|
|
Especial
A descoberta do talento
Concentrar esforços naquilo que se
faz bem é a maior ferramenta para
o sucesso no mundo das profissões

João Gabriel de Lima30 de junho, 2004
veja
O talento não pode mais ser confundido
com genialidade ou com aptidões e dons inatos. Hoje os especialistas
admitem que os talentos são de vários tipos e, melhor,
os mais valorizados deles podem ser identificados e desenvolvidos
pelas pessoas. Talento é quase um mantra no mundo das empresas.
Criou-se uma especialidade chamada "gestão de talentos".
As companhias se preocupam em reter seus talentos, pois eles são
considerados o principal capital na "era do conhecimento"
que, aliás, também é definida como "era do
talento". Dez entre dez gurus na área de recursos humanos
dizem que o que determina as promoções, dentro das
empresas, não é mais o currículo, mas o talento
de um profissional. Ou seja, reciclar-se é importante, ter
experiência idem, mas não é isso que desempata
na hora em que surge uma oportunidade. "Algum talento todo mundo
tem. O principal é descobrir qual é o seu e saber
usá-lo", diz o consultor Luiz Wever, um dos diretores da
empresa Ray & Berndtson no Brasil, especializada em gestão
de talentos. O mundo real mostra que ele tem razão. As histórias
de sucesso profissional em geral apresentam um enredo parecido.
São sagas de alguém que identificou algo que sabe
fazer bem, conseguiu canalizar esse dom para a carreira e, principalmente,
descobriu que essa sua qualidade estava sendo muito valorizada no
mercado de trabalho.
Oscar Cabral
 |
| Maria Célia de Andrade, com o diretor do Hospital
Copa D'Or, João Pantoja (ao fundo): unindo medicina com
técnicas de administração |
|
|
O dicionário Aurélio define
talento como "aptidão natural, ou habilidade adquirida".
No mundo do trabalho, a segunda definição está
se tornando a mais animadora. Com a maioria das tarefas mecânicas
e repetitivas deixada para as máquinas e os computadores,
a capacidade humana de inovar, adquirir e somar conhecimento e aptidões
está se tornando a cada dia mais decisiva. O precursor dos
estudos que hoje permitem às empresas colocar o talento individual
e o coletivo de seus funcionários a serviço de objetivos
definidos foi o psicólogo americano David McClelland. Nos
anos 70, ele foi chamado para realizar uma pesquisa com o serviço
diplomático americano. O governo dos Estados Unidos queria
saber por que alguns embaixadores eram mais bem-sucedidos do que
outros, tendo todos praticamente a mesma formação.
McClelland foi a campo entrevistar os diplomatas. Nos questionários,
privilegiava as situações concretas de trabalho. Sua
conclusão foi que determinadas atitudes evidenciavam traços
de personalidade ou de caráter. Alguns demonstravam capacidade
de liderança, outros raciocínio lógico, ou
criatividade, ou sociabilidade, ou espírito empreendedor,
e assim por diante. Essas características, mais do que o
currículo ou o QI, faziam a diferença na hora de lidar
com as situações mais definidoras do sucesso na profissão.
McClelland chamou essas qualidades de "competências" e publicou
suas conclusões em um artigo intitulado "Testing for competence
rather than intelligence" (Avaliando a competência em vez
da inteligência), datado de 1973. Até hoje o termo
"competência" que equivale rigorosamente ao que o Aurélio
chama de talento é empregado pelos especialistas
em recursos humanos.
No Brasil, essa corrente de pensamento ganhou
força a partir de 1994, com a estabilidade econômica
e a abertura comercial. "As empresas tiveram de se tornar competitivas
e os profissionais de talento passaram a ser cada vez mais importantes
para o sucesso dos empreendimentos, especialmente quando é
vital se destacar da média", diz Joel Souza Dutra, professor
da Faculdade de Economia e Administração da Universidade
de São Paulo e especialista no assunto.
Selmy Yassuda
 |
 |
| José Roberto Braga, da Esso: em seu novo status
na empresa, ele responde diretamente à matriz, nos Estados Unidos
|
|
A Catho, empresa de consultoria na área
de recursos humanos, acaba de fazer uma pesquisa com a finalidade
de descobrir quanto vale cada modalidade de talento. Foram distribuídos
questionários, via internet, a cerca de 3.000
profissionais de diferentes áreas e níveis hierárquicos.
