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Cinema
É difícil ser super-herói
O Homem-Aranha descobre quanto
o poder isola, numa ótima continuação

Isabela Boscov
Fotos divulgação
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| O Homem-Aranha (Tobey Maguire)
voa acima do Chrysler Building, em Nova York, enquanto o vilão
Doc Ock (Alfred Molina, à direita) ameaça a cidade: humor
e ação a serviço de um herói trágico |
Uma lesão nas costas, um desentendimento
por causa de salário e várias falhas de comunicação
entre seus agentes e o estúdio quase fizeram com que o ator
Tobey Maguire fosse demitido de Homem-Aranha 2 (Spider-Man
2, Estados Unidos, 2004) uma continuação
em que a câmera do diretor Sam Raimi é ainda mais inventiva
do que no original de dois anos atrás, o vilão é
consideravelmente mais interessante que o Duende Verde do primeiro
filme e o roteiro revela audácia e inteligência em
doses normalmente consideradas letais para as megaproduções
de estúdio. Não obstante todas essas qualidades, o
filme que estréia nesta sexta-feira no país
teria sofrido uma perda inestimável com a substituição
de seu protagonista. Maguire domina todo o espectro de sentimentos
da mortificação à mágoa, passando pela
dúvida, inadequação e solidão
justamente os sentimentos que fazem do jovem Peter Parker um personagem
único. Se no filme anterior Peter experimentava a elação
de se descobrir dotado de superpoderes que poderiam, talvez, tirá-lo
de sua condição de adolescente impopular, agora ele
se defronta com a constatação de que o poder é
tão ou mais capaz de provocar isolamento. Derrotar o enlouquecido
Doc Ock que antes de se tornar uma combinação
de homem com tentáculos mecânicos era Otto Octavius,
um cientista íntegro e talentoso é, portanto,
o menor de seus desafios. Muito mais complicado é persuadir-se
de que, para cumprir sua missão, vale a pena viver sob disfarce,
abrir mão de amigos, família e namorada da
vida, enfim e se ver como um covarde e um relapso nos olhos
das pessoas queridas. Não há super-herói mais
infeliz e marcado pela culpa do que o Homem-Aranha, e não
há outro ator capaz de cooptar tão completamente o
espectador quanto Maguire. Enquanto a câmera carrega a platéia
junto com o Homem-Aranha pelas alturas de Nova York, em terra é
o ator que a leva pela mão.
Não que Homem-Aranha 2 tenha
encolhido, como espetáculo, para abrir espaço para
a tragédia pessoal de Peter Parker. Ao contrário.
Sempre um diretor exuberante e afinado com as expectativas de seu
público, Sam Raimi se supera aqui. Desde a seqüência
de abertura uma quadrinização do primeiro episódio
aos vôos de Peter entre os arranha-céus e a
fabulosa cena em que ele pára com sua teia um trem que Doc
Ock (interpretado com gosto pelo inglês Alfred Molina) desgovernou,
Raimi cumpre à risca o seu contrato de entregar um grande
filme de ação, feito com prazer evidente. E também
com estilo: não há uma tomada que não tenha
sido pensada como um quadrinho, o que faz desta a primeira adaptação
plenamente bem-sucedida da linguagem da HQ para o cinema, e de longe
a mais impactante.
As pretensões do diretor, porém,
vão além. Não por acaso ele pediu a Michael
Chabon, uma das estrelas da nova literatura americana, que escrevesse
o argumento de Homem-Aranha 2, e requisitou Alvin Sargent,
de Gente como a Gente, para roteirizá-lo. O trabalho
do Homem-Aranha é voar a algumas dezenas de metros do chão,
mas é nele que se desenrolam os problemas de Peter Parker
o afastamento de Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), a hostilidade
de seu amigo Harry (James Franco), que o culpa por não encontrar
o assassino de seu pai, e as dificuldades financeiras da tia. Acima
de tudo, Peter luta com o seu senso de responsabilidade, que o impele
a usar seus superpoderes, e com o desejo de renegá-los para
voltar a ser uma pessoa só, em vez de duas tão diversas
e conflitantes. Peter é agora uma espécie de Hamlet
pop: um jovem que necessita da dissimulação e que
é envenenado por ela, e que chega finalmente à verdade
que faz dos heróis figuras trágicas por mais
poder que tenham, ele não é o bastante para que se
controle o próprio destino. Sam Raimi quis provar (e conseguiu)
que ação e drama não precisam viver em apartheid.
Eles podem existir um a partir do outro e alimentar-se mutuamente
até num ambiente geralmente tido como o mais estéril
de todos o cinema feito para dar dinheiro.
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