Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Entrevista: José Dirceu
De soldado a general

O ministro mais poderoso do governo Lula
nega que seja centralizador e diz que
seu estilo assusta porque ele é "transparente"
e odeia incompetência


Thaís Oyama

Ana Araújo

"FHC tem de pôr a experiência à disposição da sociedade, não do governo. Ex-presidentes têm de fazer palestras e bibliotecas"

O mineiro José Dirceu orgulha-se de ter sido, durante toda a vida, um soldado a serviço de uma causa. Ex-líder estudantil, exilado político, deputado federal e presidente do PT, traçou e cumpriu, de maneira obstinada, a trajetória que o levou a alcançar o que diz ter sido seu objetivo desde sempre: participar de um governo popular e de esquerda no Brasil. Nesse percurso, abriu mão da própria identidade. Banido pelo regime militar, viveu clandestinamente no país por quatro anos disfarçado de empresário do ramo de roupas, sem revelar quem era nem à mulher nem ao filho. Agora, o soldado virou general. José Dirceu, chefe da Casa Civil, é o ministro com mais atribuições e poder de decisão do governo Lula – e exerce suas funções com mão-de-ferro. Em entrevista a VEJA, ele critica o Judiciário, espicaça o ex-presidente Fernando Henrique, defende seu estilo "trator" e diz que não tem pressa para definir seu futuro político: "Ainda estou inteiraço".

Veja – O que o senhor achou da oferta do ex-presidente Fernando Henrique de ser uma espécie de conselheiro do governo Lula?

José Dirceu – O que ele disse, na verdade, foi que considerava que ex-presidentes têm de ter um papel no país. Acredito que têm, sim, e o Congresso vai discutir de que forma – se eles se tornam senadores vitalícios, por exemplo. Mas acho que o Fernando Henrique deveria colocar sua experiência à disposição da sociedade, e não do governo atual. Ex-presidentes devem fazer palestras, construir bibliotecas, abrir fundações. Nesse sentido, ele, infelizmente, perdeu a condição de ex-presidente da República.

Veja – Por quê?
José Dirceu – Porque, se você quer participar da disputa político-partidária, perde a condição de ex-presidente da República. E o que as aparências indicam é que o Fernando Henrique não está se colocando acima dessa disputa – está assumindo a posição de líder do PSDB. Agora, quanto às críticas que ele fez, elas são bem-vindas. Nós estamos acostumados à diversidade e temos humildade para ouvi-las.

Veja – Diz-se, freqüentemente, que o presidente Lula não aceita críticas. O senhor, como um dos ministros mais próximos dele, acha que isso é verdade?

José Dirceu – Não. Ele é absolutamente aberto às críticas e absolutamente crítico. Ninguém mais do que ele cobra, critica e, muitas vezes, se impacienta.

Veja – O senhor se sente à vontade para criticá-lo?
José Dirceu – Todos nós nos sentimos à vontade porque fomos criados assim, debatendo.

Veja – Mas, se o presidente usa um boné do MST e isso repercute de forma muito negativa, alguém diz a ele que talvez não tenha sido uma boa idéia? O senhor diria?

José Dirceu – Aí você está me pedindo demais. Eu já disse a ele o que é razoável dizer numa relação entre um ministro e um presidente. Mas, em relação ao episódio, também não acho que seja razoável transformar aquele momento em um símbolo de algo que não é fato.

Veja – O senhor já foi deputado, presidente do PT, mas nunca havia governado. O que mais o surpreendeu no exercício do poder?

José Dirceu – Minha primeira surpresa foi a gravidade da situação do país, que era muito maior do que nós avaliávamos – e olha que nós a conhecíamos bastante. Segundo, pude confirmar toda a potencialidade do Brasil e aumentar minha crença nele.

Veja – E do ponto de vista pessoal?
José Dirceu – Eu não imaginava que fosse trabalhar tanto. A porta do meu gabinete, quando abre, é só para entrar problema. Nunca entra solução.

Veja – Dizem que o senhor é centralizador e que governa com pulso de ferro. O senhor se vê assim?

José Dirceu – Eu odeio a incompetência. Só fico intranqüilo e indisposto diante da incompetência. Eu não tolero a incompetência.

Veja – Então o senhor concorda com a imagem que fazem do senhor?

José Dirceu – Eu não me vejo assim. O problema é que falo as coisas de maneira transparente, e muita gente não gosta de ouvir as verdades. Segundo: disputo abertamente. Não escondo. Eu digo: vamos fazer maioria, vamos votar isso. As pessoas talvez se surpreendam, e daí vem essa imagem.

Veja – O senhor poderia dizer então se são verdadeiras ou não algumas coisas que dizem a seu respeito? Por exemplo, que o senhor teria feito o ministro Cristovam Buarque chorar ao repreendê-lo duramente por ter se queixado em público da falta de recursos para a educação?

José Dirceu – Nada! Minha relação com os ministros não pode ser desse tipo, senão eu não estaria aqui. Nem eles aceitariam isso. Agora, tem divergência, tem debate. Na reforma da Previdência, por exemplo, o pau comeu o tempo todo.

Veja – E sobre ter colocado o dedo em riste diante do senador Eduardo Suplicy, dizendo que ele seria seu inimigo para o resto da vida se testemunhasse a favor da senadora Heloísa Helena na Comissão de Ética?

José Dirceu – Isso é verdade. Falei para ele que iria continuar tratando-o com o maior respeito, mas que, se ele fosse depor a favor da senadora, eu me tornaria seu adversário político. Ele tem todo o direito de fazer isso, mas não me peça que concorde. Não sou hipócrita nem cínico. Então, deixei claro: daqui para a frente é disputa política. Faça, mas agüente as conseqüências.

Veja – Também se diz que o senhor teria excessivo apreço pela informação e que teria montado uma eficiente rede de colaboradores no governo que lhe possibilitaria ter controle sobre tudo o que acontece nos outros ministérios.

José Dirceu – Isso é calúnia, isso é mentira. Eu sou um democrata. Tenho acesso a informações que todos os ministros têm. Agora, sou chefe da Casa Civil, tenho informações sobre todos os ministérios porque coordeno a ação governamental. Querem vender essa imagem minha, mas faço questão de deixar claro que não quero nenhuma aproximação com a área de informação do governo. Depois, sou bem informado também porque leio muito e tenho relações, conheço todo mundo.

Veja – O senhor é candidato a governador de São Paulo em 2006?

José Dirceu – Não. Não faço nada sem a orientação do presidente Lula em matéria de política nos próximos anos. Nada.

Veja – Mas o senhor, como todo mundo, tem ambições pessoais.

José Dirceu – O que eu queria na vida estou fazendo, que é servir ao Brasil com o presidente Lula.

Veja – E depois?

José Dirceu – Depois, o futuro a Deus pertence. Não estou com pressa, posso esperar. Tenho 57 anos e estou inteiraço.

Veja – Houve uma sucessão de crises desde o episódio do MST. Muitos têm a impressão de que o governo está tendo de investir a maior parte do tempo apagando incêndios, no lugar de planejar.

José Dirceu – Pelo contrário. É ilusão pensar que nós estamos sendo levados pelos problemas do dia-a-dia e que estamos nos perdendo nas crises que aparecem. Não nos subestimem. Nós levamos catorze anos para chegar aqui e temos consciência de que não podemos errar. Este é um governo que tem planejamento e estratégia e está retomando o projeto de desenvolvimento do Brasil. Essa é uma diferença fundamental entre nós e o governo Fernando Henrique.

Veja – O Congresso deve votar nesta semana o projeto de reforma da Previdência. O governo vai conseguir manter a proposta aprovada até agora?

José Dirceu – Acredito que sim. Haverá muita luta contra a cobrança dos inativos, vai ter a questão das pensões e uma disputa em torno de aumentar o subteto nos Estados para o Poder Judiciário. O argumento que é apresentado pelo Judiciário eu considero no mínimo cínico, porque você tem hoje desembargadores e promotores que ganham mais que o ministro do Supremo Tribunal Federal. Como é que eles podem alegar agora que nós não podemos colocar o subteto de 75% porque um juiz federal vai ganhar mais que um desembargador? Então, eles não deveriam nunca ter aumentado, por medidas administrativas, o salário deles para além do salário do ministro do Supremo Tribunal Federal. O argumento não é honesto, e a sociedade deve repelir esse argumento – 75% do salário de um ministro do Supremo é um salário, para as condições do Brasil, muito adequado.

Veja – Do ponto de vista fiscal, o governo diz que, mesmo com as mudanças, a reforma não foi prejudicada, mas o senhor concorda que houve um prejuízo político considerável?

José Dirceu – Ninguém esperava que a proposta não fosse mudada no Congresso. Democracia é isso. Se o governo tivesse cedido na essência da proposta, teria sido um retrocesso. Mas o governo não cedeu. Mostrou disposição para o diálogo.

Veja – A manutenção da integralidade (da aposentadoria para os atuais servidores) e da paridade (de reajuste entre salários de quem está na ativa e o valor da aposentadoria) estava nessa conta?

José Dirceu – Não. Inclusive me opus à paridade até o fim. Eu assumo o ônus de ter feito a proposta final, como articulador político do governo, mas sempre fui contra a paridade – até porque ela vai inviabilizar o aumento para os funcionários atuais. Não há recurso para dar aumento aos dois, aposentados e atuais. Se contar a um marciano como funciona o sistema no Brasil, ele não acredita. Quando falo no exterior que no Brasil os trabalhadores se aposentam aos 48 e 53 anos, as pessoas olham para mim e acham que estou mentindo. Elas pulam da cadeira.

Veja – O que deu certo no governo até agora?

José Dirceu – Nós não estaríamos discutindo nada disso aqui se o dólar estivesse a 4 reais, se o risco Brasil estivesse a 2.500 e se a inflação estivesse a 3,5% ao mês, como era a tendência. Não estaríamos nem discutindo reforma.

Veja – Mas em janeiro de 2002 os juros estavam a 19%, o dólar estava a 2,40 reais e o risco Brasil a 800.

José Dirceu – Mas isso foi por causa dos erros da política econômica deles, por causa do apagão, da privatização do setor energético, tudo isso. Dólar alto, a inflação, risco Brasil são sintomas de enfermidade.

Veja – Então, os sintomas estão piores agora.

José Dirceu – Não é assim. O risco Brasil está caindo todos os dias, a inflação encontra-se sob controle, a confiança no país só aumenta e nós vamos baixar os juros de maneira consistente.

Veja – O senhor viveu clandestinamente no Brasil por quatro anos, disfarçado de empresário e sem contar quem era nem à própria mulher. O que mais o angustiava nesse período?

José Dirceu – Solidão.

Veja – Solidão de não estar junto das pessoas que compartilhavam seu interesse pela política?

José Dirceu – Solidão não tem definição. É uma dor. E isso eu sentia. E vamos lembrar que fiquei dez anos sem ver minha família. É muito duro. Mas a vida é dura mesmo, sempre digo isso. Só que o que foi que eu fiz com a minha tradicional disciplina? Estudei, conheci o país todo. Eu me preparei, entendeu? Não fiquei lá chorando as pitangas.

Veja – Foi também essa disciplina que o ensinou a nunca ultrapassar dois copos de cerveja quando estava em um bar, na pele do empresário Carlos Henrique?

José Dirceu – Lógico. Quem está clandestino não pode beber demais, não pode freqüentar certos lugares. Clandestinidade tem regras. Se você as rompe, está liquidado. Eu nunca rompi.

Veja – De onde veio essa disciplina?

José Dirceu – Não sei, talvez dos padres franceses com quem estudei. Meu pai também era um homem muito disciplinado. Eu sou absolutamente ligado a minha família. Minha mãe é viva, eu peço a bênção a ela sempre.

Veja – O senhor é católico?

José Dirceu – Sou católico.

Veja – O senhor acredita em Deus?

José Dirceu – Toda a minha formação é católica.

Veja – Mas eu posso perguntar se o senhor acredita em Deus?

José Dirceu – Eu, como a maioria do povo brasileiro, fui formado sobre os preceitos do cristianismo e atribuo a minha educação familiar e à formação religiosa que recebi na escola quase tudo o que sou. Não há nenhuma incompatibilidade em ser um socialista, como eu sou, e seguir os princípios éticos e morais que aprendi com minha família. Para mim, família é muito importante. Passa Quatro, a cidade onde nasci, é importante. Tenho uma fidelidade canina a meu passado, assim como aos companheiros que perdi. Em todos os momentos felizes da minha vida me lembro deles.

Veja – Qual foi o mais feliz até hoje?
José Dirceu – O momento da minha vida foi quando fiz meu discurso de posse, um dia depois de subir a rampa do Palácio ao lado do general Félix (Jorge Armando Félix, da Segurança Institucional).

Veja – Por quê?

José Dirceu – Porque acho que minha geração tinha uma dívida com o Brasil e o Brasil tinha uma dívida com a minha geração. Lá, nós acertamos as contas.

 

 
 
 
 
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