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Entrevista: Donna
Hrinak
"O Brasil não é antiamericano"
A embaixadora americana, que se aposentou
na semana passada, diz que o Brasil está
crescendo no plano internacional e compartilha
cada vez mais valores com os Estados Unidos

Carlos Graieb
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Ana Araujo

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"O antiamericanismo no Brasil tem
1 quilômetro de extensão e 1 centímetro de profundidade"
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Na semana passada, a americana Donna Hrinak
encerrou sua temporada como embaixadora dos Estados Unidos no Brasil
e, ao mesmo tempo, aposentou-se do serviço diplomático.
Seus dois anos em Brasília coroaram uma carreira extraordinariamente
bem-sucedida: ela ocupou nada menos do que quatro embaixadas ao
longo dos anos, caso raro nos Estados Unidos. Embora deixe a diplomacia,
Donna, de 53 anos, pretende continuar contribuindo, na iniciativa
privada, para o aprimoramento das relações entre seu
país e a América Latina. Ela assume em breve um cargo
de consultora no escritório de advocacia Steel Hector &
Davis, de Miami. O escritório tem uma representação
em São Paulo, cidade que Donna conhece bem e que deve visitar
com freqüência não só a negócios,
mas também porque nela vive o seu atual namorado, o empresário
Raul Revkolevsky. Nesta entrevista, ela fala sobre as negociações
da Alca, sobre a guerra no Iraque e faz um balanço de sua
atuação no Brasil.
Veja
Além de ser o último país de sua carreira
diplomática, o Brasil tem um significado especial para a
senhora?
Donna Gostar do Brasil
é fácil. Todo mundo gosta. Eu vou um pouco além:
também respeito o Brasil tanto aquilo que ele pode
ser quanto aquilo que ele é. Estamos falando de um país
que fez eleições democráticas exemplares em
2002. De um país com uma sociedade civil enérgica,
e com um setor privado cada vez mais avançado. Estive aqui
pela primeira vez em meados dos anos 80, no fim do regime militar,
e pude ver como o país mudou em vinte anos. Nem todo país
tem energia para fazer esse tipo de mudança.
Veja Qual
o balanço de seu período como embaixadora?
Donna
Meu objetivo sempre foi mostrar que a relação entre
Brasil e Estados Unidos vai além do comércio. Por
isso, nesses dois anos, enfatizei pesquisas conjuntas em áreas
como agricultura e mudanças climáticas e fomentei
programas como o Embaixadores Jovens, por meio do qual jovens brasileiros
que não teriam condições de viajar para fora
do país por sua própria conta são levados aos
Estados Unidos para viver com uma família americana e conhecer
o estilo de vida de lá. O Brasil é o único
país do mundo que tem um programa desse tipo atualmente.
Enfim, acho que nesses dois anos criei algumas balizas para mostrar
aos brasileiros e aos americanos que os dois países têm
relações amplas e podem fazer muito em conjunto.
Veja Como
o fato de ter um partido de esquerda no poder no Brasil influiu
no seu trabalho?
Donna
A administração Lula, em geral, tem sido muito pragmática.
No plano internacional, o papel do Brasil vem crescendo desde o
governo Fernando Henrique Cardoso e o país tem atuado em
convergência com muitos valores e projetos americanos. O Brasil
agora está liderando uma missão das Nações
Unidas no Haiti. Encampou essa causa porque achou que ela era importante
para a afirmação do país, e os Estados Unidos
só podem aplaudir, porque também a eles interessa
ter um Haiti estável. O Brasil preside ainda o Grupo de Amigos
da Venezuela. É bom que isso aconteça, porque o diálogo
do governo Lula com o de Hugo Chávez é muito melhor
que aquele que os Estados Unidos jamais terão. Novamente,
os valores por trás da ação coincidem
o desejo de ter uma Venezuela democrática, próspera
e provedora de energia para o hemisfério. Muitas vezes, o
que é bom para os Estados Unidos também é bom
para o Brasil. Isso se torna claro quando se pensa com pragmatismo,
e o governo Lula tem feito isso como regra.
Veja A
senhora passou por vários países da América
Latina em sua carreira diplomática. Como encara o antiamericanismo
na região?
Donna
Existe um sentimento antiamericano disseminado na América
Latina, mas ele se manifesta de maneira diferente de cultura para
cultura. Na República Dominicana, ele surge a cada ano no
fim de abril, que foi quando os Estados Unidos invadiram o país,
em 1965. Quanto ao Brasil, sempre repito que o antiamericanismo
aqui tem 1 quilômetro de extensão e 1 centímetro
de profundidade. Ou seja, ele se manifesta em muitas ocasiões,
sob vários pretextos, mas existe um respeito mútuo
entre os dois países que lhe serve de contraponto.
