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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Ele saiu da vida para
entrar na história
Brizola confirma a escrita: brasileiro
odeia os
políticos mas lhes reserva funerais memoráveis
Leonel Brizola teve, nos funerais, o que lhe
faltou em votos nas últimas vezes em que disputou eleições.
Na morte, reencontrou as multidões, os elogios e as adesões
que cada vez mais lhe iam escasseando em vida. Tudo lhe refluiu
a favor. A personalidade autocentrada, que abria pouco espaço
para o diálogo, virou apenas um lado pitoresco, mais um,
do conviva encantador. O tédio pelo discurso repetitivo deu
lugar ao louvor da coerência. E o velho chavão de que
"vai fazer falta" foi aplicado mesmo por quem, até horas
antes, o tinha por político ultrapassado, atolado em alguma
remota década do século passado. Curioso é
o povo brasileiro. Odeia políticos, como comprovam as pesquisas
de opinião. E no entanto devota a eles funerais memoráveis.
Lembremos de Tancredo Neves. Lembremos de
Juscelino Kubitschek, acompanhado ao túmulo por coros de
Peixe Vivo, em plena vigência de uma ditadura que já
o sepultara em vida. Mesmo João Goulart foi enterrado com
surpreendente acompanhamento, apesar de os militares terem imposto
ao cortejo um roteiro estrito, distante dos grandes centros. Isso
sem esquecer Getúlio Vargas, trágico arquiteto da
grandiosidade da própria morte, para quem se armou um funeral
como jamais se vira. Figuras de menor porte, como o ministro Sergio
Motta e o deputado Luís Eduardo Magalhães, para citar
mortos dos últimos anos, também mereceram enterros
prestigiosos. Nessa hora, o povo brasileiro não falta.
Ou falta? Jânio Quadros não mereceu
enterro de ficar na lembrança. Dos generais-presidentes nem
se fala. Eis-nos diante da necessidade de uma correção.
Não são todos os políticos que merecem funerais
consagradores. Há uma seleção. No enterro,
o político se submete a um último veredicto popular.
Alguns são aprovados, outros não. Claro que para tal
julgamento sempre concorre, com forte carga emocional, o inesperado
da morte, a apanhar a vítima em plena atividade. Foi o caso
de Brizola. Contribuem com igual carga as agonias prolongadas, que
convidam a uma maratona de rezas e despertam compaixão. Foi
o caso de Tancredo. Mas, em paralelo a esses fatores, há,
sim, um conteúdo político no enterro dos políticos.
O de JK foi um ato de repúdio ao regime militar. O de Tancredo,
as honrarias a alguém que encarnava a restauração
democrática. Brizola morreu num momento sem a tensão
das ditaduras nem a esperança das auroras democráticas.
Seu funeral, ainda que concorrido e vistoso, não tinha o
que apontar para a frente. A mensagem que continha não era
destinada à política. Era à história.
Brizola desempenhou muitos papéis.
Foi prefeito de Porto Alegre, governador de dois Estados, condestável
de um regime (o de Jango) e besta-fera de outro (o militar). Nenhum
papel foi tão lembrado nestes dias, no entanto, quanto o
que exerceu em seguida à renúncia de Jânio,
em 1961, quando liderou a resistência ao golpe que pretendia
impedir a posse de Jango. Aqueles eram tempos em que a trinca de
cavalheiros fardados que ocupava os ministérios militares
determinava o que podia e o que não podia. A junta dos três,
detentora de papéis tantas vezes lamentáveis, na história
do Brasil, decidiu na ocasião que o vice-presidente, mesmo
legitimamente eleito, não assumiria. Brizola entrincheirou-se
na rede de rádios batizada de Cadeia da Legalidade e neutralizou
o golpe pelo menos, neutralizou-o pela metade, uma vez que
na outra metade se ofereceu aos descontentes a consolação
do parlamentarismo.
No funeral de Brizola, escolheu-se o papel
em que se prefere tê-lo congelado na história. Nada
de insistir no mais que duvidoso desempenho como governador do Rio
de Janeiro, ocasião em que inaugurou a estratégia
de manter a polícia afastada dos morros e com isso deu bom
impulso à violência e ao caos urbano. Enterrou-se o
paladino da legalidade, não o autor de teses como a da prorrogação
do mandato do general Figueiredo, ou da defesa de Fernando Collor.
Nada contra. O ato de 1961, pelo que teve de coragem e de enfrentamento
da praga golpista que tanto assolou o país, pesa mais na
balança do que os erros.
O funeral apontava para a história
também em função dos cenários e da liturgia
que o revestiram. O velório foi no Palácio Guanabara,
onde morou Getúlio. O cortejo passou pelo Palácio
do Catete, onde Getúlio se matou. Por algumas horas, era
o Rio de Janeiro de outros tempos que renascia das cinzas
a capital federal, não a simples capital de uma das unidades
federativas. Em Porto Alegre o esquife pousou no Palácio
Piratini, que foi reduto de Brizola mas também de
Getúlio. Ali teve música e tradições
gaúchas, justa maneira de homenagear os retornados, depois
da canseira de amarrar os cavalos no Obelisco da Avenida Rio Branco.
O enterro foi em São Borja, no mesmo cemitério onde
Getúlio está enterrado. Em cada um de seus passos,
o funeral prestou-se a um ritual de saudade. Até parecia
que se enterrava o velho outra vez. Vai ver, foi isso mesmo o que,
na cabeça de muitos, aconteceu.
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