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Reformas
A
república dos juízes
Eles
afrontam a lei e a sociedade ao ameaçar com uma greve nacional
e já amargam uma primeira derrota: o projeto da reforma previdenciária
foi aprovado sem nenhuma alteração

Alexandre
Oltramari
Montagem sobre fotos de Luiz Antonio/Ailton
de Freitas
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"Com
a reforma, o Judiciário será sucateado. A carreira
não terá atrativo algum. Vai sobrar só
o rebotalho, o restolho. Os melhores profissionais vão
para a iniciativa privada."
Marfan Martins Vieira, presidente da Associação
Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp)
"A
reforma é um duro golpe na carreira. Cria um desestímulo
para os novos magistrados e enfraquece o Judiciário.
Sem instituições fortes, a soberania se fragiliza."
Grijalbo Coutinho, presidente da Associação
Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra)
"Se
a pauta da magistratura for atendida, paramos o movimento.
Nosso objetivo não é chantagear, é demonstrar
que estamos preparados para defender a magistratura."
Cláudio Baldino Maciel, presidente da Associação
dos Magistrados Brasileiros (AMB)
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Primeiro,
veio o espanto: os juízes brasileiros programam fazer a primeira
greve nacional na história da magistratura, com o objetivo
de enterrar a reforma da Previdência Social. Em defesa de
seus privilégios, querem fechar as portas da Justiça
em todo o território nacional a partir de 5 de agosto. Depois,
veio a indignação. "Os membros do Judiciário
fazem parte de uma carreira de Estado e, como tal, não podem
fazer greve", reagiu o ministro Maurício Corrêa, presidente
do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte do país, seguido
por um punhado de declarações semelhantes dos presidentes
de tribunais superiores. Em seguida, veio o resultado: o Palácio
do Planalto, que já cedera em vários pontos da reforma,
suspendeu as negociações com o Judiciário,
e a Câmara dos Deputados colocou o relatório da reforma
em votação, sem contemplar uma única vírgula
das novas reivindicações dos magistrados. Com centenas
de servidores aos gritos e vaias, distribuindo empurrões
e pontapés, cercados pela presença inédita
de tropas de policiais militares nas dependências do Congresso,
a votação deu-se num clima tenso e varou a madrugada.
Ao final, o relatório foi aprovado na íntegra: trinta
votos a favor e oito contra.
Nunca
se viu um movimento de caráter sindical que, antes mesmo
de sair do papel, conseguisse angariar tanto repúdio e, ao
mesmo tempo, produzir resultados tão desastrosos. Pudera.
Os juízes lançaram uma cartada radical e parecem não
ter considerado seus efeitos negativos na esfera política,
jurídica e social. Afinal, se a greve dos juízes é
ilegal, quem estará capacitado para julgá-la? Os juízes
do trabalho, cujos 2.500 profissionais
na ativa também estão entre os que prometem parar
a partir de 5 de agosto? Afinal, se os 21.500
juízes, promotores e desembargadores ameaçam cruzar
os braços em flagrante desrespeito à lei, pode-se
pretender que grupos de sem-terra ou sem-teto respeitem a lei e
não invadam prédios e terras? "A greve é desnecessária,
imatura e uma agressão à sociedade", declarou Roberto
Busato, presidente interino da Ordem dos Advogados do Brasil, a
OAB. Imatura porque os juízes reivindicam privilégios
na reforma previdenciária por exercerem uma carreira típica
de Estado, mas na hora de paralisar os trabalhos querem ser tratados
como se fossem trabalhadores comuns.
Divulgação
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| O
juiz americano Peter Messitte, de Maryland: aposentadoria integral
e dez dias de férias por ano |
Antes
mesmo de a Câmara dos Deputados concluir a votação
do relatório da Previdência, dois dos principais líderes
da futura greve dos magistrados já sentiam cheiro de derrota
e se empenhavam não em voltar atrás e refazer
o curso, mas em encontrar uma forma de reanimar o movimento. O juiz
Cláudio Baldino Maciel, que lidera a entidade dos 12.500
magistrados em atividade no país, e o promotor Marfan Martins
Vieira, que comanda a associação com 90% dos membros
do Ministério Público, pensaram, de início,
em antecipar a data da greve. Logo mudaram de idéia, diante
da constatação de que os futuros grevistas se encontram,
neste momento, no gozo de férias forenses, das quais só
voltarão no início de agosto. Resolveram, então,
sair em busca da adesão à greve de outros servidores
públicos, como forma de fugir do isolamento ao qual se confinaram.
