BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade
REVISTAS
VEJA
Edição 2071

30 de julho de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Claudio de Moura Castro
Millôr
Cartas
Blog
PANORAMA
A semana
Holofote
Contexto
Datas
Radar
Veja essa
 

Especial: Demografia
Poucos e bons

Com a taxa de fecundidade em 1,8 filho por mulher,
a população brasileira cresce mais devagar. Isso
melhora a renda e o padrão de vida no país


Paula Neiva e Roberta de Abreu Lima

Roberto Setton
OS SEM-IRMÃOS
As crianças da foto acima freqüentam a mesma creche, num bairro de classe média de São Paulo. Todas são filhas únicas. Asantewaa Santos, Narayana Dourado, Luis Alberto Araújo e Gustavo Silva fazem parte de uma nova geração de brasileiros que nascem em famílias bem menores que as de seus pais e avós. "Um segundo filho implicaria mais gastos e atenção", diz a estudante Cleude de Jesus (ao fundo, à esq.), mãe de Asantewaa, de 1 ano e 8 meses. "Sinto por minha filha não ter a cumplicidade de um irmão, mas acredito que ela construirá esse tipo de relação com os amigos"


VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
Quadro: A queda da taxa de fecundidade brasileira
O Brasil em 2050
Nesta edição
Desse jeito, quebra
Aos 60 com pique de 50
Tempo e dinheiro para comprar
A natureza agradece

Durante muito tempo os brasileiros conviveram com uma ameaça nascida nos boletins dos censos demográficos. O rápido crescimento da população do país, que aumentou dez vezes entre o início e o fim do século XX, apontava para um futuro em que faltariam alimentos, moradia e infra-estrutura para tanta gente. A bomba populacional foi um risco real para o Brasil. Foi ela que sustentou uma infinidade de apostas sombrias sobre o país. Sem que se prestasse muita atenção, porém, a bomba foi perdendo força à medida que um número cada vez maior de mulheres escolheu ter menos filhos. Essa tendência começou nos anos 70. Agora, quase quarenta anos depois, a bomba populacional acaba de ser oficialmente desativada. É uma grande notícia para os brasileiros. Uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde mostra que a taxa de fecundidade do país, ou seja, a quantidade de filhos que cada brasileira gera, em média, chegou a 1,8 – contra 6,3 nos anos 60. A taxa de fecundidade é o fator que mais influencia a taxa de crescimento populacional de um país, juntamente com a taxa de mortalidade e a migração. Quando a taxa de fecundidade de um país cai abaixo do patamar de 2,1, a população cresce em ritmo cada vez mais lento e, depois de duas ou três décadas, passa a diminuir de tamanho. É o que vai ocorrer com o Brasil. Todos os países desenvolvidos, em algum ponto de sua trajetória, tiveram quedas expressivas em seus índices de natalidade. Na Europa Ocidental, nos Estados Unidos e nos países ricos da Ásia, as taxas de fecundidade são hoje iguais ou menores do que 2,1. A taxa de fertilidade brasileira é agora igual à da China, que há tempos limita o número de filhos a um por família. A quantidade de crianças que as mulheres dão à luz tem impacto direto na economia e na sociedade de uma nação. São muitas as razões que levam os casais de países ricos a ser mais propensos a formar famílias pequenas. A adesão das mulheres à competitividade no trabalho ou na vida acadêmica é certamente uma delas. O certo é que, hoje, só as nações muito pobres, como as da África Subsaariana e o Afeganistão, com renda per capita miserável, apresentam altas taxas de fecundidade e de crescimento populacional.


Oscar Cabral
ESCOLA PARTICULAR E FÉRIAS NA BAHIA
Moradora da favela do Vidigal, a cabeleireira carioca Rosângela Sousa Freire, 40 anos, nasceu em uma família grande. Sua avó teve 21 filhos e sua mãe, cinco. "Ao contrário do que ocorreu com elas, fui instruída a prevenir uma gravidez indesejada desde cedo", conta. Ela e o marido, o vendedor Roberto Freire, de 45 anos, começaram a namorar quando Rosângela tinha apenas 14 anos. O único filho do casal, Douglas, nasceu há dez. "Resolvemos ter apenas um, pois não poderíamos pagar escola ou viagem de férias para mais de um filho", diz Rosângela