Identificadas as competências, elas foram cruzadas com os
salários dos entrevistados, com o intuito de aferir quais
eram as mais valorizadas no mercado. Outra conclusão interessante
da pesquisa, à qual VEJA teve acesso com exclusividade, é
que a maior parte dos profissionais não possui apenas um
talento, mas grupos deles, num padrão que se repete a ponto
de definir claramente cinco perfis psicológicos. Por exemplo,
quem é criativo costuma ser também comunicativo, estrategista
e persuasivo. Um profissional dotado de liderança em geral
é também ambicioso e competitivo, e assim por diante.
"O curioso é que essas combinações de competências
não foram induzidas. Elas apareceram na fase de tabulação
e de certa maneira nos surpreenderam", diz o americano Thomas Case,
fundador do grupo Catho e coordenador da pesquisa. Os perfis são,
na ordem de valorização pelo mercado de trabalho:
assertivo, empreendedor, analítico, sociável e disciplinado.
Com base nessa tipologia, a psicóloga Tania Casado, diretora
do Centro de Carreiras da Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo, produziu um teste por meio
do qual o leitor pode saber em qual dos cinco perfis se encontra
o forte de suas aptidões (veja
o teste). O site de VEJA disponibiliza um teste que
revela quanto o profissional merece ganhar em função
de seus talentos.
Paulo Giandalia
 |
 |
| Michiel Helfrich, diretor executivo do Banco
Real, com Juliana Rios: a facilidade para tomar decisões possibilitou
a ascensão rápida |
|
Os dois perfis profissionais mais valorizados
pela pesquisa são aqueles definidos por "assertivo" e "empreendedor".
Esses resultados dizem muito sobre as características do
trabalho no mundo atual, corroborando, de certa forma, o que pregam
os principais teóricos da área. Em um artigo publicado
pela revista The Economist, o austríaco Peter Drucker,
um dos mais respeitados estudiosos do mundo do trabalho, lembra
que hoje, na maioria dos países, os operários fabris
constituem de 25% a 40% apenas da força de trabalho. Estima-se
que em 2020 esse número caia para uma faixa entre 10% e 12%
o que irá configurar uma economia quase que totalmente
calcada na criatividade e no talento. O mundo caminha para uma economia
terciária e nesse contexto, mesmo dentro das empresas,
é cada vez mais valorizado o profissional que pensa seu ofício
como um serviço a ser prestado. Não apenas atendendo
os clientes externos, mas também os de dentro da própria
companhia, numa lógica em que uma área, ou departamento,
"vende" um determinado serviço a outro. Espera-se de um profissional
que aja como se fosse o dono de um pequeno negócio, que é
a área que lhe cabe dentro da empresa. Em seu nicho, ele
deve visualizar novas oportunidades, inventar novas maneiras de
ganhar dinheiro, além de eventualmente propor idéias
em outras áreas. O que bate exatamente com os perfis do líder
e do empreendedor. A chamada era corporativa, na qual cada funcionário
tinha tarefas bem definidas e obedecia a uma hierarquia previamente
estabelecida, dá lugar à chamada era do conhecimento,
em que iniciativa e criatividade contam muito mais do que antes.
Para sobreviver nesse mercado, além
de ser empreendedor e ter espírito de liderança, o
profissional precisa conhecer também os talentos que o diferenciam
e investir neles. Por isso, são cada vez mais populares os
testes de personalidade voltados para a área profissional.
O mais utilizado nos Estados Unidos é o Myers-Briggs Type
Indicator (MTBI), que categoriza dezesseis perfis profissionais
com base na tipologia desenvolvida no início do século
XX pelo psicólogo suíço Carl Gustav Jung. No
Brasil, a professora Tania Casado, da Universidade de São
Paulo, desenvolveu o diagnóstico de tipo psicológico
(DTP), também baseado na obra de Jung. "Nos dias de hoje,
o autoconhecimento é uma ferramenta importantíssima
para o desenvolvimento profissional, e os testes ajudam o profissional
nesse sentido", diz ela.
