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Dinheiro não é tudoConsultor alemão diz que
Nos últimos dez anos, o economista alemão Roland Berger esteve na ponta de um dos mais impressionantes processos de desmanche e reconstrução econômica. Foi consultor do governo alemão na privatização de várias estatais da antiga Alemanha Oriental. Nessa função ele pôde constatar que a economia estatizada estava em declínio, fadada a quebrar a médio prazo. Foi doloroso quebrá-la e entregar seus pedaços à iniciativa privada. "Mas não havia outra saída. Se a privatização não fosse feita, a Alemanha Oriental iria decair ainda mais", diz Berger. Dono de uma das maiores consultorias empresariais da Europa, Berger mantém escritórios no Brasil desde 1979 e visita o país pelo menos duas vezes por ano. Nesta entrevista a VEJA, ele fala de sua experiência na desestatização da Alemanha Oriental e compara as privatizações feitas no Brasil com as de seu país. Veja – Afinal, a reunificação melhorou mesmo a vida da maioria dos alemães? Roland Berger – Há duas maneiras de responder a isso. Em termos estritamente econômicos, o processo de reunificação foi um sucesso. A renda per capita cresceu 116% na Alemanha Oriental nos últimos anos. O consumo aumentou 58%. Isso ocorreu graças à mudança do socialismo para o capitalismo. O que se vê hoje naquela região é o desenvolvimento de uma economia nova, competitiva, baseada no setor de serviços. É natural que uma mudança como essa seja demorada. Por isso, o governo ainda precisa pagar subsídios para desenvolver o leste do país. Esse é o ponto em que começam a surgir os problemas. Os alemães do leste enriqueceram, têm carros e casas melhores do que há dez anos. Suas roupas são melhores, eles comem melhor, divertem-se, viajam. Mas se sentem perdedores na reunificação. Eles se consideram derrotados porque a riqueza que desfrutam não foi conquistada com esforço, mas concedida pela Alemanha Ocidental. É uma renda basicamente constituída por transferências do lado ocidental. Veja – O senhor quer dizer que o maior entrave para a reunificação não foi econômico, mas psicológico? Berger – A experiência alemã mostra claramente que dinheiro não é tudo. Você não consegue satisfazer um ser humano dando-lhe ajuda financeira. Auto-estima é o verdadeiro motor da satisfação pessoal e social. Todo o conhecimento e a autoconfiança dos alemães orientais foram por água abaixo à medida que o governo desmontava o sistema de valores em que eles se acostumaram a viver. Ao mesmo tempo, eles tomaram conhecimento de outro fenômeno capitalista que lhes era desconhecido: o desemprego. Tudo isso junto levou a uma situação de instabilidade social, que é um problema político para a Alemanha atual. Veja – Como especialista, privatização tem mesmo de resultar em desemprego? Berger – Depende do sistema utilizado. Na Alemanha, cada comprador tem não apenas de fazer uma oferta, mas também apresentar uma idéia clara de seus objetivos para a empresa. Quanto vai investir, que tecnologias vai aplicar e, principalmente, quais seus planos de geração ou manutenção de empregos. Essa é uma característica das privatizações alemãs que poderia ser usada em países como o Brasil. Uma das razões daqueles que se opõem à privatização é o fato de as companhias privatizadas dispensarem muita gente. Com uma política desse tipo seria possível diminuir as demissões. Mesmo quando se privatiza radicalmente. Depois da unificação foi necessário vender até os pequenos negócios que pertenciam ao Estado, como padarias e sapatarias. Muitas indústrias médias e grandes foram primeiro reestruturadas e depois vendidas, o que tornou o processo mais lento e caro. Há muito por fazer. Existem ainda grandes pedaços de companhias a ser privatizados. É o caso da Deutsche Telekom, de telecomunicações, e das ferrovias. Além delas, que foram parcialmente vendidas, ainda temos cerca de 600 companhias federais e 100.000 empresas municipais para ser privatizadas. Veja – Como fazer isso? Berger – Privatizar empresas como as de telecomunicações é relativamente fácil, porque essencialmente você está vendendo monopólios públicos. O governo vai receber um bom dinheiro, quem comprar as empresas terá grandes lucros, mas depois da venda o país vai perder muitos empregos. Eu acredito que o governo precisa perceber que, novamente, o dinheiro não é tudo. Um processo de privatização correto deve exigir do futuro comprador um plano de ação