As conseqüências econômicas, sociais, culturais e políticas dessa mudança no tamanho da família brasileira só agora começam a ser medidas em toda a sua extensão. Com a taxa de fecundidade na casa do 1,8 filho por mulher, abre-se para o Brasil o que os especialistas chamam de janela de oportunidade demográfica. Nos próximos trinta anos, com a queda gradual no número de nascimentos, o país terá uma proporção maior de pessoas em idade produtiva – entre 15 e 64 anos. A porcentagem de crianças e idosos, que demandam mais investimento do estado e, em tese, não produzem riqueza, será inferior à existente hoje. Com menor necessidade de gastos com escolas e hospitais, entre muitos outros itens relacionados à promoção do bem-estar de crianças e idosos, torna-se mais fácil para o governo fazer investimentos que produzam riqueza e acumular poupança. O mesmo vale para os cidadãos, que podem gastar menos com a educação das crianças e com o sustento e a saúde dos mais velhos. O resultado dessa equação é o aumento da renda per capita, conta que resulta da divisão de toda a riqueza produzida por um país pelo seu número de habitantes. Quando as riquezas de um país se multiplicam e a população se mantém numericamente estável, a economia adquire vitalidade, criam-se mais empregos e todos ficam mais ricos. "O Brasil está vivendo uma fase em que a situação demográfica historicamente é a mais favorável", diz o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.


Mirian Fichtner
NADA DE INFARTO NA FAMÍLIA
Os gaúchos Acelino e Cândida Da Campo, casados há 35 anos, cresceram em família grande. Acelino teve sete irmãos e Cândida, quatro. Apesar disso, resolveram não reproduzir o modelo familiar de seus pais. "Optamos por ter apenas dois filhos, para que pudéssemos proporcionar a eles a melhor formação possível", diz Acelino, dono de uma fábrica de carimbos. Viviane, a primogênita, que está grávida, pretende ter dois filhos com seu marido, Fabiano. Já sua irmã, Gisele, casada com Juvani, quer parar no primeiro: "Se tiver mais de um, meu marido infarta"

A janela de oportunidade demográfica brasileira, segundo especialistas, vai se fechar num prazo de vinte a trinta anos. Nesse período, levas de cidadãos que formam a força de trabalho passarão para o contingente de idosos e não serão substituídos, em virtude da baixa natalidade no país. O aumento da proporção de idosos na pirâmide populacional – somada à sua maior longevidade – vai pesar nas contas públicas, principalmente na previdência social, e também no bolso dos cidadãos em idade produtiva (veja reportagem). Esse processo ocorre atualmente em alguns países da Europa, nos quais uma pequena elevação na taxa de fecundidade seria bem-vinda. Na Itália e na Suécia, 25% da população tem mais de 60 anos – no Brasil, essa cifra é de 10%. Nesses países, assim como na Alemanha e na Espanha, o governo tem políticas de incentivo à natalidade que incluem prêmios em dinheiro às mulheres que engravidam. Recentemente, o papa Bento XVI lamentou a queda no número de nascimentos no continente: "A Europa está infectada por uma estranha falta de apetite pelo futuro. As crianças são percebidas como uma ameaça ao presente".

A substituição da força de trabalho é também feita na Europa, em parte, pela imigração. No caso do Brasil, há tempo suficiente para aproveitar a janela de oportunidade demográfica e preparar o país para o sustento da massa de idosos que surgirá em três décadas. "A diminuição no tamanho da família, em conseqüência da baixa natalidade, significa menos gente em idade produtiva para tomar conta deles, o que acarreta enormes desafios para a economia e os governos", disse a VEJA David Lam, do Centro de Estudos Populacionais da Universidade de Michigan. Os idosos conhecem hoje no Brasil um bom momento (veja a reportagem). Colhem os frutos do investimento feito em fundos de previdência privada e têm crédito farto à disposição. Muitos colaboram decisivamente para o orçamento familiar. A renda das aposentadorias concedidas aos maiores de 65 anos sustenta muitas pequenas cidades no interior do Brasil. A questão é fazer com que esse bom momento se estenda aos que chegarão à terceira idade nas próximas décadas.

Márcio Lima
QUINZE FILHOS E UM QUARTO
O metalúrgico baiano José Manuel de Jesus e sua mulher, a costureira Altair (sentados nas cadeiras, no centro da foto), tiveram quinze filhos. "Depois do sexto, tentei fazer laqueadura, mas o médico disse que, aos 27 anos, eu era nova para ser esterilizada", conta Altair. O orçamento apertado fez com que a família dormisse em um único cômodo durante vinte anos. Manuela, a filha mais velha, decidiu não repetir a história dos pais. Depois que o segundo filho nasceu, seu marido fez uma vasectomia. "Passei necessidades na infância. Seria burrice fazer o mesmo com meus filhos", diz. Os irmãos de Manuela que já se casaram tiveram apenas um filho

As relações familiares também estão em transformação num Brasil com cada vez menos crianças. Nas reuniões familiares, em lugar de confraternizar com muitos primos, como acontecia na geração de seus pais, as crianças já começam a encontrar em maior número parentes mais velhos, na faixa de 50 a 90 anos. Nas famílias menores, há menos disputa pelos recursos econômicos e sobra mais dinheiro para pais e filhos satisfazerem seus desejos de consumo e lazer. Além disso, os integrantes de famílias pequenas tendem a ser mais individualistas, já que não há pressão para a divisão dos recursos. "Quando a sociedade fica mais individualista, existe menos interação entre as gerações, e isso não será bom para os idosos", diz o gerontologista carioca Alexandre Kalache, consultor para políticas globais de envelhecimento da Academia de Medicina de Nova York.

