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Ponto
de vista: Lya Luft
O menino que me olha
"Procuro dentro de mim um
sentido para
a situação do menininho coberto de sangue,
no colo da mãe fanática e delirante, enquanto
ele olha o fotógrafo, olha para mim que, do
outro lado do mundo, não sei o que lhe dizer,
porque busco, e não encontro, a palavra certa"
Contemplo na revista a foto de um menino bem
pequeno no colo de sua mãe, que o flagela até tirar
sangue (muito sangue) por fanatismo religioso. O menininho olha
o fotógrafo e, portanto, é como se me olhasse,
eu do outro lado do mundo sem saber o que lhe dizer. Me vem à
mente imediatamente a questão de Deus, dos deuses. Questão
inesgotável, por encerrar o sentido desta nossa aflita existência.
Da qual a gente não sabe quase nada o que pode ser
bom.
O que Deus, ou os deuses, tem a ver com isso?
Tem a ver porque a gente imagina que eles conheçam o assunto,
o que de alguma forma nos tranqüiliza: ah, ao menos eles...
O bom de não sabermos todas as coisas é existir alguém
que sabe. O bom de existir alguém que sabe é não
sabermos quem ele é.
Ilustração Ale Setti
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O melhor de tudo é que, mesmo sem entender, se encostarmos
o ouvido na terra, no tronco da árvore, no peito do amado,
na cabecinha de uma criança ou no silêncio de uma noite
muito escura, a gente vai escutar um rumor. Sem palavras, sem significados.
Mas semelhante à arte querendo tocar o sagrado. Porque
tanto a arte como o sagrado buscam o essencial, o silêncio,
a imobilidade e a ausência de cor.
A perfeição, então, seria
o nada?
Talvez. O fascinante de existir é o
não saber, o duvidar, o buscar incessantemente. O querer,
o amar.
A generosidade não é ruidosa.
O acolhimento do amor é tranqüilo. Mas o ódio
também pode ser silencioso. Insidioso, ele se movimenta lentamente
por baixo do tapete, espreita anos a fio detrás das cortinas
e, de repente, explode.
De repente, decapitam-se pessoas. E, na página
da revista, uma mãe flagela sua criança. O espírito
de vingança rói o pé de velhos crucifixos nas
salas de jantar; povos se aniquilam pela loucura de seus governantes;
rouba-se dos velhos, dos doentes, dos miseráveis. O centavo
que lhes é tirado goteja na conta bancária dos que
mereceriam castigo mas rodam pelas ruas em carrões blindados.
Não andamos muito elegantes, nestes
tempos estranhos. Não andamos muito éticos, nestes
tempos loucos. Não que as coisas tenham sido muito melhores
no tempo dos gregos, quando na filosófica Atenas mulher era
pouco mais do que um animal sem alma, era normal ter escravos e
a guerra era o pão nosso. Ou na Idade Média, quando
eu seria no mínimo candidata à fogueira, não
a da inveja mas a concreta mesmo; nossos filhos teriam morrido nas
Cruzadas matando alguém no Oriente (nada de novo na face
da Terra). De modo que não sou nada saudosista, mas, talvez
porque tudo isso se derrama em minha casa pelos jornais, revistas,
TV e computador (por onde também entram e-mails de amigos
e visito tantos belos lugares do mundo), começo a me cansar.
Então, procuro dentro de mim um sentido
para a situação do menininho coberto de sangue, no
colo da mãe fanática e delirante, enquanto ele olha
o fotógrafo, olha para mim que, do outro lado do mundo, não
sei o que lhe dizer, porque busco, e não encontro, a palavra
certa.
Talvez estejamos todos enlouquecendo. Talvez
seja melhor não saber a explicação.
O bom de não sabermos todas as coisas
é existir alguém que sabe. O bom de existir alguém
que sabe é não sabermos quem ele é.
Lya Luft é escritora
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