Delírio imperial

Reaberto ao público em Roma
o monumental
palácio que custou
a Nero o trono e a vida


Giraudon
Busto de Nero: residência à altura da vaidade


Tudo bem: ele mandou matar a própria mãe, duas esposas, seu preceptor e até São Pedro. Mas que casa construiu para seu deleite! Foi preciso uma mente delirante como a de Nero, imperador romano entre os anos 54 e 68 da era cristã, para conceber o Domus Aurea, o monumental palácio de 300 aposentos que lhe serviu de residência. Reaberta à visitação pública na semana passada, a "casa dourada" ainda evoca a grandiosidade da obra que ganhou a aura de maldita e acabou contribuindo para a derrocada de Nero. A encrenca começou com o grande incêndio de Roma, atribuído desde aquela época à cobiça do imperador, embora muitos historiadores hoje contestem sua autoria. O fato é que o incêndio permitiu a Nero se apropriar de uma área de 1 quilômetro quadrado, no melhor ponto de Roma, para nela construir o palácio que estaria à altura de seus arroubos de grandeza. As paredes eram de mármore, recobertas de pinturas, ouro e madrepérola. Nos jardins, fincou um imenso lago artificial, em cujas margens mulheres da aristocracia se prostituíam, segundo os cronistas romanos, que nunca gostaram muito de Nero. Uma estátua de 45 metros de altura representava o próprio imperador nu. Ele morou pouco tempo no edifício. Deposto, suicidou-se aos 31 anos, com a ajuda de um escravo que lhe cortou a garganta, diante dos legionários encarregados de executar sua pena de morte. Seus sucessores destruíram a obra. Vespasiano aterrou o lago e, no local, construiu o Coliseu. Trajano literalmente enterrou a residência, erguendo sobre ela um conjunto de termas, o tipo de obra pública que agradava ao populacho.

Parte do Domus Aurea foi reaberta depois de uma restauração que já dura vinte anos e deverá consumir pelo menos mais uma década. Até agora, os arqueólogos conseguiram entrar em apenas metade dos cômodos soterrados, dos quais 32 foram restaurados. Entre eles está a mais espetacular das atrações, o salão octogonal, usado para banquetes suntuosos e dotado de uma abertura circular no teto por onde entra a luz natural. No centro do salão havia um piso rotativo, acionado por um sistema hidráulico. Dessa forma, o imperador podia sentar-se no centro da sala e, iluminado pelos céus, girar lentamente para que todos os convidados apreciassem sua majestade. Através da abertura no teto, escravos lançavam pétalas de flores e gotas de perfume. O salão octogonal dá acesso a outras cinco salas de recepção, e, ao fundo delas, Nero mandou construir uma cascata monumental cujas águas, pelo que se depreende da arquitetura, davam a impressão de que um rio corria dentro do palácio. Outras duas fontes do mesmo porte serviam para refrescar os cômodos no verão e, principalmente, impressionar os convidados do imperador. Segundo Suetônio, historiador da época, o ouro estava presente na decoração de todos os cômodos, assim como a madrepérola e o marfim.

Curvas generosas Nero passou à História como o protótipo do imperador cruel e depravado, uma imagem reforçada pelo assassinato da mãe, Agripina (ela própria contumaz mandante de crimes políticos), e do filósofo Sêneca, seu preceptor, além do martírio dos cristãos, incluindo São Pedro. Coroado imperador aos 16 anos, teve, no entanto, um bom início de governo. Era popular e aclamado. Mas queria mesmo era ser reconhecido como artista as cenas de Nero tocando lira e entoando poemas não são mito. O Domus Aurea abrigava uma coleção extraordinária de obras de arte, algumas das quais sobreviveram, foram recuperadas e podem ser vistas pelos visitantes. Entre elas estão parte dos afrescos de Fabulus, o maior pintor da época, que passou anos decorando as paredes do palácio com guirlandas, cenas campestres e mitológicas. Essas pinturas foram apreciadas pela primeira vez no Renascimento, quando parte do Domus Aurea foi descoberta. Na época, Rafael e outros mestres esgueiravam-se pelos cômodos com luz de velas, às vezes usando cordas, como alpinistas, para ver as obras da Antiguidade, que acabaram influenciando a arte da época. Na fachada do edifício, que se estendia por quase 400 metros, havia duas enormes áreas côncavas que serviam como solário, oferecendo proteção contra os ventos. Calcula-se que esses locais abrigassem cerca de 400 esculturas, a maioria surrupiada por Nero na Grécia. Poucas resistiram ao tempo. Entre elas, há dois exemplares notáveis: o Laoconte, que hoje repousa nos museus do Vaticano, e uma estátua de Terpsícore, musa grega da dança.

Victor Sokolowickz
Terpsícore, a musa grega da dança: uma das 400 esculturas que enfeitavam os solários


Nero construiu o Domus Aurea em apenas quatro anos, a um custo astronômico. O dinheiro, é claro, vinha dos impostos, que foram às alturas para alimentar a obra. Como era de esperar, a plebe começou a reclamar. Foi o começo do fim de Nero. Ele se defendia alegando que a culpa pelo incêndio, e pelas despesas públicas extras que ele acarretou, era de uma seita obscura na época, a dos cristãos, sacrificados aos magotes em seu anfiteatro particular. A própria população de Roma, a certa altura, começou a desaprovar a matança de cristãos, a elite reuniu coragem para romper o reinado de terror e, finalmente, Nero foi condenado à morte pelo Senado. O Domus Aurea foi ocupado por apenas quatro anos, mas passou à História como uma construção inovadora. As curvas generosas do salão octogonal contrastavam com o padrão arquitetônico retangular que reinava em Roma na época, enquanto seus afrescos iriam transformar a arte renascentista. Nero podia ser louco, prepotente e assassino, mas pelo menos tinha bom gosto para decorar a casa.

 

 

 

 

 




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