Edição 1860 . 30 de junho de 2004

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Diogo Mainardi
O brasileiro é um vegetal

"O reconhecimento das limitações nacionais
é altamente benéfico. Causamos muito mais
estragos nos momentos de euforia do que
quando admitimos nossa irremediável inaptidão"

Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro em 1925. Passou uma semana na cidade. Coleciono diários de viagem de estrangeiros ilustres ao Brasil. O de Einstein eu não conhecia. Foi editado recentemente por Alfredo Tiomno Tolmasquim, com o título Einstein: o Viajante da Relatividade na América do Sul.

Quanto mais superficial e preconceituoso é o viajante estrangeiro, mais chance ele tem de compreender o Brasil. Einstein foi superficial e preconceituoso na medida certa. Admirou-se com nossa mistura étnica, acrescentando que fomos gerados espontaneamente, "como plantas, subjugados pelo calor". A idéia de que os brasileiros são iguais a plantas é um tanto ofensiva, mas de difícil confutação. O meio científico nacional da época não via a miscigenação como um fator definitivo. Os especialistas com quem Einstein conversou, durante a viagem, garantiram-lhe que o Brasil se tornaria progressivamente mais branco, já que as características negras desapareceriam com o tempo, devido à inferioridade genética dos mestiços. Einstein, em seu diário, anotou que nossos catedráticos eugenistas eram irrelevantes e tolos: "Acredito que essa tolice tenha a ver com o clima". O clima quente e úmido do Rio de Janeiro, para Einstein, amolecia as pessoas e levava-as a crer em bobagens como a telepatia. "A vida de um europeu é mais rica, sobretudo menos utópica e nebulosa."

Assim que desembarcou no Rio de Janeiro, Einstein foi obrigado a comprar um fraque, para poder participar de um encontro com o presidente Arthur Bernardes. O encontro oficial mereceu uma única linha em seu diário: "À tarde, visita ao presidente, ministro da Educação e prefeito". Em outra ocasião, ele comentou: "Visita a ministros, graças a Deus na maioria ausentes". Além da tolice de nossos catedráticos, portanto, Einstein logo se deu conta da vacuidade de nossos políticos. O público comparecia em massa às suas palestras, em salas rumorosas e pouco ventiladas, mas ninguém entendia suas palavras, por absoluta falta de conhecimento científico: "Para eles, sou um elefante branco; eles, para mim, são uns tolos". Apesar disso, o Brasil pode se vangloriar de ter tido um pequeno papel na carreira de Einstein. A teoria da relatividade ganhou sua primeira confirmação empírica na cidade cearense de Sobral, onde cientistas ingleses fotografaram algumas estrelas num eclipse solar. Depois de confirmar a teoria da relatividade, Sobral ainda legou à humanidade a dinastia política de Ciro Gomes.

Ao sair do Brasil, Einstein declarou-se "finalmente livre, porém mais morto do que vivo". Ele não foi o único viajante estrangeiro a levar uma má impressão do país. Quase todos os que passaram por aqui nos esculhambaram em seus diários. Com argumentos semelhantes aos de Einstein: a tolice de nossos catedráticos, a nebulosidade de nossos políticos, o aspecto vegetal de nosso povo, o amolecimento de nosso caráter, a miséria de nossas utopias. O reconhecimento das limitações nacionais é altamente benéfico. Causamos muito mais estragos nos momentos de euforia, quando acreditamos em nós mesmos, do que quando admitimos nossa irremediável inaptidão. Por isso, lembre-se sempre de Einstein: a gente é igual a planta.

 
 
 
 
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