Renan
Calheiros terá de explicar por que diretor de construtora pagava suas contas
Policarpo
Junior
Roberto
Jayme/AE
O
senador Renan Calheiros: "Tudo foi pago com meu dinheiro"
Desde
que a Operação Navalha foi deflagrada, o senador Renan Calheiros,
do PMDB de Alagoas, tem sido instado a explicar suas relações com
o empreiteiro Zuleido Veras, dono da Gautama. O senador tem dito que são
apenas conhecidos, mas são mais do que isso. Em 1990, o empreiteiro bancou
sorrateiramente a campanha do senador ao governo de Alagoas e, embora tenha terminado
em derrota, a eleição serviu como marco de uma amizade sólida.
Sólida mesmo, a ponto de o empreiteiro freqüentar a residência
oficial do presidente do Senado. A situação de Renan Calheiros,
porém, é mais complicada do que sua intimidade com Zuleido Veras.
É que o senador tem outro amigo explosivo no submundo da empreita que,
tal como Zuleido, freqüenta sua casa e, tal como Zuleido, é seu dileto
amigo. O amigo de alta octanagem é Cláudio Gontijo, lobista da construtora
Mendes Júnior, uma das maiores do país. Nos últimos anos,
Gontijo, mais do que um amigo, tem se apresentado no papel de mantenedor do senador.
VEJA apurou os laços financeiros entre os dois:
• O lobista da Mendes Júnior coloca à
disposição do senador um flat num dos melhores hotéis de
Brasília, o Blue Tree. O flat, número 2 018, é usado para
compromissos que exijam discrição. Está em nome de Cláudio
Gontijo.
• O lobista da Mendes
Júnior pagou, até março passado, o aluguel de um apartamento
em Brasília para o senador. O imóvel tem quatro quartos e fica em
uma área nobre da capital federal. O aluguel saía por 4.500 reais.
• O lobista pagava 12.000
reais mensais de pensão para uma filha do senador, de 3 anos de idade.
A pensão foi bancada por Cláudio Gontijo de janeiro de 2004 a dezembro
do ano passado.
• O lobista
ajuda nas campanhas do senador Renan Calheiros e nas de sua família. Já
ajudou o próprio senador, seu filho e seu irmão.
Tal como Zuleido, Gontijo opera nas sombras. Oficialmente, ele é assessor
da Diretoria de Desenvolvimento da Área de Tecnologia da Mendes Júnior
há quinze anos. Na realidade, sua função é defender
os interesses da empresa junto ao governo. A Mendes Júnior constrói
aeroportos, metrôs, linhas de transmissão de energia e estradas.
Tem fortes interesses no governo. Hoje, participa, entre outras obras, de um consórcio
responsável pela construção do aeroporto de Vitória
e fechou vários contratos com a Petrobras para a construção
de tubulações e manutenção industrial. Tal como a
Gautama, a Mendes Júnior também orbita no Ministério de Minas
e Energia, do qual foi demitido o ministro Silas Rondeau. Foi a partir desse ministério
que Gontijo estendeu sua área de influência a outros setores do governo
nos últimos anos. Com a ajuda de Renan, chegou a indicar nomes para cargos
públicos, como o do engenheiro Aloísio Vasconcelos Novais, que assumiu
a Eletrobrás quando Rondeau deixou o cargo para ser ministro de Minas e
Energia.
Fotos
O Jornal e André Dusek/AE
O
clã Calheiros: à esquerda, o prefeito de Murici, em Alagoas, Renan Filho, filho
do senador Renan Calheiros; no centro, o deputado Olavo Calheiros, irmão do senador;
à direita, o vereador Robson Calheiros, outro irmão do senador
O senador Renan Calheiros caiu nas graças do lobista. Nos últimos
três anos, a pedido de Renan, o lobista pagou os 4.500 reais de aluguel
do apartamento de quatro quartos. No imóvel, até recentemente, morava
a jornalista Mônica Veloso, com quem o senador tem uma filha de 3 anos,
que recebe a pensão do lobista. Todos os meses, a jornalista ia ao escritório
da Mendes Júnior, no 11º andar do Edifício OAB, situado na
Asa Sul, onde pegava um envelope branco, timbrado, com o endereço, os telefones
e o nome de Cláudio Gontijo. O envelope era identificado com suas iniciais
MV. Dentro havia sempre 16.500 reais. Era o aluguel mais a pensão
de 12.000 reais para a criança. VEJA teve acesso ao contrato de locação
do imóvel. Nele, Gontijo assina como fiador. Seguindo orientação
do senador, o lobista contratou uma empresa de vigilância para garantir
a segurança de Mônica Veloso e sua filha. A direção
da Mendes Júnior diz que isso tudo é "questão pessoal" de
Gontijo e que desconhece esses pagamentos. Procurada por VEJA, Mônica Veloso
preferiu não se manifestar.
Cláudio Gontijo também cedia ao senador um flat no hotel Blue Tree,
em Brasília. A VEJA, ele confirmou que conhece Renan Calheiros. "Ele é
meu amigo, nada mais." Ele diz que classifica como maldade as insinuações
de que freqüenta a casa do senador e que, por interesse, lhe presta favores.
