Edição 1860 . 30 de junho de 2004

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Entrevista: Donna Hrinak
"O Brasil não é antiamericano"

A embaixadora americana, que se aposentou
na semana passada, diz que o Brasil está
crescendo no plano internacional e compartilha
cada vez mais valores com os Estados Unidos


Carlos Graieb

 

Ana Araujo

"O antiamericanismo no Brasil tem 1 quilômetro de extensão e 1 centímetro de profundidade"

 

Na semana passada, a americana Donna Hrinak encerrou sua temporada como embaixadora dos Estados Unidos no Brasil e, ao mesmo tempo, aposentou-se do serviço diplomático. Seus dois anos em Brasília coroaram uma carreira extraordinariamente bem-sucedida: ela ocupou nada menos do que quatro embaixadas ao longo dos anos, caso raro nos Estados Unidos. Embora deixe a diplomacia, Donna, de 53 anos, pretende continuar contribuindo, na iniciativa privada, para o aprimoramento das relações entre seu país e a América Latina. Ela assume em breve um cargo de consultora no escritório de advocacia Steel Hector & Davis, de Miami. O escritório tem uma representação em São Paulo, cidade que Donna conhece bem e que deve visitar com freqüência – não só a negócios, mas também porque nela vive o seu atual namorado, o empresário Raul Revkolevsky. Nesta entrevista, ela fala sobre as negociações da Alca, sobre a guerra no Iraque e faz um balanço de sua atuação no Brasil.

Veja – Além de ser o último país de sua carreira diplomática, o Brasil tem um significado especial para a senhora?
Donna – Gostar do Brasil é fácil. Todo mundo gosta. Eu vou um pouco além: também respeito o Brasil – tanto aquilo que ele pode ser quanto aquilo que ele é. Estamos falando de um país que fez eleições democráticas exemplares em 2002. De um país com uma sociedade civil enérgica, e com um setor privado cada vez mais avançado. Estive aqui pela primeira vez em meados dos anos 80, no fim do regime militar, e pude ver como o país mudou em vinte anos. Nem todo país tem energia para fazer esse tipo de mudança.

Veja – Qual o balanço de seu período como embaixadora?
Donna – Meu objetivo sempre foi mostrar que a relação entre Brasil e Estados Unidos vai além do comércio. Por isso, nesses dois anos, enfatizei pesquisas conjuntas em áreas como agricultura e mudanças climáticas e fomentei programas como o Embaixadores Jovens, por meio do qual jovens brasileiros que não teriam condições de viajar para fora do país por sua própria conta são levados aos Estados Unidos para viver com uma família americana e conhecer o estilo de vida de lá. O Brasil é o único país do mundo que tem um programa desse tipo atualmente. Enfim, acho que nesses dois anos criei algumas balizas para mostrar aos brasileiros e aos americanos que os dois países têm relações amplas e podem fazer muito em conjunto.

Veja – Como o fato de ter um partido de esquerda no poder no Brasil influiu no seu trabalho?
Donna – A administração Lula, em geral, tem sido muito pragmática. No plano internacional, o papel do Brasil vem crescendo desde o governo Fernando Henrique Cardoso e o país tem atuado em convergência com muitos valores e projetos americanos. O Brasil agora está liderando uma missão das Nações Unidas no Haiti. Encampou essa causa porque achou que ela era importante para a afirmação do país, e os Estados Unidos só podem aplaudir, porque também a eles interessa ter um Haiti estável. O Brasil preside ainda o Grupo de Amigos da Venezuela. É bom que isso aconteça, porque o diálogo do governo Lula com o de Hugo Chávez é muito melhor que aquele que os Estados Unidos jamais terão. Novamente, os valores por trás da ação coincidem – o desejo de ter uma Venezuela democrática, próspera e provedora de energia para o hemisfério. Muitas vezes, o que é bom para os Estados Unidos também é bom para o Brasil. Isso se torna claro quando se pensa com pragmatismo, e o governo Lula tem feito isso como regra.

Veja – A senhora passou por vários países da América Latina em sua carreira diplomática. Como encara o antiamericanismo na região?
Donna – Existe um sentimento antiamericano disseminado na América Latina, mas ele se manifesta de maneira diferente de cultura para cultura. Na República Dominicana, ele surge a cada ano no fim de abril, que foi quando os Estados Unidos invadiram o país, em 1965. Quanto ao Brasil, sempre repito que o antiamericanismo aqui tem 1 quilômetro de extensão e 1 centímetro de profundidade. Ou seja, ele se manifesta em muitas ocasiões, sob vários pretextos, mas existe um respeito mútuo entre os dois países que lhe serve de contraponto.

