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A vida depois dos 100Antes uma curiosidade, os centenáriossão o grupo que mais cresce no mundo Maurício Cardoso e Sérgio Ruiz Luz Até pouco tempo atrás, os cientistas acreditavam que as pessoas que atingissem
o limite da vida dos seres humanos, estimado em 120 anos, não poderiam
ser consideradas exatamente felizardas. Muito pelo contrário. Na visão
médica, o destino dos indivíduos que ousassem aproximar-se dessa fronteira
era passar o resto dos dias numa cama, sofrendo de doenças paralisantes
como a depressão profunda e o mal de Alzheimer. Várias pesquisas recentes,
porém, estão mudando completamente essa idéia. Por meio da análise de
casos de pessoas centenárias, o principal laboratório utilizado pelos
especialistas para estudar e compreender o fenômeno da longevidade, chegou-se
à conclusão de que o envelhecimento não é necessariamente um processo
de declínio radical da saúde. A maioria dos centenários estudados apresenta
baixas taxas de incidência de doenças mentais, consome menos dinheiro
do sistema de saúde em comparação com as pessoas mais novas, além de manter
até o limite de sua existência uma qualidade de vida bastante aceitável.
"Em vez do ditado 'quanto mais velho, pior', os centenários estão
nos ensinando um novo conceito: 'quanto mais velho, mais saudável'.", afirma o geriatra Thomas Perls, autor do livro
Vivendo até os 100, um dos mais completos estudos já publicados
sobre o assunto.
Existem 135.000 pessoas centenárias no mundo.
Cerca de 9.500 delas vivem no Brasil (veja
quadro). Os centenários representam a faixa etária que cresce
mais rapidamente no mundo hoje. Segundo um levantamento recente da ONU,
a taxa de crescimento dessa fatia da população projetada para os próximos
cinqüenta anos será de 1.530% –
índice seis vezes maior do que o dos indivíduos entre 60 e 79 anos, por
exemplo. Atualmente, a pessoa reconhecida como a mais velha do mundo é
a americana Sarah Clark Knauss, com 117 anos. Ela nunca se preocupou com
dietas especiais. Odeia vegetais e, até pouco tempo atrás, garantia consumir
três tortas de chocolate por dia. Quando perguntada sobre o segredo que
a levou a testemunhar eventos como o naufrágio do Titanic e a pioneira
travessia de avião realizada por Charles Lindbergh sobre o Oceano Atlântico,
ela responde: "Mantenha-se ocupado, trabalhe duro e não se preocupe
com a idade".
Segundo os especialistas isso não basta. A longevidade tem um forte componente genético, dizem eles. Um estudo das famílias de idosos, realizado pelo Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, nos Estados Unidos, detectou que os parentes de centenários possuem quatro vezes mais chance de chegar aos 90 anos de idade do que as pessoas com antepassados que morreram mais jovens. Alguns trabalhos recentes tentam identificar o gene da longevidade. Uma das linhas de pesquisa mais ambiciosas já conseguiu resultados surpreendentes ao dobrar o tempo de vida de ratos e moscas depois de pequenas modificações genéticas. Outros estudos procuram compreender melhor o papel do gene da enzima conversora de angiotensina, ECA, no corpo humano. Sua ação é bastante curiosa. Quanto mais ECA no organismo, maior o risco de alguém morrer de ataque cardíaco. Apesar disso, a incidência desse gene nos centenários é mais alta do que no restante da população. Os especialistas já formularam uma hipótese para essa aparente contradição. "É como se o gene tivesse um papel duplo", afirma Ivana da Cruz, do Instituto de Geriatria e Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. "Se o indivíduo ultrapassar a faixa de idade mais perigosa de incidência da doença, entre 40 e 60 anos, o gene passa a atuar em favor da longevidade." Apesar das evidências genéticas, os fatores ambientais ainda têm um peso fundamental no processo de envelhecimento. Em todas as populações de idosos estudadas no mundo, constatou-se que esses indivíduos praticavam algum tipo de atividade física, tinham baixos níveis de stress e estavam bem integrados à comunidade local. Essa associação de vida saudável e características genéticas favoráveis produz resultados surpreendentes. As mulheres que concebem por volta dos 40 anos de idade, por exemplo, possuem quatro vezes mais chances de chegar aos 100 anos do que o restante da população. Nesse caso, a explicação poderia estar ligada ao estrógeno. A maternidade tardia é um sinal de que o ciclo de produção hormonal pode prolongar-se por mais tempo do que o normal. Os recentes estudos estão revisando até alguns conceitos arraigados sobre a incidência de doenças degenerativas na terceira idade. Antigamente, por exemplo, acreditava-se que 70% dos idosos sofreriam com o mal de Alzheimer. Um levantamento realizado com centenários demonstrou que esse índice era muito menor – 30% nessa faixa de idade. "O grande desafio agora é encontrar as chaves da longevidade, para que esses benefícios possam ser estendidos a todo o restante da população", afirma a geriatra Ivana da Cruz.
Com reportagem de Cristine Prestes, de Porto Alegre
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