte uma ou duas temporadas, parece desproporcional o tipo de devoção que Arquivo X inspirou. Quinze anos atrás, quando o programa estreou, ele foi um marco uma solitária ficção científica de hora cheia numa planície de sitcoms de meia hora. Ao contrário dessas, também, Arquivo X exigia do espectador envolvimento pessoal com sua mitologia em constante evolução e com as transformações por que passavam os agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson). Ainda que os temas de que tratava o inexplicável, o fantástico, o extraterreno fossem quase que diretamente herdados do Além da Imaginação de Rod Serling, exibido nas décadas de 50 e 60, a maneira como a série os trançava à trajetória dos protagonistas era inovadora. Não mais, claro. De C.S.I. a Heroes e Lost, onde há algum mistério há também alguma dívida ao trabalho pioneiro de Arquivo X. Problema adicional: a série morreu uma morte lenta e cheia de agonia, à medida que o elenco ia se exaurindo (Duchovny nem participou do nono e último ano) e o criador Chris Carter se embananava. Só por isso e pelo fato de a série ter já rendido um longa, em 1998 seria difícil achar sentido para uma ressurreição como a que se tenta em Arquivo X Eu Quero Acreditar (The X-Files: I Want to Believe, Estados Unidos/Canadá, 2008), desde sexta-feira em cartaz no país. Em face do que se vê, então, a empreitada resulta positivamente patética. Concebido como o que se chama de stand-alone um filme que prescinde de familiaridade com a matéria-prima original , Eu Quero Acreditar martela o último prego no caixão de Arquivo X: não resolve nada do que ficou inexplicado e ainda apaga as boas lembranças com sua trama copiada do cinema-tortura de O Albergue e Jogos Mortais. Fox e Dana, já desligados do FBI e assombrados por fantasmas pessoais variados, voltam à ativa para contribuir com seus conhecimentos arcanos num caso de desaparecimento. A agente encarregada do caso está se guiando pelas pistas de um vidente, que calha de ser também padre e, como está na moda, um padre pedófilo (o escocês Billy Connolly, único sinal de luz nessa treva). O começo, encenado em paisagens gélidas, é auspicioso; o que se segue é aborrecido, tolo e demagógico. Num atropelo de caracterização, os vilões são russos cruéis que não apenas fumam muito como também se dedicam a experimentos médicos bizarros (dois deles, por razões que não se sabe se destinadas a redimi-los ou o quê, formam um apaixonado casal gay). Nunca um episódio da série desceu tão baixo. Eis o único enigma que resta de Arquivo X: como Chris Carter foi capaz de perder de tal forma o controle da situação.
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