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Eles estão entre nósRejeitados na Europa, os
produtos
Se você nunca ouviu falar em transgênicos, guarde bem esse nome. Ele
vai dar muito o que falar nos próximos meses. Plantas transgênicas são
espécies manipuladas em laboratório. Elas recebem genes de bactérias,
fungos ou mesmo de outras plantas, que lhes conferem resistência contra
determinadas pragas e doenças. Patenteada por empresas produtoras de sementes,
como a Monsanto e a Novartis, a novidade promete facilitar e baratear
o cultivo de grãos, mas tem gerado muita polêmica ao redor do mundo. Na
Europa, o clima é de histeria. Organizações que se opõem ao uso dessa
tecnologia boicotam produtos em supermercados e promovem protestos em
praça pública. Agora, a onda começa a chegar ao Brasil. Há dez dias, uma
liminar da Justiça Federal suspendeu o cultivo de soja geneticamente alterada
no país, aprovado pelo Ministério da Agricultura há três semanas. O governador
de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, anunciou que pretende interromper por
cinco anos o plantio desse tipo de grão em seu Estado, seguindo uma providência
já adotada no Rio Grande do Sul. O que pouca gente sabe é que, enquanto
os nervos se exaltam, os transgênicos vão, discretamente, fazendo parte
da vida das pessoas. As prateleiras dos supermercados brasileiros já exibem
dezenas de produtos cuja fórmula contém cereais geneticamente alterados.
Os produtos que ilustram esta reportagem são alguns exemplos. Eles são importados dos Estados Unidos, da França ou da Argentina, países que já cultivam comercialmente grãos transgênicos. Nos Estados Unidos, metade de toda a produção de soja, algodão e milho vem de lavouras geneticamente modificadas. O restante é produzido com sementes convencionais. Da fazenda à fábrica, existem várias etapas, como a armazenagem e o transporte, em que grãos ou óleos de um tipo ou de outro se misturam. A indústria alimentícia simplesmente não pode garantir que nenhum transgênico tenha entrado em sua receita. Por essa razão, cerca de 60% de toda a comida processada nos Estados Unidos já tem algum tipo de matéria-prima de origem transgênica. Estima-se que os alimentos geneticamente alterados sejam consumidos por 2,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo. A rejeição aos transgênicos, principalmente na Europa, baseia-se em três argumentos. O primeiro é que a manipulação genética é antinatural e, por isso, essencialmente danosa. O segundo, que a comida para a qual servem de matéria-prima é perigosa à saúde. O terceiro, que eles fazem mal ao meio ambiente. Ocorre que, até agora, nenhuma pesquisa científica confirmou essas suspeitas de forma séria e definitiva. "Você não vê as pessoas caindo mortas nas ruas", afirma Arnold Foudin, do Departamento Americano de Agricultura, em Maryland, um defensor da novidade. Os opositores alegam que é preciso fazer experimentos de mais longo prazo para confirmar se esses alimentos são mesmo isentos de perigos. "Todas as garantias de segurança alimentar das sementes modificadas se baseiam em testes com ratos, ovelhas e peixes por um período de no máximo dez semanas", afirma Lindsay Keenan, coordenador da organização britânica Genetic Food Alert. "Isso é importante porque tomamos remédios em pequenas doses, mas consumimos alimentos em grandes quantidades", destaca Karen Suassuna, da entidade ambientalista Greenpeace. Suspeitas – Na falta de provas científicas sobre prejuízos à saúde humana, o argumento de maior peso contra os produtos transgênicos é o que diz respeito aos efeitos sobre o meio ambiente. Em maio, a revista Nature publicou os resultados de uma pesquisa da Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Eles mostravam que o pólen do milho transgênico matava as larvas das borboletas monarca. O estudo foi criticado por ter sido feito em laboratório, em condições que não reproduziam as do campo, mas levantou suspeitas sobre o perigo dessas plantas. É preciso levar em conta, porém, que a agricultura é, por definição, nociva ao meio ambiente – seja ela transgênica ou não. O que é mais danoso à ecologia, usar sementes transgênicas ou pulverizar as lavouras com toneladas de pesticidas, como se faz hoje? A julgar pelos números, a campanha contra os transgênicos parece ser uma guerra perdida. Em 1990, não havia um único metro quadrado plantado com esse tipo de semente para fins comerciais. Até o final deste ano, elas estarão em 40 milhões de hectares de lavouras no mundo todo – área maior que a da Alemanha. Entre os países que já autorizaram a comercialização desses grãos estão os três maiores exportadores mundiais de soja – Estados Unidos, Brasil e Argentina –, além de outros grandes produtores, como Austrália, Canadá, China e México. As safras de grãos transgênicos darão aos agricultores um faturamento de 1,8 bilhão de dólares neste ano, valor que deve chegar a 20 bilhões dentro de mais uma década. O dilema, no caso brasileiro, é decidir se se fica a favor dos transgênicos ou contra eles. A autorização para o plantio desse tipo de produto, adotado pelo governo há quase um mês, baseia-se num argumento óbvio. Até agora, todos os grandes concorrentes mundiais do Brasil no comércio agrícola já aderiram à novidade. Proibir os transgênicos, como querem os governadores petistas do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso do Sul, significaria fechar o país a uma tecnologia que pode tornar suas lavouras mais baratas e competitivas. A única vantagem de manter o plantio tradicional, por enquanto, seria a oportunidade de vender para o mercado europeu, valendo-se da histeria lá reinante em torno do assunto. A dimensão da área plantada até agora e a quantidade de produtos de origem transgênica já disponíveis nos supermercados indicam, no entanto, que a vantagem pode ser apenas transitória. Até que consumidores e autoridades se rendam à evidência de que os transgênicos chegaram para ficar.
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