Selmy Yassuda
 |
| Nadiomar e Sérgio (de pé) com Luiz
Henrique Mendes, gerente de mercado do McDonald's: talentos
revelados num programa da empresa |
|
|
A maior parte das pessoas ignora os próprios
talentos e raramente descobre quanto eles podem vir a ser valorizados
no mercado de trabalho. A descoberta, em geral, se dá no
dia-a-dia da profissão (veja quadros ao longo desta reportagem).
Entre profissionais recentemente promovidos e entrevistados por
VEJA, quase todos demonstram pelo menos alguma dose de liderança
ou empreendedorismo. O advogado Luiz Fernando Valente de Paiva,
que desenvolveu o setor de falências dentro do escritório
Pinheiro Neto Advogados, e o economista José Roberto Braga,
que coordenou a campanha da gasolina vermelha para a Esso do Brasil,
possuem nítido perfil empreendedor. Já o executivo
João Ramires, diretor de uma das fábricas da Coca-Cola
no Brasil, e a administradora de empresas Juliana Rios, superintendente
de planejamento e controle do Banco Real, são dois líderes
natos. Às vezes, no entanto, uma competência pouco
valorizada se torna o diferencial que alavanca a carreira de um
profissional. Na pesquisa da Catho, o perfil "disciplinado" é
o menos valorizado pelo mercado. Foi a capacidade de organização,
no entanto, que garantiu o sucesso da médica carioca Maria
Célia de Andrade, de 32 anos. Durante quatro anos ela trabalhou
na unidade de terapia semi-intensiva do Hospital Copa D'Or, no Rio
de Janeiro. Quando foi chamada para coordená-la, resolveu
montar um banco de dados sobre a unidade. Através dele, descobriu
quais os tipos de doença mais freqüentes, além
das faixas etárias e procedência dos internos. "A partir
disso, conseguimos melhorar o atendimento adequando-o às
necessidades dos pacientes", diz ela, que hoje comanda uma equipe
de dezesseis médicos. Ao talento organizativo, juntou o espírito
empreendedor. Ela pensou em seu nicho, a unidade de terapia semi-intensiva,
como um negócio independente, destinado a prestar serviços
não apenas para os pacientes, mas também para outras
áreas do hospital, como a UTI.
Oscar Cabral
 |
| Claudia Fayad com seu chefe, Andrew Cordery:
a disposição para assumir responsabilidades fez a diferença
|
|
|
As histórias de sucesso apresentam outro
ponto comum: o aproveitamento de uma chance, mesmo que, no princípio,
ela não se apresente como tal. "Pessoas inteligentes são
aquelas que fazem das dificuldades oportunidades", acha o aeroviário
Wandrei Passetto, da companhia aérea Gol, conhecido na empresa
pelo apelido de Xandó. Ele próprio é um caso
emblemático: gerente da empresa no Aeroporto de Congonhas,
tinha como desafio motivar uma equipe extremamente jovem, formada
em sua maioria por profissionais entre 18 e 21 anos. Parte de seu
sucesso se deveu ao fato de transformar o embarque numa festa. Criou
eventos banda de música tocando em algumas ocasiões,
funcionários fantasiados nos dias de Carnaval e Halloween,
entre outras coisas. O sucesso foi tanto a equipe, motivada,
cumpriu todos os objetivos traçados que Xandó
foi promovido a gerente-geral de aeroportos. A trajetória
da engenheira química Claudia Fayad também passa pelo
provérbio popular "transformar um limão numa limonada".
Especialista em informática, Claudia foi convocada a criar
um site de relacionamento dentro da companhia em que trabalha, a
Souza Cruz. Além de fabricar cigarros, a Souza Cruz exporta
fumo, e o site era destinado a dar informações aos
compradores externos. Para desenvolver o projeto, escalou-se uma
equipe com dois gerentes de negócios, um especialista na
área de exportação e um gerente de informática
a própria Claudia. Em alguns meses, três dos
quatro integrantes da força-tarefa deixaram a empresa por
diferentes razões. Claudia resolveu assumir o comando da
operação. O resultado foi tão bom que ela recebeu
uma promoção. Hoje lidera uma equipe de consultores
de informática que abarca as áreas jurídica,
financeira, de comunicação e de recursos humanos da
empresa.