O encolhimento da família brasileira nas últimas duas décadas, provocado pela queda progressiva da taxa de fecundidade, já causou mudanças na arquitetura das moradias de classe média. Segundo os incorporadores imobiliários, os apartamentos construídos atualmente para essa faixa da população têm quartos menores – já que não precisam abrigar várias crianças – e área de convívio familiar maior. A redução da taxa de fecundidade no Brasil é uma boa notícia para os ambientalistas. Significa que o país vai dar menor contribuição para a superlotação do planeta, que, nas estimativas das Nações Unidas, terá atingido 9,2 bilhões de pessoas em 2050. A partir daí, com a generalização global das baixas taxas de fecundidade, prevê-se um período de estabilidade populacional.

Mirian Fichtner
PROLE MENOR A CADA GERAÇÃO
Íride Miolo, de 87 anos, é uma das nove filhas de um casal de imigrantes italianos que chegou ao Brasil para plantar uva. Ela é viúva de Virgílio Miolo, também filho de imigrantes, com quem teve cinco filhos. "Plantava uva com meus pais e irmãos. Depois de casada, continuei fazendo o mesmo com meu marido e filhos", conta. Já os filhos do casal Miolo, donos da vinícola de mesmo nome, optaram por famílias menores. "Criar uma família requer estratégia e planejamento. Tive uma filha só, Morgana, para me dedicar mais a ela", diz Antonio Miolo. Aos 29 anos, Morgana é casada, mas não quer filhos por enquanto. Diz ela: "Serão no máximo dois, para que eu não precise parar de trabalhar"


Os resultados da pesquisa do Ministério da Saúde se chocam com as previsões do IBGE. Embora a taxa de fecundidade do país venha caindo desde os anos 70, o instituto previa que o índice de 1,8 seria alcançado apenas em 2043. O que provocou essa antecipação? As evidências apontam para uma série de transformações ocorridas na sociedade brasileira nas últimas décadas. Uma delas foi o crescente êxodo das populações rurais para as cidades, fugindo do desemprego causado pela mecanização das lavouras e em busca de uma vida melhor. No campo, tradicionalmente, uma prole alentada significa garantia de mão-de-obra farta para a agricultura. Na cidade é diferente – ter vários filhos se traduz em mais despesas para transformá-los em força de trabalho produtiva. Um fator crucial para a queda da taxa de fecundidade no Brasil é a crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho. Hoje, 57% das mulheres brasileiras trabalham fora, contra 18% em 1970. Diante dos desafios cada vez maiores para vencer na carreira, e do tempo que a faina diária consome, muitas mulheres preferem ter apenas um filho – ou abdicar da maternidade. Diz a socióloga Cristina Bruschini, coordenadora de estudos sobre gênero da Fundação Carlos Chagas: "Hoje as mulheres trabalham não apenas por necessidade financeira. Elas querem participar da vida do país. Mas a complexa articulação entre trabalhar e cuidar dos filhos exige uma prole reduzida".

Outra surpresa embutida na pesquisa é que a queda acentuada da taxa de fecundidade brasileira se deu também no meio rural, onde as famílias são tradicionalmente mais conservadoras e numerosas. A explicação para isso está nas amplas campanhas de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis e de esclarecimento da população a respeito de métodos contraceptivos desenvolvidas pelos governos do país há quinze anos. Em meados da década de 90, o Ministério da Saúde distribuía anualmente no Brasil 5 milhões de cartelas de pílulas anticoncepcionais e 100 milhões de preservativos. Hoje, são repassados à população todo ano 50 milhões de cartelas de pílula e 1 bilhão de preservativos. Esse material, assim como cartilhas de esclarecimento sobre os métodos contraceptivos, alcança atualmente aos locais mais remotos do país. A tendência à redução das famílias chegou às regiões rurais também pelos meios de comunicação. Os personagens de novelas discutem sexo e prevenção da gravidez – e nenhum deles costuma ter mais de dois filhos. A queda da taxa de fecundidade no campo é, em si, uma segunda boa notícia. O fato mostra que as mulheres brasileiras de todos os quadrantes e estratos sociais estão empenhadas em ter menos filhos, criando oportunidades para construir um país melhor e mais rico.

 

Com reportagem de Duda Teixeira, Thomaz Favaro, Carolina Romanini e Igor Paulin



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |