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Entrevista:
José Dirceu
De
soldado a general
O
ministro mais poderoso do governo Lula
nega que seja centralizador e diz que
seu estilo assusta porque ele é "transparente"
e odeia incompetência

Thaís
Oyama
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Ana Araújo

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"FHC
tem de pôr a
experiência à disposição
da sociedade,
não do
governo. Ex-presidentes
têm de fazer
palestras e
bibliotecas"
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O
mineiro José Dirceu orgulha-se de ter sido, durante toda
a vida, um soldado a serviço de uma causa. Ex-líder
estudantil, exilado político, deputado federal e presidente
do PT, traçou e cumpriu, de maneira obstinada, a trajetória
que o levou a alcançar o que diz ter sido seu objetivo desde
sempre: participar de um governo popular e de esquerda no Brasil.
Nesse percurso, abriu mão da própria identidade. Banido
pelo regime militar, viveu clandestinamente no país por quatro
anos disfarçado de empresário do ramo de roupas, sem
revelar quem era nem à mulher nem ao filho. Agora, o soldado
virou general. José Dirceu, chefe da Casa Civil, é
o ministro com mais atribuições e poder de decisão
do governo Lula e exerce suas funções com mão-de-ferro.
Em entrevista a VEJA, ele critica o Judiciário, espicaça
o ex-presidente Fernando Henrique, defende seu estilo "trator" e
diz que não tem pressa para definir seu futuro político:
"Ainda estou inteiraço".
Veja
O que o senhor achou da oferta do ex-presidente Fernando
Henrique de ser uma espécie de conselheiro do governo Lula?
José Dirceu
O que ele disse, na verdade, foi que considerava que ex-presidentes
têm de ter um papel no país. Acredito que têm,
sim, e o Congresso vai discutir de que forma se eles se tornam
senadores vitalícios, por exemplo. Mas acho que o Fernando
Henrique deveria colocar sua experiência à disposição
da sociedade, e não do governo atual. Ex-presidentes devem
fazer palestras, construir bibliotecas, abrir fundações.
Nesse sentido, ele, infelizmente, perdeu a condição
de ex-presidente da República.
Veja
Por quê?
José Dirceu Porque,
se você quer participar da disputa político-partidária,
perde a condição de ex-presidente da República.
E o que as aparências indicam é que o Fernando Henrique
não está se colocando acima dessa disputa está
assumindo a posição de líder do PSDB. Agora,
quanto às críticas que ele fez, elas são bem-vindas.
Nós estamos acostumados à diversidade e temos humildade
para ouvi-las.
Veja
Diz-se, freqüentemente, que o presidente Lula não
aceita críticas. O senhor, como um dos ministros mais próximos
dele, acha que isso é verdade?
José Dirceu
Não. Ele é absolutamente aberto às críticas
e absolutamente crítico. Ninguém mais do que ele cobra,
critica e, muitas vezes, se impacienta.
Veja
O senhor se sente à vontade para criticá-lo?
José Dirceu
Todos nós nos sentimos à vontade porque fomos criados
assim, debatendo.
Veja
Mas, se o presidente usa um boné do MST e isso
repercute de forma muito negativa, alguém diz a ele que talvez
não tenha sido uma boa idéia? O senhor diria?
José Dirceu
Aí você está me pedindo demais. Eu já
disse a ele o que é razoável dizer numa relação
entre um ministro e um presidente. Mas, em relação
ao episódio, também não acho que seja razoável
transformar aquele momento em um símbolo de algo que não
é fato.
Veja
O senhor já foi deputado, presidente do PT, mas
nunca havia governado. O que mais o surpreendeu no exercício
do poder?
José Dirceu
Minha primeira surpresa foi a gravidade da situação
do país, que era muito maior do que nós avaliávamos
e olha que nós a conhecíamos bastante. Segundo,
pude confirmar toda a potencialidade do Brasil e aumentar minha
crença nele.
Veja
E do ponto de vista pessoal?
José Dirceu
Eu não imaginava que fosse trabalhar tanto. A porta do meu
gabinete, quando abre, é só para entrar problema.
Nunca entra solução.
Veja
Dizem que o senhor é centralizador e que governa
com pulso de ferro. O senhor se vê assim?
José Dirceu
Eu odeio a incompetência. Só fico intranqüilo
e indisposto diante da incompetência. Eu não tolero
a incompetência.
Veja
Então o senhor concorda com a imagem que fazem
do senhor?
José Dirceu
Eu não me vejo assim. O problema é que falo as coisas
de maneira transparente, e muita gente não gosta de ouvir
as verdades. Segundo: disputo abertamente. Não escondo. Eu
digo: vamos fazer maioria, vamos votar isso. As pessoas talvez se
surpreendam, e daí vem essa imagem.
Veja
O senhor poderia dizer então se são verdadeiras
ou não algumas coisas que dizem a seu respeito? Por exemplo,
que o senhor teria feito o ministro Cristovam Buarque chorar ao
repreendê-lo duramente por ter se queixado em público
da falta de recursos para a educação?
José Dirceu
Nada! Minha relação com os ministros não pode
ser desse tipo, senão eu não estaria aqui. Nem eles
aceitariam isso. Agora, tem divergência, tem debate. Na reforma
da Previdência, por exemplo, o pau comeu o tempo todo.
Veja
E sobre ter colocado o dedo em riste diante do senador
Eduardo Suplicy, dizendo que ele seria seu inimigo para o resto
da vida se testemunhasse a favor da senadora Heloísa Helena
na Comissão de Ética?
José Dirceu
Isso é verdade. Falei para ele que iria continuar tratando-o
com o maior respeito, mas que, se ele fosse depor a favor da senadora,
eu me tornaria seu adversário político. Ele tem todo
o direito de fazer isso, mas não me peça que concorde.
Não sou hipócrita nem cínico. Então,
deixei claro: daqui para a frente é disputa política.
Faça, mas agüente as conseqüências.
Veja
Também se diz que o senhor teria excessivo apreço
pela informação e que teria montado uma eficiente
rede de colaboradores no governo que lhe possibilitaria ter controle
sobre tudo o que acontece nos outros ministérios.
José Dirceu
Isso é calúnia, isso é mentira. Eu sou um democrata.
Tenho acesso a informações que todos os ministros
têm. Agora, sou chefe da Casa Civil, tenho informações
sobre todos os ministérios porque coordeno a ação
governamental. Querem vender essa imagem minha, mas faço
questão de deixar claro que não quero nenhuma aproximação
com a área de informação do governo. Depois,
sou bem informado também porque leio muito e tenho relações,
conheço todo mundo.
Veja
O senhor é candidato a governador de São
Paulo em 2006?
José Dirceu
Não. Não faço nada sem a orientação
do presidente Lula em matéria de política nos próximos
anos. Nada.
Veja
Mas o senhor, como todo mundo, tem ambições
pessoais.
José Dirceu
O que eu queria na vida estou fazendo, que é servir ao Brasil
com o presidente Lula.
Veja
E depois?
José Dirceu
Depois, o futuro a Deus pertence. Não estou com pressa, posso
esperar. Tenho 57 anos e estou inteiraço.
Veja
Houve uma sucessão de crises desde o episódio
do MST. Muitos têm a impressão de que o governo está
tendo de investir a maior parte do tempo apagando incêndios,
no lugar de planejar.
José Dirceu
Pelo contrário. É ilusão pensar que nós
estamos sendo levados pelos problemas do dia-a-dia e que estamos
nos perdendo nas crises que aparecem. Não nos subestimem.
Nós levamos catorze anos para chegar aqui e temos consciência
de que não podemos errar. Este é um governo que tem
planejamento e estratégia e está retomando o projeto
de desenvolvimento do Brasil. Essa é uma diferença
fundamental entre nós e o governo Fernando Henrique.
Veja
O Congresso deve votar nesta semana o projeto de reforma
da Previdência. O governo vai conseguir manter a proposta
aprovada até agora?
José Dirceu
Acredito que sim. Haverá muita luta contra a cobrança
dos inativos, vai ter a questão das pensões e uma
disputa em torno de aumentar o subteto nos Estados para o Poder
Judiciário. O argumento que é apresentado pelo Judiciário
eu considero no mínimo cínico, porque você tem
hoje desembargadores e promotores que ganham mais que o ministro
do Supremo Tribunal Federal. Como é que eles podem alegar
agora que nós não podemos colocar o subteto de 75%
porque um juiz federal vai ganhar mais que um desembargador? Então,
eles não deveriam nunca ter aumentado, por medidas administrativas,
o salário deles para além do salário do ministro
do Supremo Tribunal Federal. O argumento não é honesto,
e a sociedade deve repelir esse argumento 75% do salário
de um ministro do Supremo é um salário, para as condições
do Brasil, muito adequado.
Veja
Do ponto de vista fiscal, o governo diz que, mesmo com
as mudanças, a reforma não foi prejudicada, mas o
senhor concorda que houve um prejuízo político considerável?
