Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Falta determinação


rafael Neddermeyer/AE
Militantes contidos por tropas dentro do Congresso: o governo tem de traçar a linha justa

Brasília não pode ser responsabilizada diretamente pela série de distúrbios registrados na semana passada, mas cabe ao governo federal, e principalmente ao presidente da República, a tarefa de traçar uma linha justa que separe os protestos de natureza democrática da afronta e da ilegalidade. Na semana passada, o Brasil viu espocar vários focos de tensão. Baderneiros organizados sob bandeiras vermelhas invadiram fazendas, centros de pesquisa e terrenos urbanos. Em uma inversão de valores, juízes e promotores decidiram afrontar as leis que eles têm o dever de aplicar e marcaram uma greve de protesto contra a reforma da Previdência. Também descontentes com os contornos da reforma, líderes sindicais do funcionalismo público invadiram o Congresso Nacional. Para contê-los, foi preciso chamar a tropa de choque, que pela primeira vez na história republicana entrou na sede do Parlamento brasileiro.

O governo precisa não apenas fazer declarações como também dar exemplos melhores. Há algumas semanas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vestiu o boné do MST e, dias depois, seu ministro do Desenvolvimento Agrário foi beber chimarrão com sem-terra num acampamento de nome Che Guevara. Na semana passada, numa atitude muito adequada, ainda que um pouco atrasada, Lula declarou que não vai tolerar o desrespeito à lei. De modo geral, porém, o governo tem deixado a impressão de estar sem a clareza e sem a convicção necessárias para enfrentar a violência e os crimes cometidos pelos militantes. Ministros continuam se referindo aos grupos organizados de invasores de terrenos como "movimentos sociais" e fazem apelos genéricos contra a violência, quando se trata de conter autores contumazes de transgressões. Passado o momento inicial de afirmação, que consumiu o primeiro semestre deste ano, o governo precisa adotar em todas as áreas a mesma agenda inequívoca e sintonizada com o mundo que distingue sua equipe econômica. É preciso deixar claro que não vai mexer nas regras do jogo, que respeitará e fará respeitar os contratos e o direito à propriedade, aprofundando as bases da estabilidade institucional plantadas no governo passado. Só assim o país se manterá no rumo da paz social e da prosperidade econômica.

 
 
 
 
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