Veja
A imagem dos Estados Unidos sofreu grandes desgastes no mundo
desde o início da guerra no Iraque. É possível
recompô-la?
Donna Sim, é possível,
mas para isso teremos de reconhecer erros que não vêm
de agora. Quando o Muro de Berlim caiu, os Estados Unidos pararam
de gastar dinheiro com programas governamentais que ajudavam o país
a manter uma imagem forte no exterior. Cada embaixada americana
tinha ao menos um funcionário responsável por cuidar
de bolsas de estudos, programas esportivos, programas para adolescentes.
Com o fim da Guerra Fria, achamos que essas ações
já não eram necessárias. Perdemos quinze anos
e estamos pagando um preço por isso.
Veja
A tendência dos Estados Unidos é agir cada vez mais
unilateralmente no mundo?
Donna A idéia
de que os Estados Unidos podem agir sozinhos faz parte do caráter
americano. Talvez seja um eco do espírito pioneiro. Mas exageram
ao nos pintar como uma nação que não se importa
com o que o mundo pensa. Antes de entrarmos no Iraque, insistimos
muito na idéia de que as Nações Unidas deveriam
ter um papel importante nessa ação. E, quando entramos,
foi com uma coalizão. Não a coalizão ampla
que muitos gostariam de ter visto, mas ainda assim uma coalizão.
Estamos conscientes de que vivemos num mundo pequeno, de que muitos
de nossos problemas são compartilhados, e de que a luta contra
esses problemas será mais efetiva se houver colaboração
entre os países.
Veja Os
Estados Unidos são um império?
Donna
Não. Nos impérios históricos a idéia
era impor seu poder a uma região e ali permanecer. Nós
não fazemos isso. Falar nos Estados Unidos como império
vai contra toda a história americana, que sempre teve um
elemento de isolacionismo. Se chegamos a ocupar um papel central
no mundo, foi por uma via muito tortuosa e difícil. Não
temos inclinação para o imperialismo.
Veja O
prazo para a instauração da Área de Livre Comércio
das Américas é janeiro de 2005. Teremos um acordo
nesse prazo?
Donna
Sim, acho que teremos um acordo no dia 1º de janeiro
do ano que vem, ainda que pouco ambicioso. Sobretudo o Brasil e
os Estados Unidos, que são os maiores negociadores, têm
uma grande responsabilidade a cumprir. Pense nos países menores,
em certas ilhas caribenhas que não têm infra-estrutura
quase nenhuma para conduzir as negociações, mas ainda
assim gastaram tempo, dinheiro e energia para participar delas.
Será muito ruim se os países maiores derem o sinal
de que todo o investimento num acordo foi por uma causa vã.
Veja
O maior empecilho ao avanço nas negociações
são os subsídios e barreiras comerciais americanos.
Eles são defensáveis?
Donna Já disse
algumas vezes que não, que essas barreiras são indefensáveis.
Mas minha crítica não se volta apenas aos subsídios
americanos, e sim aos dos países ricos de maneira geral.
Estudo depois de estudo demonstra que essas práticas prejudicam
muito a economia dos países em desenvolvimento. É
uma questão que deve ser atacada de maneira global. Não
é possível para os Estados Unidos liberalizar totalmente
o seu comércio se o Japão e a Europa não fizerem
esforços iguais.
Veja Mas
a Europa e o Japão não estão envolvidos nas
negociações da Alca.
Donna
Por isso achamos que o tema dos subsídios domésticos
só deveria ser tratado dentro do contexto da Organização
Mundial do Comércio.
Veja
Recentemente, o Brasil ganhou uma causa na OMC a respeito de
subsídios prestados a plantadores americanos de algodão.
O ministro americano Robert Zoellick sugeriu que os Estados Unidos
poderiam não cumprir a sentença. Os Estados Unidos
estão preparados para perder na OMC?
Donna Somos o país
que mais fez esforços para construir uma arquitetura comercial
internacional. E respeitamos essa arquitetura. Agora, enquanto houver
possibilidades de apelação, recorreremos. Achamos
que nosso sistema de apoio à produção de algodão
é defensável. Vamos apelar para mostrar que estamos
certos.
