Edição 1860 . 30 de junho de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
Tolerância e perversão

"Darcy Ribeiro era um doido do bem.
Sua inteligência vertiginosa ia produzindo
idéias e,
na vertigem criativa, desconsiderava
os
aspectos terrenos de sua viabilidade"

A primeira vez que li O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, era ainda pré-adolescente. Fiquei apavorado com a história do rapaz que faz um pacto com o diabo, para manter a beleza e a juventude, e cujo retrato vai registrando as marcas viciosas de sua vida. Mantinha a aparência e apodrecia por dentro.

Lembrei-me dele por um processo tortuoso de associações. Conversava sobre Leonel Brizola e sua luta pela educação. Cheguei a Darcy Ribeiro e ao sonho da educação que se moderniza para ser modernizante. As escolhas de Brizola refletiam o aprendizado, em sua própria vida, do valor da educação e da dificuldade de acesso a ela quando se é pobre e se está na periferia da sociedade dominante. Sua melhor decisão, no governo do Rio, foi pedir a Darcy Ribeiro que pensasse a política de educação.

 

Darcy era um doido do bem. Sua inteligência vertiginosa ia produzindo idéias e, na vertigem criativa, desconsiderava os aspectos terrenos de sua viabilidade. Mas é dessas loucuras que os povos precisam para evoluir. A idéia do Ciep era correta, quase uma volta ao passado, à escola pública de qualidade, mas que era de elite. Eu estudei, do primário ao colegial, em tempo integral. Darcy queria que crianças e jovens ficassem na escola o dia todo. Certíssimo. Trata-se de uma obrigação elementar da sociedade, é um dever nosso, e não apenas do Estado. Discordava da forma pela qual o governo concretizou a idéia do Ciep. Mas nunca das teses que fundamentaram a idéia. A idéia de equiparar o direito do cidadão ao dever do Estado é paternalista e populista. Ela exime a sociedade de suas obrigações.

Fui beneficiário do desenho que Darcy Ribeiro sonhou para a Universidade de Brasília. Tudo era avançado para a época. A estrutura integrada. O campus articulado. A moradia de professores: a "Colina", da qual tenho gratíssima memória, por causa das reuniões com muitos amigos na casa do professor Eudoro de Souza, pai de Teca e Eudoro. Lá passávamos noites a fio conversando sobre cinema, literatura, arte e política.

Na UnB, conheci primeiro a extensão universitária, os cursos avulsos. Eles faziam a universidade ferver, depois das aulas. Formava-se uma comunidade, que extravasava a sala de aula e invadia nossa própria vida. Antes mesmo de ter idade para o vestibular, assisti a aulas extraordinárias de Paulo Emílio Sales Gomes e pude conviver e aprender sobre cinema com gente de primeira, como Jean-Claude Bernardet e Maurice Capovilla.

Essa vida, pulsando de inteligência, essa sede de conhecer e fazer, aprender e criticar faziam daquela universidade, ainda fisicamente em construção, a expressão do sonho louco de Darcy. Quase todas as aulas se davam em barracões de madeira, o "Minhocão", sua espinha dorsal futura, que mais parecia uma ruína grega, com seus pilares lançados ao ar. Esse sonho acabou com o AI-5 e 68 e a ele ainda não retornamos.

O leitor, impaciente, pergunta-se, com razão, sobre a relação com Dorian Gray. O monstro de Wilde tem a ver com a escola de hoje, tão longe da minha própria experiência de estudante e que me faz devedor da sociedade brasileira. Com a universidade de hoje, tão distante dos planos de Darcy. Mas o Dorian Gray, agora, é um monstro coletivo, somos nós, que aceitamos esse descalabro.

A escola paga o preço do desprezo nacional pela educação e da tolerância coletiva com a degeneração acelerada das regiões metropolitanas e dos valores republicanos. Agora, reduzimos o tempo de permanência dos estudantes na UFRJ, para que saiam ainda à luz do dia, senão se arriscam a ser seqüestrados ou violentados. A convivência se perde, as bibliotecas se fecham, não há extensão possível, não dá para falar de cinema ou literatura, economia ou política noite adentro, nem para assistir a um clássico no cineclube. A universidade não ferve mais. Temos de correr para a suposta segurança de nossa casa. Danem-se a convivência, o estímulo do grupo, o ambiente pan-epistêmico que a universidade deveria ser. Danem-se Darcy, louco sonhador, e todos nós, que toleramos tudo isso, enquanto nossa sociedade, principalmente nas regiões metropolitanas, se corrompe profunda e aceleradamente.

A sociedade não é o retrato apenas de seus governantes, é o retrato de seus cidadãos, em destaque, suas elites. É o nosso retrato, do Brasil todo, de todos nós, que está lá, debaixo do pano, mostrando seu rosto monstruoso. Dorian Gray não era capaz de lidar com as implicações de suas escolhas: era um suicida. E nós?

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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