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Em
foco: Sérgio Abranches
Tolerância e perversão
"Darcy Ribeiro era um doido do bem.
Sua inteligência vertiginosa
ia produzindo
idéias e, na vertigem criativa, desconsiderava
os aspectos terrenos de sua viabilidade"
A primeira vez que li O Retrato de Dorian
Gray, de Oscar Wilde, era ainda pré-adolescente. Fiquei
apavorado com a história do rapaz que faz um pacto com o
diabo, para manter a beleza e a juventude, e cujo retrato vai registrando
as marcas viciosas de sua vida. Mantinha a aparência e apodrecia
por dentro.
Lembrei-me dele por um processo tortuoso de
associações. Conversava sobre Leonel Brizola e sua
luta pela educação. Cheguei a Darcy Ribeiro e ao sonho
da educação que se moderniza para ser modernizante.
As escolhas de Brizola refletiam o aprendizado, em sua própria
vida, do valor da educação e da dificuldade de acesso
a ela quando se é pobre e se está na periferia da
sociedade dominante. Sua melhor decisão, no governo do Rio,
foi pedir a Darcy Ribeiro que pensasse a política de educação.
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Darcy era um doido do bem. Sua inteligência
vertiginosa ia produzindo idéias e, na vertigem criativa,
desconsiderava os aspectos terrenos de sua viabilidade. Mas é
dessas loucuras que os povos precisam para evoluir. A idéia
do Ciep era correta, quase uma volta ao passado, à escola
pública de qualidade, mas que era de elite. Eu estudei, do
primário ao colegial, em tempo integral. Darcy queria que
crianças e jovens ficassem na escola o dia todo. Certíssimo.
Trata-se de uma obrigação elementar da sociedade,
é um dever nosso, e não apenas do Estado. Discordava
da forma pela qual o governo concretizou a idéia do Ciep.
Mas nunca das teses que fundamentaram a idéia. A idéia
de equiparar o direito do cidadão ao dever do Estado é
paternalista e populista. Ela exime a sociedade de suas obrigações.
Fui beneficiário do desenho que Darcy
Ribeiro sonhou para a Universidade de Brasília. Tudo era
avançado para a época. A estrutura integrada. O campus
articulado. A moradia de professores: a "Colina", da qual tenho
gratíssima memória, por causa das reuniões
com muitos amigos na casa do professor Eudoro de Souza, pai de Teca
e Eudoro. Lá passávamos noites a fio conversando sobre
cinema, literatura, arte e política.
Na UnB, conheci primeiro a extensão
universitária, os cursos avulsos. Eles faziam a universidade
ferver, depois das aulas. Formava-se uma comunidade, que extravasava
a sala de aula e invadia nossa própria vida. Antes mesmo
de ter idade para o vestibular, assisti a aulas extraordinárias
de Paulo Emílio Sales Gomes e pude conviver e aprender sobre
cinema com gente de primeira, como Jean-Claude Bernardet e Maurice
Capovilla.
Essa vida, pulsando de inteligência,
essa sede de conhecer e fazer, aprender e criticar faziam daquela
universidade, ainda fisicamente em construção, a expressão
do sonho louco de Darcy. Quase todas as aulas se davam em barracões
de madeira, o "Minhocão", sua espinha dorsal futura, que
mais parecia uma ruína grega, com seus pilares lançados
ao ar. Esse sonho acabou com o AI-5 e 68 e a ele ainda não
retornamos.
O leitor, impaciente, pergunta-se, com razão,
sobre a relação com Dorian Gray. O monstro de Wilde
tem a ver com a escola de hoje, tão longe da minha própria
experiência de estudante e que me faz devedor da sociedade
brasileira. Com a universidade de hoje, tão distante dos
planos de Darcy. Mas o Dorian Gray, agora, é um monstro coletivo,
somos nós, que aceitamos esse descalabro.
A escola paga o preço do desprezo nacional
pela educação e da tolerância coletiva com a
degeneração acelerada das regiões metropolitanas
e dos valores republicanos. Agora, reduzimos o tempo de permanência
dos estudantes na UFRJ, para que saiam ainda à luz do dia,
senão se arriscam a ser seqüestrados ou violentados.
A convivência se perde, as bibliotecas se fecham, não
há extensão possível, não dá
para falar de cinema ou literatura, economia ou política
noite adentro, nem para assistir a um clássico no cineclube.
A universidade não ferve mais. Temos de correr para a suposta
segurança de nossa casa. Danem-se a convivência, o
estímulo do grupo, o ambiente pan-epistêmico que a
universidade deveria ser. Danem-se Darcy, louco sonhador, e todos
nós, que toleramos tudo isso, enquanto nossa sociedade, principalmente
nas regiões metropolitanas, se corrompe profunda e aceleradamente.
A sociedade não é o retrato
apenas de seus governantes, é o retrato de seus cidadãos,
em destaque, suas elites. É o nosso retrato, do Brasil todo,
de todos nós, que está lá, debaixo do pano,
mostrando seu rosto monstruoso. Dorian Gray não era capaz
de lidar com as implicações de suas escolhas: era
um suicida. E nós?
Sérgio Abranches é cientista
político (sergioabranches@sda.com.br)
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