Veja – A imagem dos Estados Unidos sofreu grandes desgastes no mundo desde o início da guerra no Iraque. É possível recompô-la?
Donna – Sim, é possível, mas para isso teremos de reconhecer erros que não vêm de agora. Quando o Muro de Berlim caiu, os Estados Unidos pararam de gastar dinheiro com programas governamentais que ajudavam o país a manter uma imagem forte no exterior. Cada embaixada americana tinha ao menos um funcionário responsável por cuidar de bolsas de estudos, programas esportivos, programas para adolescentes. Com o fim da Guerra Fria, achamos que essas ações já não eram necessárias. Perdemos quinze anos e estamos pagando um preço por isso.

Veja – A tendência dos Estados Unidos é agir cada vez mais unilateralmente no mundo?
Donna – A idéia de que os Estados Unidos podem agir sozinhos faz parte do caráter americano. Talvez seja um eco do espírito pioneiro. Mas exageram ao nos pintar como uma nação que não se importa com o que o mundo pensa. Antes de entrarmos no Iraque, insistimos muito na idéia de que as Nações Unidas deveriam ter um papel importante nessa ação. E, quando entramos, foi com uma coalizão. Não a coalizão ampla que muitos gostariam de ter visto, mas ainda assim uma coalizão. Estamos conscientes de que vivemos num mundo pequeno, de que muitos de nossos problemas são compartilhados, e de que a luta contra esses problemas será mais efetiva se houver colaboração entre os países.

Veja – Os Estados Unidos são um império?
Donna – Não. Nos impérios históricos a idéia era impor seu poder a uma região e ali permanecer. Nós não fazemos isso. Falar nos Estados Unidos como império vai contra toda a história americana, que sempre teve um elemento de isolacionismo. Se chegamos a ocupar um papel central no mundo, foi por uma via muito tortuosa e difícil. Não temos inclinação para o imperialismo.

Veja – O prazo para a instauração da Área de Livre Comércio das Américas é janeiro de 2005. Teremos um acordo nesse prazo?
Donna – Sim, acho que teremos um acordo no dia 1º de janeiro do ano que vem, ainda que pouco ambicioso. Sobretudo o Brasil e os Estados Unidos, que são os maiores negociadores, têm uma grande responsabilidade a cumprir. Pense nos países menores, em certas ilhas caribenhas que não têm infra-estrutura quase nenhuma para conduzir as negociações, mas ainda assim gastaram tempo, dinheiro e energia para participar delas. Será muito ruim se os países maiores derem o sinal de que todo o investimento num acordo foi por uma causa vã.

Veja – O maior empecilho ao avanço nas negociações são os subsídios e barreiras comerciais americanos. Eles são defensáveis?
Donna – Já disse algumas vezes que não, que essas barreiras são indefensáveis. Mas minha crítica não se volta apenas aos subsídios americanos, e sim aos dos países ricos de maneira geral. Estudo depois de estudo demonstra que essas práticas prejudicam muito a economia dos países em desenvolvimento. É uma questão que deve ser atacada de maneira global. Não é possível para os Estados Unidos liberalizar totalmente o seu comércio se o Japão e a Europa não fizerem esforços iguais.

Veja – Mas a Europa e o Japão não estão envolvidos nas negociações da Alca.
Donna – Por isso achamos que o tema dos subsídios domésticos só deveria ser tratado dentro do contexto da Organização Mundial do Comércio.

Veja – Recentemente, o Brasil ganhou uma causa na OMC a respeito de subsídios prestados a plantadores americanos de algodão. O ministro americano Robert Zoellick sugeriu que os Estados Unidos poderiam não cumprir a sentença. Os Estados Unidos estão preparados para perder na OMC?
Donna – Somos o país que mais fez esforços para construir uma arquitetura comercial internacional. E respeitamos essa arquitetura. Agora, enquanto houver possibilidades de apelação, recorreremos. Achamos que nosso sistema de apoio à produção de algodão é defensável. Vamos apelar para mostrar que estamos certos.

