Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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EM FOCO: Sérgio Abranches
Confiança e desempenho

"A população pode confiar no governante,
mas avaliar mal seu desempenho,
e pode não confiar nele, mas achar que
está fazendo um bom trabalho"

Ilustração Ale Setti

O trabalho do presidente Vladimir Putin, da Rússia, é considerado ótimo ou bom por 78% dos russos, segundo pesquisa divulgada nesta semana. Mas apenas 49% confiam nele. O presidente Luiz Inácio da Silva tem 43% de avaliação positiva, pela pesquisa CNI/Ibope, de junho passado, entretanto 76% confiam nele. FHC, em julho de 1995, mesma idade do governo hoje, tinha 42% de avaliação positiva e 62% de confiança, pelo Ibope. Avaliação igual à de Lula, mas menos confiança, embora alta. Na campanha de 2002, o quadro era muito pior: avaliação de 25% e confiança resistindo um pouco, em 37%. Como explicar a dissonância entre avaliação e confiança?

A pesquisa sobre Valores no Mundo (World Values Survey), que permite comparar o funcionamento da democracia entre países, dá-nos uma pista. O Brasil possui o menor índice de confiança nas pessoas, só 5%, na década de 90. A Rússia tem média melhor, de 24%. Mas a média de confiança nas pessoas das democracias mais maduras é de 52%. A exceção, entre as clássicas democracias, é a França, com 24%.

Lá, o presidente Jacques Chirac tem 47% de confiança e 52% de avaliação positiva, e o primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin, 43% e 44%, respectivamente. Nos EUA, o índice de confiança nas pessoas é de 52%. O presidente Bush tem confiança de 65%, na média das principais pesquisas de opinião, apesar das mentiras sobre o Iraque. Superior a sua avaliação positiva, que, na última pesquisa Washington Post/ABC News, foi de 53%. Tony Blair tem, depois da descoberta da mentira sobre o Iraque, 46% de confiança e 50% de avaliação positiva. O índice de confiança dos ingleses nas pessoas é de 44%. Parece que, quanto mais baixo esse índice, mais facilmente os cidadãos perdem a confiança em seus governantes.

A imagem popular dos governantes tem pelo menos duas dimensões: desempenho e confiança, que são relativamente independentes. Isto é, a população pode confiar no governante, mas avaliar mal seu desempenho, e pode não confiar nele, mas achar que está fazendo um bom trabalho. Essa avaliação não está, necessariamente, marcada pelo desgaste de, por exemplo, dois mandatos. Clinton terminou seu mandato com 68% de avaliação positiva e apenas 40% de confiança. Talvez por isso Al Gore tenha preferido fazer uma campanha dissociada da imagem do presidente: ganhou apertado no voto popular e perdeu no voto indireto. José Serra fez coisa semelhante aqui. Mas Fernando Henrique estava em baixa nas duas dimensões, na época da campanha. Serra preferiu fazer uma campanha como se não fosse do governo, foi para o segundo turno e Lula para o Planalto.

É bem possível que a confiança seja determinada, em parte, pela capacidade dos cidadãos de cada país de confiar nos outros, ou pelo tamanho da desconfiança nas pessoas em geral, e, em parte, pela personalidade do governante. Carisma, uma atitude olhos nos olhos, simpatia talvez tenham importância para dar confiança, mas não influenciam a avaliação de desempenho. Bush, que não tem o carisma de Lula nem de Blair, tenta se confundir com o ícone estadunidense, o marine, o GI-Joe, o Rambo, vira e mexe aparece como se estivesse fardado. Usa uma instituição que tem crédito, para ganhar confiança.

O desempenho tem a ver com a economia. Aliás, Clinton ensinou essa lição a Bush pai: "É a economia...", lembram? Aí, a tarefa depende da complexidade da governança, da efetividade do governo e da gravidade dos problemas econômicos. Hoje, ninguém anda bem, exceto Putin, com crescimento do PIB russo projetado para 6%, neste ano. Brasil, França, Estados Unidos e Reino Unido estão num grande marasmo. Um conjunto de indicadores de governança, compilado por Daniel Kaufman, apesar de não ser muito preciso, dá algumas dicas sobre a tarefa governativa. Um índice mede o grau de influência dos cidadãos e responsabilidade/transparência dos governos. O Brasil tem 0,53, de um máximo de 2,5 e um mínimo de -2,5. Dá um pouco menos de 25% do melhor possível. A Rússia tem -0,35, a França tem 1,11, os EUA 1,24 e o Reino Unido 1,46. Outro índice mede a efetividade do governo. Neste, temos -0,27, a Rússia -0,57, a França 1,24, os EUA 1,58 e o Reino Unido 1,77. Faz algum sentido, embora na minha opinião o índice para o governo brasileiro esteja baixo demais. Provavelmente, influência da opinião empresarial, que, por aqui, é viciada em chororô.

Se for assim, o presidente Luiz Inácio está fazendo certo na economia: impopular agora, para garantir bom desempenho mais adiante. Reeleição na mira? Mas, nas suas improvisações, fala demais e de menos, pode perder confiança pela boca. As duas coisas parecem ser importantes para o eleitor.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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