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Diogo
Mainardi
O brasileiro é um vegetal
"O reconhecimento das limitações
nacionais
é altamente benéfico. Causamos muito mais
estragos nos momentos de euforia do que
quando admitimos nossa irremediável inaptidão"
Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro em
1925. Passou uma semana na cidade. Coleciono diários de viagem
de estrangeiros ilustres ao Brasil. O de Einstein eu não
conhecia. Foi editado recentemente por Alfredo Tiomno Tolmasquim,
com o título Einstein: o Viajante da Relatividade na América
do Sul.
Quanto mais superficial e preconceituoso é
o viajante estrangeiro, mais chance ele tem de compreender o Brasil.
Einstein foi superficial e preconceituoso na medida certa. Admirou-se
com nossa mistura étnica, acrescentando que fomos gerados
espontaneamente, "como plantas, subjugados pelo calor". A idéia
de que os brasileiros são iguais a plantas é um tanto
ofensiva, mas de difícil confutação. O meio
científico nacional da época não via a miscigenação
como um fator definitivo. Os especialistas com quem Einstein conversou,
durante a viagem, garantiram-lhe que o Brasil se tornaria progressivamente
mais branco, já que as características negras desapareceriam
com o tempo, devido à inferioridade genética dos mestiços.
Einstein, em seu diário, anotou que nossos catedráticos
eugenistas eram irrelevantes e tolos: "Acredito que essa tolice
tenha a ver com o clima". O clima quente e úmido do Rio de
Janeiro, para Einstein, amolecia as pessoas e levava-as a crer em
bobagens como a telepatia. "A vida de um europeu é mais rica,
sobretudo menos utópica e nebulosa."
Assim que desembarcou no Rio de Janeiro, Einstein
foi obrigado a comprar um fraque, para poder participar de um encontro
com o presidente Arthur Bernardes. O encontro oficial mereceu uma
única linha em seu diário: "À tarde, visita
ao presidente, ministro da Educação e prefeito". Em
outra ocasião, ele comentou: "Visita a ministros, graças
a Deus na maioria ausentes". Além da tolice de nossos catedráticos,
portanto, Einstein logo se deu conta da vacuidade de nossos políticos.
O público comparecia em massa às suas palestras, em
salas rumorosas e pouco ventiladas, mas ninguém entendia
suas palavras, por absoluta falta de conhecimento científico:
"Para eles, sou um elefante branco; eles, para mim, são uns
tolos". Apesar disso, o Brasil pode se vangloriar de ter tido um
pequeno papel na carreira de Einstein. A teoria da relatividade
ganhou sua primeira confirmação empírica na
cidade cearense de Sobral, onde cientistas ingleses fotografaram
algumas estrelas num eclipse solar. Depois de confirmar a teoria
da relatividade, Sobral ainda legou à humanidade a dinastia
política de Ciro Gomes.
Ao sair do Brasil, Einstein declarou-se "finalmente
livre, porém mais morto do que vivo". Ele não foi
o único viajante estrangeiro a levar uma má impressão
do país. Quase todos os que passaram por aqui nos esculhambaram
em seus diários. Com argumentos semelhantes aos de Einstein:
a tolice de nossos catedráticos, a nebulosidade de nossos
políticos, o aspecto vegetal de nosso povo, o amolecimento
de nosso caráter, a miséria de nossas utopias. O reconhecimento
das limitações nacionais é altamente benéfico.
Causamos muito mais estragos nos momentos de euforia, quando acreditamos
em nós mesmos, do que quando admitimos nossa irremediável
inaptidão. Por isso, lembre-se sempre de Einstein: a gente
é igual a planta.
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