claro. Essencialmente, trata-se de perguntar ao investidor qual será sua contribuição para o país, porque há problemas que não se resolvem apenas pela privatização. Acho que as privatizações são parte de um processo saudável para o Brasil, mas que sofre com alguns erros. As queixas dos brasileiros contra as telefônicas privatizadas são conseqüência de erro. Se o governo tivesse em mãos um projeto de reestruturação, seria possível saber quanto tempo e quanto dinheiro seriam necessários para atingir as metas estabelecidas para a melhoria dos serviços. A população seria comunicada dos problemas que poderiam surgir. As expectativas seriam mais realistas e a imagem dos investidores e das empresas privatizadas não seria danificada. Em vários países europeus esse modelo foi seguido. É um caminho cuja eficiência foi comprovada. Veja – Quais foram os pontos fortes das privatizações latino-americanas? Berger – Acho que os governos europeus deveriam acompanhar os sul-americanos no que diz respeito à desregulamentação. Os europeus têm-se esforçado em ser protecionistas, e por isso todas as reformas que serviriam de apoio à privatização – no sistema de impostos e benefícios sociais, por exemplo – andam lentamente. Nesse caso, países como Argentina e Brasil poderiam mostrar o caminho aos europeus. Eles abriram mais amplamente seus mercados e o Estado realmente saiu das áreas privatizadas. Veja – Há anos representantes do Mercosul e da União Européia discutem a respeito da aproximação dos dois blocos. O que pode atrair os europeus para o Mercosul? Berger – As corporações européias costumam investir em dois tipos de mercados: aqueles consolidados, como Estados Unidos e Japão, e os emergentes. Por um longo tempo, a Ásia tem sido um mercado interessante e atraente. Muitos investimentos ainda estão se encaminhando para a Ásia, mas acredito que o Mercosul é muito promissor para os investidores europeus. Existe um grande potencial de crescimento na região, mesmo comparando-a com outros mercados emergentes. E há nos países do Mercosul uma grande herança européia, que cria afinidades inclusive na cultura de negócios. Muitos grupos econômicos europeus já estão presentes aqui. Por isso há um risco menor envolvido. Paralelamente a isso tudo, a situação atual dá às empresas européias uma oportunidade excelente. Graças às taxas de câmbio, elas podem pagar preços relativamente baixos para investir nesses mercados. Veja – É verdade que nós temos uma herança européia indisfarçável, mas as pessoas têm desejos de consumo muito mais próximos do padrão americano. Como lidar com isso? Berger – Isso também acontece na Europa. Afinal, a economia americana é a maior do mundo. É natural que as pessoas resolvam guiar seu comportamento pelos padrões americanos. Em oposição a isso, do ponto de vista da qualidade de vida a herança européia é mais atraente. Os europeus encontraram um meio bastante inteligente de combinar economia de mercado e paz social. Se você conciliar os dois, e isso é possível, pode ter o melhor de dois mundos. Veja – O mundo está preocupado com a economia dos Estados Unidos. O senhor acredita que os americanos estejam prestes a encerrar o atual período de crescimento? Berger – De modo algum. Os Estados Unidos são líderes absolutos em competitividade e sua economia continua a todo o vapor. Em 1999, espera-se que a economia cresça a uma taxa de 3,5%, alta em comparação com a da maioria dos outros países industrializados. Naturalmente, há sinais de que se deve esperar por uma leve desaceleração. A produção industrial tem crescido pouco desde a segunda metade do ano passado, as empresas estão contratando num ritmo menor e os salários não estão subindo tão rapidamente quanto em 1997. O crescimento econômico vai perder ímpeto. Apesar disso, os Estados Unidos vão continuar líderes. Nenhum outro país tem uma habilidade tão grande para transformar idéias novas em sucessos de mercado. Veja – A introdução do euro não atrapalha a hegemonia americana? Berger – O euro foi bem-sucedido ao criar uma alternativa ao dólar para o mercado internacional, mas ainda não altera esse equilíbrio. Neste ano e no próximo, os Estados Unidos certamente continuarão a ter um crescimento econômico superior ao da média européia. Na Europa é que o euro está mudando a paisagem. Ele melhorou a competitividade das companhias européias, que estão alcançando uma escala de produção comparável à de seus concorrentes americanos e japoneses. Hoje, os