Edição 1860 . 30 de junho de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Ele saiu da vida para
entrar na história

Brizola confirma a escrita: brasileiro odeia os
políticos mas lhes reserva funerais memoráveis

Leonel Brizola teve, nos funerais, o que lhe faltou em votos nas últimas vezes em que disputou eleições. Na morte, reencontrou as multidões, os elogios e as adesões que cada vez mais lhe iam escasseando em vida. Tudo lhe refluiu a favor. A personalidade autocentrada, que abria pouco espaço para o diálogo, virou apenas um lado pitoresco, mais um, do conviva encantador. O tédio pelo discurso repetitivo deu lugar ao louvor da coerência. E o velho chavão de que "vai fazer falta" foi aplicado mesmo por quem, até horas antes, o tinha por político ultrapassado, atolado em alguma remota década do século passado. Curioso é o povo brasileiro. Odeia políticos, como comprovam as pesquisas de opinião. E no entanto devota a eles funerais memoráveis.

Lembremos de Tancredo Neves. Lembremos de Juscelino Kubitschek, acompanhado ao túmulo por coros de Peixe Vivo, em plena vigência de uma ditadura que já o sepultara em vida. Mesmo João Goulart foi enterrado com surpreendente acompanhamento, apesar de os militares terem imposto ao cortejo um roteiro estrito, distante dos grandes centros. Isso sem esquecer Getúlio Vargas, trágico arquiteto da grandiosidade da própria morte, para quem se armou um funeral como jamais se vira. Figuras de menor porte, como o ministro Sergio Motta e o deputado Luís Eduardo Magalhães, para citar mortos dos últimos anos, também mereceram enterros prestigiosos. Nessa hora, o povo brasileiro não falta.

Ou falta? Jânio Quadros não mereceu enterro de ficar na lembrança. Dos generais-presidentes nem se fala. Eis-nos diante da necessidade de uma correção. Não são todos os políticos que merecem funerais consagradores. Há uma seleção. No enterro, o político se submete a um último veredicto popular. Alguns são aprovados, outros não. Claro que para tal julgamento sempre concorre, com forte carga emocional, o inesperado da morte, a apanhar a vítima em plena atividade. Foi o caso de Brizola. Contribuem com igual carga as agonias prolongadas, que convidam a uma maratona de rezas e despertam compaixão. Foi o caso de Tancredo. Mas, em paralelo a esses fatores, há, sim, um conteúdo político no enterro dos políticos. O de JK foi um ato de repúdio ao regime militar. O de Tancredo, as honrarias a alguém que encarnava a restauração democrática. Brizola morreu num momento sem a tensão das ditaduras nem a esperança das auroras democráticas. Seu funeral, ainda que concorrido e vistoso, não tinha o que apontar para a frente. A mensagem que continha não era destinada à política. Era à história.

Brizola desempenhou muitos papéis. Foi prefeito de Porto Alegre, governador de dois Estados, condestável de um regime (o de Jango) e besta-fera de outro (o militar). Nenhum papel foi tão lembrado nestes dias, no entanto, quanto o que exerceu em seguida à renúncia de Jânio, em 1961, quando liderou a resistência ao golpe que pretendia impedir a posse de Jango. Aqueles eram tempos em que a trinca de cavalheiros fardados que ocupava os ministérios militares determinava o que podia e o que não podia. A junta dos três, detentora de papéis tantas vezes lamentáveis, na história do Brasil, decidiu na ocasião que o vice-presidente, mesmo legitimamente eleito, não assumiria. Brizola entrincheirou-se na rede de rádios batizada de Cadeia da Legalidade e neutralizou o golpe – pelo menos, neutralizou-o pela metade, uma vez que na outra metade se ofereceu aos descontentes a consolação do parlamentarismo.

No funeral de Brizola, escolheu-se o papel em que se prefere tê-lo congelado na história. Nada de insistir no mais que duvidoso desempenho como governador do Rio de Janeiro, ocasião em que inaugurou a estratégia de manter a polícia afastada dos morros e com isso deu bom impulso à violência e ao caos urbano. Enterrou-se o paladino da legalidade, não o autor de teses como a da prorrogação do mandato do general Figueiredo, ou da defesa de Fernando Collor. Nada contra. O ato de 1961, pelo que teve de coragem e de enfrentamento da praga golpista que tanto assolou o país, pesa mais na balança do que os erros.

O funeral apontava para a história também em função dos cenários e da liturgia que o revestiram. O velório foi no Palácio Guanabara, onde morou Getúlio. O cortejo passou pelo Palácio do Catete, onde Getúlio se matou. Por algumas horas, era o Rio de Janeiro de outros tempos que renascia das cinzas – a capital federal, não a simples capital de uma das unidades federativas. Em Porto Alegre o esquife pousou no Palácio Piratini, que foi reduto de Brizola – mas também de Getúlio. Ali teve música e tradições gaúchas, justa maneira de homenagear os retornados, depois da canseira de amarrar os cavalos no Obelisco da Avenida Rio Branco. O enterro foi em São Borja, no mesmo cemitério onde Getúlio está enterrado. Em cada um de seus passos, o funeral prestou-se a um ritual de saudade. Até parecia que se enterrava o velho outra vez. Vai ver, foi isso mesmo o que, na cabeça de muitos, aconteceu.

 
 
 
 
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