José Dirceu
Ninguém esperava que a proposta não fosse mudada no
Congresso. Democracia é isso. Se o governo tivesse cedido
na essência da proposta, teria sido um retrocesso. Mas o governo
não cedeu. Mostrou disposição para o diálogo.
Veja
A manutenção da integralidade (da aposentadoria
para os atuais servidores) e da paridade (de reajuste entre
salários de quem está na ativa e o valor da aposentadoria)
estava nessa conta?
José Dirceu
Não. Inclusive me opus à paridade até o fim.
Eu assumo o ônus de ter feito a proposta final, como articulador
político do governo, mas sempre fui contra a paridade
até porque ela vai inviabilizar o aumento para os funcionários
atuais. Não há recurso para dar aumento aos dois,
aposentados e atuais. Se contar a um marciano como funciona o sistema
no Brasil, ele não acredita. Quando falo no exterior que
no Brasil os trabalhadores se aposentam aos 48 e 53 anos, as pessoas
olham para mim e acham que estou mentindo. Elas pulam da cadeira.
Veja
O que deu certo no governo até agora?
José Dirceu
Nós não estaríamos discutindo nada disso aqui
se o dólar estivesse a 4 reais, se o risco Brasil estivesse
a 2.500 e se a inflação
estivesse a 3,5% ao mês, como era a tendência. Não
estaríamos nem discutindo reforma.
Veja Mas em janeiro de 2002 os juros estavam a 19%,
o dólar estava a 2,40 reais e o risco Brasil a 800.
José Dirceu
Mas isso foi por causa dos erros da política econômica
deles, por causa do apagão, da privatização
do setor energético, tudo isso. Dólar alto, a inflação,
risco Brasil são sintomas de enfermidade.
Veja
Então, os sintomas estão piores agora.
José Dirceu
Não é assim. O risco Brasil está caindo todos
os dias, a inflação encontra-se sob controle, a confiança
no país só aumenta e nós vamos baixar os juros
de maneira consistente.
Veja
O senhor viveu clandestinamente no Brasil por quatro anos,
disfarçado de empresário e sem contar quem era nem
à própria mulher. O que mais o angustiava nesse período?
José Dirceu
Solidão.
Veja
Solidão de não estar junto das pessoas que
compartilhavam seu interesse pela política?
José Dirceu
Solidão não tem definição. É
uma dor. E isso eu sentia. E vamos lembrar que fiquei dez anos sem
ver minha família. É muito duro. Mas a vida é
dura mesmo, sempre digo isso. Só que o que foi que eu fiz
com a minha tradicional disciplina? Estudei, conheci o país
todo. Eu me preparei, entendeu? Não fiquei lá chorando
as pitangas.
Veja
Foi também essa disciplina que o ensinou a nunca
ultrapassar dois copos de cerveja quando estava em um bar, na pele
do empresário Carlos Henrique?
José Dirceu
Lógico. Quem está clandestino não pode beber
demais, não pode freqüentar certos lugares. Clandestinidade
tem regras. Se você as rompe, está liquidado. Eu nunca
rompi.
Veja
De onde veio essa disciplina?
José Dirceu
Não sei, talvez dos padres franceses com quem estudei. Meu
pai também era um homem muito disciplinado. Eu sou absolutamente
ligado a minha família. Minha mãe é viva, eu
peço a bênção a ela sempre.
Veja
O senhor é católico?
José Dirceu
Sou católico.
Veja
O senhor acredita em Deus?
José Dirceu
Toda a minha formação é católica.
Veja
Mas eu posso perguntar se o senhor acredita em Deus?
José Dirceu
Eu, como a maioria do povo brasileiro, fui formado sobre os preceitos
do cristianismo e atribuo a minha educação familiar
e à formação religiosa que recebi na escola
quase tudo o que sou. Não há nenhuma incompatibilidade
em ser um socialista, como eu sou, e seguir os princípios
éticos e morais que aprendi com minha família. Para
mim, família é muito importante. Passa Quatro, a cidade
onde nasci, é importante. Tenho uma fidelidade canina a meu
passado, assim como aos companheiros que perdi. Em todos os momentos
felizes da minha vida me lembro deles.
Veja
Qual foi o mais feliz até hoje?
José Dirceu
O momento da minha vida foi quando fiz meu discurso de posse, um
dia depois de subir a rampa do Palácio ao lado do general
Félix (Jorge Armando Félix, da Segurança
Institucional).
Veja
Por quê?
José Dirceu
Porque acho que minha geração tinha uma dívida
com o Brasil e o Brasil tinha uma dívida com a minha geração.
Lá, nós acertamos as contas.
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