Seus alvos são os servidores do Poder Legislativo e, quem
sabe, os integrantes da Polícia Rodoviária Federal.
"Isso tiraria o tom corporativista da greve", explica o promotor
Marfan Vieira.
Mesmo
com a adesão de outros servidores, ficará difícil
disfarçar o "tom corporativista". Em termos previdenciários,
o Judiciário é o poder mais abastado do país,
com uma média de aposentadorias de 8.027
reais superior à média do Legislativo, do Executivo
e, é claro, do INSS. Para agravar a situação,
os juízes compõem a cúpula do Judiciário
e, logicamente, ganham os melhores salários. Conclusão:
o movimento pela greve está sendo deflagrado pela casta mais
bem paga do poder que melhor paga a seus funcionários. É
privilégio demais para conquistar simpatia social. O dado
mais espantoso, no entanto, é que, desde a abertura da temporada
mais quente da discussão previdenciária, os servidores
públicos magistrados aí incluídos
conseguiram manter belíssimos privilégios. Ao contrário
do que previa a proposta original da reforma apresentada pelo governo,
juízes e demais servidores seguirão tendo direito
à aposentadoria integral e à paridade de reajustes
salariais de ativos e inativos. Com isso, todo aumento salarial
concedido a quem está na ativa será automaticamente
estendido para a massa que já vestiu o pijama.
Tais
concessões, porém, não foram suficientes para
os magistrados, o que motivou uma censura indireta do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira passada. "Num país
onde há 40 milhões passando fome e o salário
mínimo é de 240 reais, tem gente que acha pouco se
aposentar com 17.000, 19.000,
20.000 ou 30.000
reais", disse Lula, falando para uma platéia de pequenos
agricultores em Concórdia, no interior de Santa Catarina.
Os atuais juízes reivindicam que os futuros juízes
também tenham direito à aposentadoria integral
o que, na prática, simplesmente cravaria uma estaca no coração
da reforma previdenciária. Querem, ainda, derrubar qualquer
redutor incidindo na parcela das pensões que exceder 1.058
reais. Ou seja: exigem pensões de 100%. Reivindicam, portanto,
o seguinte: se morre o dono do cargo público, seu cônjuge
receberá pelo resto da vida o salário pago com o dinheiro
dos demais brasileiros, através dos impostos que recolhem.
O governo acha inadequado pagar pensão integral, e quer aplicar
redutores diferentes conforme o caso. Há, por exemplo, casais
de juízes. Com uma pensão sem redutor, isso significa
que, quando morre um cônjuge, o outro fica com seu salário
integral mais uma pensão integral, dobrando seu salário
justamente quando a despesa familiar diminui. Por fim, os juízes
repudiam a criação do "subteto", que define uma hierarquia
de salários. Nesse sistema, ministro do STF recebe 17.000
reais, desembargador fica com 12.700
reais, juiz titular ganha 12.100 reais
e juiz substituto embolsa 11.500 reais.
Em
vez dessa escala, os magistrados querem uma tabela igual à
aplicada aos juízes federais, o que lhes daria aumento salarial
de quase 20%. "O subteto cria um desestímulo para os novos
magistrados nos Estados", diz o juiz Grijalbo Coutinho, presidente
da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça
do Trabalho. "É um duro golpe na carreira", completa. Desde
que a reforma previdenciária entrou em cena, os magistrados
têm falado com freqüência que a carreira perderá
atrativos, espantará bons profissionais e enfraquecerá
um poder fundamental da República. São objeções
nobres e relevantes, mas, na prática, elas escondem um interesse
de cunho meramente pecuniário. A criação do
subteto pretende só acabar com a zorra salarial nos Estados.