"Parei de ir à casa dele desde que ele virou presidente do Senado para
evitar problemas", disse Gontijo. O lobista admite que entregava dinheiro para
quitar as despesas de Mônica Veloso, mas ressalva que o dinheiro não
era nem dele nem da empreiteira. De quem era? "Só posso dizer que não
era meu", responde. O senador Renan Calheiros diz que ele mesmo era o dono dos
recursos. "O dinheiro era meu", afirmou. Se era seu, por que o lobista fazia a
intermediação? Nesse ponto, Renan diz que não falará
mais sobre um assunto que está sob segredo de Justiça. Renan ganha
12.700 reais brutos por mês como senador, que complementa, nas palavras
dele, com "rendimentos agropecuários". Pensão e aluguel, como se
viu anteriormente, somam 16.500 reais. A vida íntima do senador Renan Calheiros
diz respeito apenas a ele próprio. Não é um assunto público.
Mas, quando essas relações se entrecruzam com pagamentos feitos
por um lobista, o caso muda de patamar.
Fotos
Celso Junior/AE e Cristiano Mariz
Guilherme
Palmeira, membro do Tribunal de Contas da União, e o edifício onde o lobista pagava
aluguel de 4 500 reais para o senador Calheiros: uma explicação tortuosa
O lobista Gontijo nega que a Mendes Júnior tenha se beneficiado da proximidade
com Renan Calheiros para conseguir contratos com o governo: "Não temos
nenhuma obra sendo executada no governo federal". Lembrado de que tem contratos
com Infraero, Petrobras e Eletrobrás (todas áreas sob influência
do senador), o lobista retruca: "Para nós, isso é obra privada".
Perguntado sobre o flat que empresta ao senador, encerra a conversa: "Não
vou responder mais nada". O lobista também ajudou a família Calheiros
em campanhas políticas. Nas eleições de 2004, sempre por
trás da contabilidade oficial, contribuiu com as campanhas de Renan Calheiros
Filho (filho do senador), de Robson Calheiros (irmão do senador) e de José
Wanderley (afilhado político do senador). Certa vez, o lobista chegou a
reclamar que os pedidos financeiros de Renan Calheiros estavam exagerados. "Cláudio,
arruma aí, pede emprestado", solicitava o senador, de acordo com a versão
contada pelo lobista a um interlocutor que conversou com VEJA. Não se sabe
o tamanho da ajuda que o lobista deu. Renan Filho foi eleito prefeito de Murici,
Robson Calheiros ganhou a suplência de vereador e o médico José
Wanderley não se elegeu. No ano passado, emplacou como vice do tucano Teotonio
Vilela, governador de Alagoas.
As relações empreiteiro-familiares do clã Calheiros também
envolvem o deputado Olavo Calheiros, outro irmão de Renan. No âmbito
da Operação Navalha, a polícia captou um diálogo entre
Zuleido e Fátima Palmeira, diretora da Gautama, em que eles conversam sobre
uma emenda que teria sido oferecida pelo deputado Calheiros, que beneficiaria
a empresa. "É o seguinte: aqui, o Olavinho passou aquela emenda que ele
tem para a gente", diz Zuleido. "Empreiteiro é bravateiro, quer vender
prestígio", justifica Olavo Calheiros, informando que a emenda foi apresentada
há dez anos. Pode ser mesmo uma bravata, mas o deputado Olavo Calheiros
sempre atuou como uma espécie de abre-alas para empreiteiros amigos. Zuleido,
quando tinha dificuldades para se encontrar com ministros para tratar de licitações
de obras e liberações de recursos, acionava Olavo Calheiros. O deputado
marcava audiência com o ministro e levava o empreiteiro na bagagem. Dois
ex-ministros de Lula relataram a VEJA que receberam Olavo Calheiros em audiências
às quais ele, de surpresa, apareceu acompanhado pelo empreiteiro Zuleido
Veras.
Fotos
reprodução
Na
imagem à esquerda, Fátima Palmeira, diretora da Gautama, flagrada pela
Polícia Federal em um aeroporto; na foto à direita, ela aparece na posse
do parente Guilherme Palmeira, no TCU
As investigações sobre a Gautama de Zuleido Veras também
mostram que os tentáculos do empreiteiro chegavam ao Tribunal de Contas
da União. Em uma conversa captada pela polícia, Zuleido insinua
ter acesso privilegiado a pelo menos dois ministros do TCU Augusto Nardes
e Guilherme Palmeira, parente de uma personagem importante do escândalo,
Maria de Fátima Palmeira, diretora comercial da Gautama. Renan Calheiros
também é íntimo de Guilherme Palmeira. Em 2004, Palmeira
chegou a informar o senador a respeito do curso do processo que tramitava no Tribunal
Superior Eleitoral sobre a cassação do então governador de
Alagoas, Ronaldo Lessa assunto que interessava a Renan Calheiros. A VEJA,
o ministro Guilherme Palmeira confirma que é amigo de Renan, conhece Zuleido
Veras, mas diz que nunca atuou em processos de interesse da Gautama. "Ao menos
que eu me lembre, não!" Conta que chegou até a receber algumas vezes
Fátima no gabinete, mas encaminhou-a ao relator dos processos. O ministro,
de fato, tem memória fraca. Ele foi relator do processo número 008
887/2002, que apura irregularidades num contrato da Gautama com a prefeitura de
Porto Velho. Consultado por VEJA, mas sem conhecer o caso concreto, o advogado
Roberto Caldas, membro da Comissão de Ética Pública da Previdência,
diz que a relação financeira entre um parlamentar e um lobista de
empreiteira é condenável. Diz ele, falando em tese: "Evidentemente,
esse tipo de relação é inaceitável para alguém
que ocupe um cargo público".