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André
Petry
O direito dos mortos
"O
único presidente da República que abriu
as portas do gabinete no Palácio do Planalto
para os familiares foi Inocêncio de Oliveira.
Ele estava à toa naquele dia"
Houve o
caso da cidadezinha americana em que o dono do crematório
local fingia queimar os cadáveres porque seu forno estava
estragado e o conserto custava caro demais – 25 dólares.
O sujeito, em vez de cremar os corpos, enterrava-os pelas imediações
e entregava à família enlutada uma caixa com farelo
de cimento ou cinza de madeira queimada. Quando o caso foi descoberto,
deu-se um escândalo, uma comoção. Afinal, dezenas
de famílias descobriram repentinamente que aquela caixa guardada
em casa com tanta reverência não passava de uma lixeira.
A história – verdadeira – produz um paralelo com o fantasma
de Jonas, o guerrilheiro que desapareceu no porão da ditadura
militar brasileira logo após seqüestrar o embaixador
Charles Burke Elbrick em setembro de 1969, depois reapareceu na
pele do ator Matheus Nachtergaele no filme O que É Isso,
Companheiro? e, agora, volta a reaparecer em fotos em preto-e-branco
– ele que foi o primeiro desaparecido político da ditadura.
Seu nome
era Virgílio Gomes da Silva, fora treinado em Cuba e usava
o codinome Jonas. Como membro da Ação Libertadora
Nacional (ALN), comandou o seqüestro do embaixador e desapareceu
dias depois que o refém foi libertado, em troca da soltura
de quinze presos políticos, entre eles o atual ministro José
Dirceu. Agora, sua família conseguiu documentos mostrando
que Jonas foi morto no dia 30 de setembro de 1969, quando estava
preso pelo regime militar, e o laudo da autópsia sugere que
foi torturado. A família, agora, quer dar o passo decisivo:
pedir ao governo de São Paulo que abra um inquérito
para investigar as circunstâncias exatas de sua morte e, sobretudo,
para localizar seus restos mortais. Assim, depois de 35 anos, a
família enfim poderá dar-lhe um funeral.
O que mais
chama atenção no dilema dos familiares dos desaparecidos
é a desconsideração com que têm sido
tratados, inclusive no governo Lula. O presidente, até hoje,
não concordou em receber uma comissão de representantes
dos familiares dos desaparecidos. Por incrível que pareça,
o único presidente da República que abriu as portas
do gabinete no Palácio do Planalto para os familiares foi
Inocêncio de Oliveira, numa das ocasiões em que assumiu
o governo como interino. Ele estava à toa naquele dia, não
tinha muito o que fazer, resolveu conceder a audiência. Recebeu
a comissão rapidamente, não lhe ofereceu nem um copo
de água – mas recebeu. Lula, ao contrário, nem se
deu ao trabalho de responder ao pedido de audiência.
Ninguém
precisa ser tão duro com os familiares dos desaparecidos.
Eles já sofreram demais. Há o caso de uma senhora,
já velhinha, que não conseguia trancar a porta de
sua casa à noite, pois tinha medo que seu filho, desaparecido
há décadas, chegasse no meio da madrugada e não
conseguisse entrar em casa... Outra ficou sem nada, até sem
comida, mas jamais deixou de pagar a conta do telefone, para não
correr o risco de perder o telefonema do filho. Os familiares não
querem vingança. Querem paz, apenas. Querem deixar de ser
aquela cidadezinha americana que vive sob o sobressalto de não
saber onde estão seus mortos.
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