Edição 1860 . 30 de junho de 2004

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André Petry
O direito dos mortos

"O único presidente da República que abriu
as portas do gabinete no Palácio do Planalto
para os familiares foi Inocêncio de Oliveira.
Ele estava à toa naquele dia"

Houve o caso da cidadezinha americana em que o dono do crematório local fingia queimar os cadáveres porque seu forno estava estragado e o conserto custava caro demais – 25 dólares. O sujeito, em vez de cremar os corpos, enterrava-os pelas imediações e entregava à família enlutada uma caixa com farelo de cimento ou cinza de madeira queimada. Quando o caso foi descoberto, deu-se um escândalo, uma comoção. Afinal, dezenas de famílias descobriram repentinamente que aquela caixa guardada em casa com tanta reverência não passava de uma lixeira. A história – verdadeira – produz um paralelo com o fantasma de Jonas, o guerrilheiro que desapareceu no porão da ditadura militar brasileira logo após seqüestrar o embaixador Charles Burke Elbrick em setembro de 1969, depois reapareceu na pele do ator Matheus Nachtergaele no filme O que É Isso, Companheiro? e, agora, volta a reaparecer em fotos em preto-e-branco – ele que foi o primeiro desaparecido político da ditadura.

Seu nome era Virgílio Gomes da Silva, fora treinado em Cuba e usava o codinome Jonas. Como membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), comandou o seqüestro do embaixador e desapareceu dias depois que o refém foi libertado, em troca da soltura de quinze presos políticos, entre eles o atual ministro José Dirceu. Agora, sua família conseguiu documentos mostrando que Jonas foi morto no dia 30 de setembro de 1969, quando estava preso pelo regime militar, e o laudo da autópsia sugere que foi torturado. A família, agora, quer dar o passo decisivo: pedir ao governo de São Paulo que abra um inquérito para investigar as circunstâncias exatas de sua morte e, sobretudo, para localizar seus restos mortais. Assim, depois de 35 anos, a família enfim poderá dar-lhe um funeral.

O que mais chama atenção no dilema dos familiares dos desaparecidos é a desconsideração com que têm sido tratados, inclusive no governo Lula. O presidente, até hoje, não concordou em receber uma comissão de representantes dos familiares dos desaparecidos. Por incrível que pareça, o único presidente da República que abriu as portas do gabinete no Palácio do Planalto para os familiares foi Inocêncio de Oliveira, numa das ocasiões em que assumiu o governo como interino. Ele estava à toa naquele dia, não tinha muito o que fazer, resolveu conceder a audiência. Recebeu a comissão rapidamente, não lhe ofereceu nem um copo de água – mas recebeu. Lula, ao contrário, nem se deu ao trabalho de responder ao pedido de audiência.

Ninguém precisa ser tão duro com os familiares dos desaparecidos. Eles já sofreram demais. Há o caso de uma senhora, já velhinha, que não conseguia trancar a porta de sua casa à noite, pois tinha medo que seu filho, desaparecido há décadas, chegasse no meio da madrugada e não conseguisse entrar em casa... Outra ficou sem nada, até sem comida, mas jamais deixou de pagar a conta do telefone, para não correr o risco de perder o telefonema do filho. Os familiares não querem vingança. Querem paz, apenas. Querem deixar de ser aquela cidadezinha americana que vive sob o sobressalto de não saber onde estão seus mortos.

 
 
 
 
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