europeus têm orçamentos maiores para pesquisa, desenvolvimento e marketing. Veja – Depois de uma série de crises que afetaram os países emergentes, que futuro o senhor vê para eles? Que papel estarão desempenhando na economia mundial daqui a dez anos? Berger – Isso vai depender do comportamento da população dos países emergentes, de sua disposição para trabalhar duro e melhorar a condição do país. É o que os asiáticos estão fazendo. Eles se sentem responsáveis pelo futuro do país. O mesmo parece acontecer na América do Sul. Vai depender muito também dos sistemas políticos e econômicos. É preciso ter governos democráticos, baseados em instituições confiáveis e no livre mercado. Caso cumpram esses requisitos, não vejo por que esses países devam continuar na periferia. Não sei o que vai acontecer daqui a dez, vinte ou quarenta anos, mas posso dizer que o Japão era um país que estava à margem da economia mundial nos anos 50. Hoje, mesmo com a recessão que enfrenta desde 1991, o Japão tem a mais alta renda per capita do mundo. Isso tudo foi construído em quarenta anos. É um alento. Veja – Se o Brasil fosse uma empresa e procurasse sua consultoria, qual seria a orientação? Berger – Em primeiro lugar, eu aconselharia a reduzir a influência do setor público sobre a vida do país. Sugeriria também concentrar os gastos do governo em algumas áreas, como educação e pesquisa científica. Mas algo muito importante é construir uma classe política ética. O Brasil pode esforçar-se em educar a população para que, no futuro, ela possa eleger lideranças políticas éticas. A cultura política no Brasil mudou bastante nos últimos quinze anos de democracia. Mas, como em todo lugar, a classe política ainda está longe daquilo que seria desejável. Veja – A falta de ética na política é um problema comum a todos os países? Berger – Mais ou menos. Você encontra falta de ética e corrupção em todo o mundo, mas a cada escândalo que vem à tona as instituições aumentam sua cobrança. Um exemplo é o que ocorre no Parlamento Europeu: certas práticas tidas como normais por espanhóis ou franceses são encaradas pelos nórdicos como escandalosas. Agora isso faz parte do processo de educação da União Européia. É a formação de padrões éticos comuns. Os padrões globais tendem a se tornar mais e mais similares, porque a presença de empresas transnacionais exige isso. Veja – Isso significa que a corrupção pode ser reduzida em todo o planeta por influência da globalização? Berger – Certamente. Em uma economia global, a corrupção é muito cara. Aumenta os custos das empresas, que precisam ter o melhor preço para concorrer em escala mundial. Por isso elas tendem a resistir quando lhes pedem propina. Veja – Como os investidores estrangeiros encaram a violência e a criminalidade no Brasil? Berger – É um assunto importante. Muita gente teme investir na América do Sul porque pensa que seu pessoal estará ameaçado por criminosos. Na hora de deflagrar um investimento, as empresas precisam de tecnologia, oportunidade e de um mercado maduro. Mas também precisam de pessoas para tocar o negócio. E essas pessoas são um patrimônio importante para a organização. Ninguém quer colocar seu pessoal em situações de risco. Por esse ponto de vista, países como Taiwan ou Coréia do Sul, onde a criminalidade é próxima de zero, são muito mais atraentes do que o Brasil. Veja – Em comparação com outros países emergentes que o senhor conhece, a questão da criminalidade no Brasil é mais grave? Berger – A América do Sul é muito melhor do que a Europa Oriental. Lá, a influência das máfias pode tornar o trabalho impossível. Entre os mercados emergentes, o Brasil é uma região até atraente. A crise é menos profunda do que a da Ásia e o país é próximo de nações estáveis como Argentina e Chile. Tem um ambiente de vida e de trabalho mais atraente do que no Leste da Europa. Uma coisa é certa: o melhor instrumento para prevenir o crime é ter uma população bem-educada. A educação não leva apenas a conhecimento, tecnologia. A população aprende também valores de ética e comportamento. Acho que todas essas coisas são tão importantes quanto o simples conhecimento. O Brasil precisa gerar dinheiro para a educação. Essa é uma parte importante do programa de privatização da Alemanha. Parte do dinheiro arrecadado é investida nos setores sociais. Além disso, os investidores são obrigados a colocar parte do faturamento em pesquisa.
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