Edição 1860 . 30 de junho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
É difícil ser super-herói

O Homem-Aranha descobre quanto
o poder isola, numa ótima continuação


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
O Homem-Aranha (Tobey Maguire) voa acima do Chrysler Building, em Nova York, enquanto o vilão Doc Ock (Alfred Molina, à direita) ameaça a cidade: humor e ação a serviço de um herói trágico

EXCLUSIVO ON-LINE
Imagens
Curiosidades
Papel de parede
DA INTERNET
Trailer do filme

Uma lesão nas costas, um desentendimento por causa de salário e várias falhas de comunicação entre seus agentes e o estúdio quase fizeram com que o ator Tobey Maguire fosse demitido de Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, Estados Unidos, 2004) – uma continuação em que a câmera do diretor Sam Raimi é ainda mais inventiva do que no original de dois anos atrás, o vilão é consideravelmente mais interessante que o Duende Verde do primeiro filme e o roteiro revela audácia e inteligência em doses normalmente consideradas letais para as megaproduções de estúdio. Não obstante todas essas qualidades, o filme – que estréia nesta sexta-feira no país – teria sofrido uma perda inestimável com a substituição de seu protagonista. Maguire domina todo o espectro de sentimentos da mortificação à mágoa, passando pela dúvida, inadequação e solidão – justamente os sentimentos que fazem do jovem Peter Parker um personagem único. Se no filme anterior Peter experimentava a elação de se descobrir dotado de superpoderes que poderiam, talvez, tirá-lo de sua condição de adolescente impopular, agora ele se defronta com a constatação de que o poder é tão ou mais capaz de provocar isolamento. Derrotar o enlouquecido Doc Ock – que antes de se tornar uma combinação de homem com tentáculos mecânicos era Otto Octavius, um cientista íntegro e talentoso – é, portanto, o menor de seus desafios. Muito mais complicado é persuadir-se de que, para cumprir sua missão, vale a pena viver sob disfarce, abrir mão de amigos, família e namorada – da vida, enfim – e se ver como um covarde e um relapso nos olhos das pessoas queridas. Não há super-herói mais infeliz e marcado pela culpa do que o Homem-Aranha, e não há outro ator capaz de cooptar tão completamente o espectador quanto Maguire. Enquanto a câmera carrega a platéia junto com o Homem-Aranha pelas alturas de Nova York, em terra é o ator que a leva pela mão.

Não que Homem-Aranha 2 tenha encolhido, como espetáculo, para abrir espaço para a tragédia pessoal de Peter Parker. Ao contrário. Sempre um diretor exuberante e afinado com as expectativas de seu público, Sam Raimi se supera aqui. Desde a seqüência de abertura – uma quadrinização do primeiro episódio – aos vôos de Peter entre os arranha-céus e a fabulosa cena em que ele pára com sua teia um trem que Doc Ock (interpretado com gosto pelo inglês Alfred Molina) desgovernou, Raimi cumpre à risca o seu contrato de entregar um grande filme de ação, feito com prazer evidente. E também com estilo: não há uma tomada que não tenha sido pensada como um quadrinho, o que faz desta a primeira adaptação plenamente bem-sucedida da linguagem da HQ para o cinema, e de longe a mais impactante.

As pretensões do diretor, porém, vão além. Não por acaso ele pediu a Michael Chabon, uma das estrelas da nova literatura americana, que escrevesse o argumento de Homem-Aranha 2, e requisitou Alvin Sargent, de Gente como a Gente, para roteirizá-lo. O trabalho do Homem-Aranha é voar a algumas dezenas de metros do chão, mas é nele que se desenrolam os problemas de Peter Parker – o afastamento de Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), a hostilidade de seu amigo Harry (James Franco), que o culpa por não encontrar o assassino de seu pai, e as dificuldades financeiras da tia. Acima de tudo, Peter luta com o seu senso de responsabilidade, que o impele a usar seus superpoderes, e com o desejo de renegá-los para voltar a ser uma pessoa só, em vez de duas tão diversas e conflitantes. Peter é agora uma espécie de Hamlet pop: um jovem que necessita da dissimulação e que é envenenado por ela, e que chega finalmente à verdade que faz dos heróis figuras trágicas – por mais poder que tenham, ele não é o bastante para que se controle o próprio destino. Sam Raimi quis provar (e conseguiu) que ação e drama não precisam viver em apartheid. Eles podem existir um a partir do outro e alimentar-se mutuamente até num ambiente geralmente tido como o mais estéril de todos – o cinema feito para dar dinheiro.

 
 
 
 
topo voltar