Veja Como
os Estados Unidos vêem as negociações do Mercosul
com a União Européia, também com o objetivo
de criar uma área de livre-comércio?
Donna
Ouço dizer que os europeus não estão sofrendo
as mesmas pressões que nós sofremos no campo da agricultura.
Parece-me irônico que seja assim. Acho que os Estados Unidos
são aliados naturais na luta para diminuir e eventualmente
eliminar os subsídios domésticos no mundo. Somos o
país mais aberto do globo. Basta ver o nosso déficit
comercial. Não podemos ser um país fechado com mais
de 500 bilhões de dólares de déficit comercial
por ano.
Veja
A senhora esteve presente a dois encontros entre os presidentes
Lula e Bush. Há, de fato, uma boa química entre eles?
Donna Sim, isso é
muito interessante. Eles falam como dois homens interessados nas
mesmas coisas. Falam da importância da família, da
força das comunidades de fé, dos efeitos dos narcóticos
na sociedade. Eles têm uma conexão humana. Além
disso, ambos são pessoas pragmáticas. Lembro-me particularmente
do almoço que tiveram na Casa Branca, no ano passado. Os
dois se engajaram, de maneira muito autêntica, numa conversa
sobre a pobreza nos dois países. É claro, as situações
são muito diferentes, mas dava para sentir que os dois, como
seres humanos, tinham sentimentos muito parecidos em relação
ao tema.
Veja
A decisão do governo Lula, depois revogada, de expulsar
um repórter do jornal The New York Times, por causa
de um artigo que comentava a relação do presidente
com a bebida, foi mostra de imaturidade?
Donna
A reação foi muito
forte. Teria sido possível responder ao artigo sem recorrer
àquela medida exagerada. Ela deu a impressão de que
as pessoas nos altos escalões do governo não estão
comprometidas com a liberdade de expressão, o que não
acho que seja o caso.
Veja Como
a idéia de tirar impressões digitais de turistas americanos
como retaliação a medida semelhante adotada pelos
Estados Unidos afeta as relações entre os países?
Donna
Não diria que afeta de maneira fundamental, porque
essa relação está além desse tipo de
coisa. Mas acho que a medida demonstra uma grande incompreensão
do momento histórico que os Estados Unidos estão atravessando.
O 11 de Setembro teve um impacto muito profundo na maneira de sentir
dos americanos. Criaram-se um medo e um sentido de vulnerabilidade
que não existiam antes. Atravessamos um momento muito peculiar,
em que se busca um equilíbrio entre uma aspiração
legítima por reforçar nossas defesas e nosso sentimento
de segurança e o desejo de manter os contornos de uma sociedade
livre, uma sociedade que sempre recebeu pessoas de todo o mundo
e que tem interesse em preservar essa condição.
Veja Aposentada,
a senhora pretende voltar ao Brasil com freqüência?
Donna
Vou começar a trabalhar num escritório de advocacia
de Miami que tem representação em São Paulo.
A idéia é que eu volte bastante para cá.
Veja
A senhora deixa aqui um namorado, o empresário Raul Revkolevsky,
não é?
Donna Sim, é verdade.
É uma história interessante, pois nós nos conhecemos
vinte anos atrás e ficamos amigos. Então, há
pouco mais de um ano, nos reencontramos em São Paulo e o
namoro engatou.
Veja
O homem brasileiro é interessante?
Donna Não gosto
de falar em termos gerais. Tudo depende do indivíduo, das
suas experiências.
Veja
Como mulher num cargo público, a senhora enfrentou alguma
dificuldade no Brasil? Sentiu alguma espécie de machismo?
Donna Eu fui casada durante
26 anos com um mexicano, então não me fale em machismo.
Acredite, há outros países em que esse problema é
muito maior do que no Brasil. Aliás, parece-me que a situação
aqui vai melhorando bastante. O número de mulheres no Congresso
é maior que em qualquer outra época, uma mulher, Marta
Suplicy, é a prefeita da maior cidade do país e há
mulheres que se destacam no comércio e nas finanças.
Como em toda parte, ainda há muito a fazer, mas poderia ser
pior.
Veja
Durante o seu período no Brasil, a senhora fez uma operação
plástica. Foi uma boa experiência?
Donna Sim, foi boa. Fiz
a plástica e, horas depois, apareci numa roda de imprensa,
ainda com os curativos. Encarei de forma normal. Se você está
descontente com alguma coisa de seu corpo e tem a oportunidade de
melhorar, melhore. A vida é muito curta, temos de torná-la
o mais prazenteira que pudermos.
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