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É
o que falta no
Brasil, pois não?
Biografia de Eça de Queiroz traz
uma
lição útil: o que significa ser
um intelectual de verdade
João Gabriel de Lima
Divulgação
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| Eça
de Queiroz: contra as idéias feitas |
Guardadas as proporções, o Portugal da segunda metade do
século XIX tinha alguma semelhança com o Brasil de hoje.
O país passava por uma fase de democracia, havia liberdade de expressão
e dificilmente alguém era perseguido por suas opiniões.
Os intelectuais, no entanto, não sabiam usar tal liberdade. Havia
um clima de compadrio, um evitava criticar o outro. Muitos se refestelavam
em cargos públicos e, por causa desse rabo preso, silenciavam em
relação às mazelas políticas. Nesse contexto
modorrento, Eça de Queiroz surgiu para bagunçar o coreto.
Uma bela biografia do autor de Os Maias acaba de ser lançada
em Portugal (a editora Record promete colocar o livro no mercado brasileiro
no segundo semestre). Só o fato de Eça, ao lado de Machado
de Assis, ser o maior romancista em língua portuguesa já
justificaria a compra do volume. Mas há mais. Escrito pela socióloga
lisboeta Maria Filomena Mônica, Vida e Obra de José
Maria Eça de Queiroz tem entre seus pontos fortes o mapeamento
da atividade de Eça como polemista. O que fica da leitura é
uma lição sobre a maior função de um intelectual
insurgir-se contra as idéias estabelecidas.
O primeiro passo do escritor foi deixar as ilusões patrióticas
de lado e reconhecer que vivia numa nação periférica.
Desde o início da carreira, Eça destoava no coro dos que
achavam que literatura era beletrismo, que a missão do escritor
era glorificar o idioma e, por extensão, a pátria. Eça
se perguntava: glorificar o quê? Ainda jovem, ele residira nas cidadezinhas
de Évora e Leiria, onde havia tomado contato com as "raízes
portuguesas". Traduzindo: saraus literários de segunda, a política
mesquinha dos currais eleitorais e a intolerância religiosa. Diante
desse quadro, duas providências se seguiram. Em primeiro lugar,
o escritor fundou um jornal satírico, As Farpas, destinado
a expor os defeitos de sua terra. Depois, resolveu dar o fora. Para tanto,
entrou para o serviço diplomático. Eça até
que gostava da Lisboa da época, com seus movimentados cafés,
mas queria mais: Paris, Londres, Nova York. Foi como cônsul na cidade
britânica de Newcastle que Eça escreveu o romance O Crime
do Padre Amaro, uma crítica ácida aos maus costumes
lusitanos. Vistos da fervilhante Inglaterra pós-Revolução
Industrial, eles pareciam mais nocivos e provincianos ainda.
Muitos
acreditam que Eça era um tanto volúvel em suas avaliações.
De fato, ao examinar seus escritos romances, folhetins, peças
jornalísticas e relatórios diplomáticos , a
primeira impressão que se tem é de que dava cabeçadas
para todos os lados. Por exemplo: foi chamado de socialista porque defendeu
greves de operários, mas muitos de seus escritos pendem para o
lado dos patrões. Na verdade, Eça era um independente. Rejeitava
clichês de qualquer escola ou ideologia. Ele analisava minuciosamente
cada caso e só depois tomava uma posição, como convém
a alguém que preza a honestidade de pensamento. Seu lado liberal
é expresso na defesa que fazia do livre comércio, numa época
em que os portugueses tinham pavor da abertura de fronteiras. Eça
aderiu a essa tese ao invejar a prosperidade da Inglaterra, o país
de economia mais aberta da época. Alguns tentaram enfiar-lhe a
camisa preta de fascista. A pecha surgiu por causa de uma leitura mal-intencionada
que o regime salazarista fez do romance A Cidade e as Serras, apresentado
como uma volta ao berço cultural português. A bobagem é
sem tamanho. O livro é sobretudo uma sátira aos excessos
do cosmopolitismo.
O escritor provavelmente odiaria o livro de Maria Filomena Mônica.
Pela simples razão de que não queria ser biografado. Achava
que se um homem de letras não escrevesse um livro de memórias,
ninguém teria o direito de fazê-lo depois de sua morte. Ele
gostava de dizer que não vivera nada de interessante. Modéstia.
Na juventude, descobriu as técnicas orientais de sexo e os prazeres
de uma boa massagem durante uma viagem ao Egito, a pretexto de cobrir
a inauguração do Canal de Suez. Como diplomata, morou em
Cuba, na Inglaterra e na França. Nos tempos de solteiro, fez mais
de uma vez o papel de amante de mulheres casadas. Tratava-as como o Basílio
de seu livro mais conhecido: quando elas se apaixonavam, ele dava no pé.
Portanto, quando criou a personagem Luísa, a esposa virtuosa que
cede aos encantos do primo lascivo, falava com conhecimento de causa.
O Primo Basílio escandalizou Portugal. No Brasil, foi espinafrado
por Machado de Assis. Maria Filomena Mônica especula sobre a zanga
do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas (veja
quadro abaixo). Quando atacou o livro, em 1878, Machado ainda era
um escritorzinho de segunda, autor de folhetins açucarados. Talvez
a crítica tenha sido fruto do despeito. Foram necessários
21 anos para que Machado conseguisse dar forma a uma personagem feminina
tão fascinante quanto a Luísa de Eça: a Capitu de
Dom Casmurro.
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Tons
de chocolate
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| Machado:
ele espinafrou o autor de O Primo Basílio |
É
difícil averiguar o que terá levado Machado de Assis
a ser tão injusto com Eça. Há quem tenha defendido
que a sua animosidade nada tinha a ver com a obra que criticara.
Em fevereiro de 1872, Eça tinha publicado, em As Farpas,
um artigo sobre os brasileiros. Nesse artigo, o brasileiro
ou antes o seu estereótipo era visto como um ser grosso,
ordinário e com tons de chocolate. Apesar das cautelas tomadas
Eça dizia transmitir apenas a opinião pública
, o artigo foi mal recebido no Brasil. A frase sobre os brasileiros
terem "tons de chocolate" pode ter ferido Machado de Assis, que
era filho de um mulato do Rio de Janeiro.
Trecho
de Vida e Obra de
José Maria Eça de Queiroz
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