Veja – Como os Estados Unidos vêem as negociações do Mercosul com a União Européia, também com o objetivo de criar uma área de livre-comércio?
Donna – Ouço dizer que os europeus não estão sofrendo as mesmas pressões que nós sofremos no campo da agricultura. Parece-me irônico que seja assim. Acho que os Estados Unidos são aliados naturais na luta para diminuir e eventualmente eliminar os subsídios domésticos no mundo. Somos o país mais aberto do globo. Basta ver o nosso déficit comercial. Não podemos ser um país fechado com mais de 500 bilhões de dólares de déficit comercial por ano.

Veja – A senhora esteve presente a dois encontros entre os presidentes Lula e Bush. Há, de fato, uma boa química entre eles?
Donna – Sim, isso é muito interessante. Eles falam como dois homens interessados nas mesmas coisas. Falam da importância da família, da força das comunidades de fé, dos efeitos dos narcóticos na sociedade. Eles têm uma conexão humana. Além disso, ambos são pessoas pragmáticas. Lembro-me particularmente do almoço que tiveram na Casa Branca, no ano passado. Os dois se engajaram, de maneira muito autêntica, numa conversa sobre a pobreza nos dois países. É claro, as situações são muito diferentes, mas dava para sentir que os dois, como seres humanos, tinham sentimentos muito parecidos em relação ao tema.

Veja – A decisão do governo Lula, depois revogada, de expulsar um repórter do jornal The New York Times, por causa de um artigo que comentava a relação do presidente com a bebida, foi mostra de imaturidade?
Donna – A reação foi muito forte. Teria sido possível responder ao artigo sem recorrer àquela medida exagerada. Ela deu a impressão de que as pessoas nos altos escalões do governo não estão comprometidas com a liberdade de expressão, o que não acho que seja o caso.

Veja – Como a idéia de tirar impressões digitais de turistas americanos como retaliação a medida semelhante adotada pelos Estados Unidos afeta as relações entre os países?
Donna – Não diria que afeta de maneira fundamental, porque essa relação está além desse tipo de coisa. Mas acho que a medida demonstra uma grande incompreensão do momento histórico que os Estados Unidos estão atravessando. O 11 de Setembro teve um impacto muito profundo na maneira de sentir dos americanos. Criaram-se um medo e um sentido de vulnerabilidade que não existiam antes. Atravessamos um momento muito peculiar, em que se busca um equilíbrio entre uma aspiração legítima por reforçar nossas defesas e nosso sentimento de segurança e o desejo de manter os contornos de uma sociedade livre, uma sociedade que sempre recebeu pessoas de todo o mundo e que tem interesse em preservar essa condição.

Veja – Aposentada, a senhora pretende voltar ao Brasil com freqüência?
Donna – Vou começar a trabalhar num escritório de advocacia de Miami que tem representação em São Paulo. A idéia é que eu volte bastante para cá.

Veja – A senhora deixa aqui um namorado, o empresário Raul Revkolevsky, não é?
Donna – Sim, é verdade. É uma história interessante, pois nós nos conhecemos vinte anos atrás e ficamos amigos. Então, há pouco mais de um ano, nos reencontramos em São Paulo e o namoro engatou.

Veja – O homem brasileiro é interessante?
Donna – Não gosto de falar em termos gerais. Tudo depende do indivíduo, das suas experiências.

Veja – Como mulher num cargo público, a senhora enfrentou alguma dificuldade no Brasil? Sentiu alguma espécie de machismo?
Donna – Eu fui casada durante 26 anos com um mexicano, então não me fale em machismo. Acredite, há outros países em que esse problema é muito maior do que no Brasil. Aliás, parece-me que a situação aqui vai melhorando bastante. O número de mulheres no Congresso é maior que em qualquer outra época, uma mulher, Marta Suplicy, é a prefeita da maior cidade do país e há mulheres que se destacam no comércio e nas finanças. Como em toda parte, ainda há muito a fazer, mas poderia ser pior.

Veja – Durante o seu período no Brasil, a senhora fez uma operação plástica. Foi uma boa experiência?
Donna – Sim, foi boa. Fiz a plástica e, horas depois, apareci numa roda de imprensa, ainda com os curativos. Encarei de forma normal. Se você está descontente com alguma coisa de seu corpo e tem a oportunidade de melhorar, melhore. A vida é muito curta, temos de torná-la o mais prazenteira que pudermos.

 
 
 
 
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