Cris Vilares
 |
| Celso Mori, integrante do grupo executivo
do escritório Pinheiro Neto, foi o descobridor de Luiz Fernando
(à dir.): criatividade no exercício da advocacia |
|
|
Em todos os episódios acima, o profissional
descobriu seu talento no momento em que enfrentou um desafio. Às
vezes, no entanto, a revelação ocorre com a ajuda
de alguém. Por exemplo, o chefe. A engenheira de produção
Elaine Santana começou na indústria química
Braskem trabalhando na área tecnológica, na qual investiu
a maior parte de sua formação. Seu gerente, Luís
Falcon, viu na funcionária uma pessoa carismática,
sociável e com alta capacidade de persuasão. Confiou-lhe,
então, uma tarefa estratégica: conscientizar os diversos
setores da empresa da necessidade de adotar procedimentos para diminuir
a tonelagem de lixo industrial. Ela se reuniu com gente de todos
os setores da companhia e conseguiu que, no todo, a Braskem fizesse
um progresso considerável nesse campo. Ganhou aumentos e
prêmios, e é considerada nome certo para uma próxima
promoção. Na mesma linha do talento relacionado com
sociabilidade estão os gerentes de restaurante Nadiomar Farias
de Souza e Sérgio Luiz de Oliveira, do McDonald's do Rio
de Janeiro. Eles passaram por uma bateria de testes e entrevistas
feitos por uma empresa de consultoria, que constatou que ambos possuíam
um talento especial para treinar e desenvolver pessoas. Fez-se uma
pesquisa de clima nas lojas que os dois gerenciavam, e o resultado
foi que havia uma combinação entre alta lucratividade
e ambiente de trabalho agradável. Nadiomar e Sérgio
saíram da gerência para ocupar atualmente uma posição
no staff da empresa. Trabalham, como não poderia deixar de
ser, como consultores de recursos humanos.
Reginaldo Teixeira
 |
| Eduardo Baraibar, vice-presidente de finanças
da Coca-Cola, com João Ramires: patrono de uma carreira meteórica
na multinacional |
|
|
O dilema de muitas empresas é exatamente
esse que o McDonald's solucionou com ajuda externa. Como o talento
é algo imaterial e, em larga medida, subjetivo, às
vezes é difícil reconhecer e mensurar. Algumas empresas
utilizam avaliações com entrevistas, em geral calcadas
no modelo desenvolvido nos anos 70 pelo próprio David McClelland,
mas são minoria. Isso significa que elas dependem basicamente
da sensibilidade de seus gerentes para identificar os talentos e
promovê-los. É claro que a avaliação
dos chefes, mesmo os mais bem-intencionados, tem também altas
doses de subjetividade. "Na hora de escolher alguém para
comandar a área de terapia semi-intensiva do Copa D'Or, fiquei
em dúvida entre dois profissionais. Decidi pela Maria Célia
mais por intuição, e acabou sendo a aposta certa",
diz o médico João Pantoja, diretor do hospital. Além
de o talento ser subjetivo e o ser humano, falível, existem
também obviamente os chefes mal-intencionados, que promovem
por amizade, por razões políticas ou por qualquer
outra finalidade escusa. Todo profissional está sujeito a
ter uma pedra assim no meio da carreira. Culpar o chefe por algum
atraso na evolução profissional, no entanto, é
uma estratégia que na maior parte dos casos apenas mascara
as razões do problema. Sentir-se mal aproveitado na empresa
em que se trabalha é normal. Atribuir a responsabilidade
a outra pessoa ou à estrutura é um erro. Simplesmente,
os talentos mais necessários à empresa podem ser de
tipo diferente daqueles do insatisfeito. Ter talento, nesse caso,
é fazer um auto-exame. Conscientizar-se das próprias
competências é uma atitude cuja importância só
agora começa a ser entendida e praticada. O esforço
de autoconhecimento vale a pena. Os diversos talentos tornaram-se
uma das maiores armas de sucesso de um profissional. Conhecê-los
e cultivá-los, seu maior patrimônio.
Cris Vilares
 |
| Tarcísio Gargioni, vice-presidente de marketing
da Gol, com Xandó e uma das integrantes de sua equipe: transformando
o embarque num espetáculo |
|
|
|