Há desembargadores recebendo entre 40.000
e 50.000 reais mensais. São casos
excepcionais, mas ocorrem, por exemplo, no Tribunal de Justiça
de Minas Gerais, tido como meca dos salariaços da magistratura
nacional. A remuneração dos mineiros equivale ao salário
do jurista William Hubbs Rehnquist, 78 anos, presidente da Suprema
Corte americana.
Foi
um choque para a opinião pública ser informada de
que os magistrados brasileiros, já recebendo bons salários
e tendo uma penca de prerrogativas especiais, ainda fossem capazes
de jogar tão pesado, inclusive ao arrepio da lei, para defender
mais privilégios dentro de um sistema previdenciário
à beira da falência. Ninguém esperava
nem Maurício Corrêa, o presidente do STF que começou
toda a mobilização em favor do Judiciário na
reforma da Previdência que os magistrados pudessem
chegar a tanto. Além da insensatez de uma greve, a biografia
da categoria jamais apresentou passagens de tanta garra e unidade,
o que retira um pouco do suposto caráter patriótico
do movimento. Os magistrados nunca se empenharam com tamanho afinco
para defender a qualidade das escolas de direito, que mal conseguem
formar profissionais aptos a passar num concurso de juiz. Não
se rebelaram contra a falta de acesso popular à Justiça.
Nunca se rebelaram contra a degradante morosidade nos processos.
Nunca pregaram a necessidade de reformar a estrutura arcaica do
Judiciário, tanto do ponto de vista administrativo quanto
da questão da eficiência dos procedimentos. Ao contrário,
todas as vezes que se falou na reforma do Judiciário ou no
controle externo desse Poder da República, os magistrados
sempre acharam que havia alguém tramando contra eles.
"Lamento
que em situações anteriores, em que o estado de direito
foi revogado, os juízes não fizeram greve", provoca
o deputado José Pimentel (PT-CE), relator da reforma da Previdência,
em referência às agressões jurídicas
cometidas pela ditadura militar (1964-1985). É legítimo
que os juízes defendam seus direitos, suas condições
de trabalho, seus salários, motivos que movimentam todas
as categorias. Mas, desta vez, além do imperdoável
exagero da greve, o que se vê é apenas o grito do bolso.
Os juízes do Acre fizeram greve recentemente. Queriam 45%
de reajuste salarial, mas também pediam material de escritório
e contratação de servidores concursados. A greve terminou
em 10 de junho. Durou 36 dias. Até hoje, negocia-se um aumento
de 11%, mas houve algumas das contratações pedidas
e o fornecimento de material. "As condições de trabalho
melhoraram", diz a juíza Maria Cezarinete Angelim. "Faltavam
papel, caneta, cartucho de impressora, e isso agora tem." Os magistrados,
agora, não incluíram em sua pauta de reivindicações
nada que soasse minimamente simpático à sociedade.
Segundo
pesquisas, a opinião pública apóia a reforma
da Previdência. Isso porque entendeu que o sistema, tal como
está, é um convite irrecusável à falência
coisa que os juízes parecem não ter compreendido.
Além disso, a opinião pública vê o Judiciário
com desconfiança, habituada que está aos processos
demoradíssimos, ao excesso de burocracia, à absoluta
falta de controle sobre a atividade de um juiz. Nos Estados Unidos,
juízes prestam contas. Entregam relatórios semestrais,
informando quantos casos aguardam julgamento há mais de seis
meses, e precisam justificar ao Congresso, anualmente, os dias que
eventualmente tenham ficado fora do tribunal em razão de
algum compromisso profissional. Os juízes americanos, como
no Brasil, têm suas regalias. A aposentadoria integral é
uma delas. "Mas nem consigo imaginar um grupo de juízes fazendo
uma manifestação política, e reivindicação
salarial é uma questão política", disse a VEJA
o juiz federal Peter Messitte, de Maryland, que tira dez dias de
férias por ano. "Não existe na história americana
nenhum caso semelhante." No Brasil, há que esperar para saber
se a greve realmente será feita. Só em agosto os magistrados
estarão de volta do descanso do recesso.
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