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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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FALTA DE VONTADE

Veja quais são os principais distúrbios sexuais das brasileiras

AUSÊNCIA DE DESEJO
35%

FALTA DE ORGASMO
30%

DIFICULDADE DE EXCITAÇÃO
21%

DOR DURANTE A PENETRAÇÃO
18%

Fonte: Pesquisa "Estudo do Comportamento Sexual do Brasileiro", coordenada pelos médicos Carmita Abdo e Edson Moreira Jr., que inclui 1474 mulheres

 

"Sempre tive todos os problemas sexuais dos quais a medicina fala hoje: não sentia desejo, não conseguia chegar ao orgasmo, não me excitava e tinha dores terríveis durante a penetração. Perdi muitos namorados. Toda vez que a relação ia ficando mais íntima, eu me afastava com medo de chegar a hora de transar e eles perceberem que eu era fria. Comecei a ler sobre o assunto e há três meses procurei um ginecologista. Clinicamente, não havia nada de errado comigo. Ele me recomendou terapia e me receitou Parlodel, que aumentaria meu desejo. De fato, aumentou, e bastante. Hoje, já consigo ter prazer sozinha, fico com vontade de ver uns filmes e tal. Não sei como vou funcionar quando estiver com outra pessoa, porque não tenho uma relação séria no momento. Mas estou com vontade de ter. Se tiver prazer com ela, ótimo. Se não tiver, pelo menos vou ter tentado. Fingir é que não vou mais."

B., gerente de loja, 33 anos, solteira

 

"Minha vida sexual era normal até há quatro anos, quando tive de retirar os ovários. Depois da cirurgia, meu interesse por sexo caiu a zero. O pior é que o médico que me operou nem sequer mencionou a possibilidade de que isso acontecesse. O primeiro tratamento que fiz era à base de testosterona injetada. Foi uma coisa muito forte, fiquei louca mesmo. Acontecia de eu estar no trabalho às 10 da manhã e ter de ir correndo para casa. De lá, telefonava para o meu marido: 'Você tem de vir para cá agora, porque eu não estou agüentando mais'. Graças a Deus, essa fase passou. Agora uso uma pomada vaginal também à base de testosterona, só que com uma dosagem bem mais fraca. Mantém o meu desejo, mas sem aquele exagero. Na verdade, meu marido gostou muito do remédio anterior, mas eu não quis continuar. Deus me livre, aquela não era eu."

C., diretora de RH, 50 anos, casada há 25

 

PASSO-A-PASSO DE UM ORGASMO

1. Aos 34 anos de idade, casada há cinco, a fisioterapeuta mineira S. nunca havia tido um orgasmo. De família de classe média alta de Belo Horizonte, teve formação católica e chegou a fazer noviciado. "Tanto em casa como no convento, sempre ouvi que masturbação era pecado", conta. Casou-se com o primeiro namorado. "Sempre amei o meu marido, mas o sexo com ele era praticamente uma obrigação", conta.

2. O nascimento do primeiro filho desencadeou uma profunda depressão pós-parto. A falta de desejo transformou-se em aversão ao sexo. O casamento ficou abalado. "Eu achava que era anormal ou, então, que todas as minhas amigas eram mentirosas. Não entendia por que não conseguia sentir o que elas sentiam."

3. S. decidiu procurar ajuda. Consultou um ginecologista especializado em terapia sexual. O exame clínico revelou que, além de depressão, ela sofria de hipotiroidismo, disfunção que pode afetar o desejo sexual.

4. Juntamente com o tratamento de saúde, S. começou a fazer terapia específica. Numa das primeiras consultas, o médico pediu que ela se despisse e observasse seu corpo com um espelho. Mostrou-lhe a vagina e o clitóris. Explicou a função de cada um e pediu que ela reservasse meia hora por dia para se tocar, identificando o que poderia lhe dar prazer.

5. O marido de S. também entrou na terapia. A cada vez que iam juntos ao consultório, saíam de lá com uma "tarefa". Numa delas, deveriam aprontar-se caprichosamente para um jantar durante o qual nenhum dos dois falaria de problemas. De volta para casa, poderiam fazer o que quisessem no campo das carícias, com exceção do ato sexual em si.

6. Durante uma das sessões de terapia do casal, S. decidiu confessar que a obesidade do marido era uma das coisas que contribuíam para sua falta de desejo. Generoso e compreensivo, o marido entrou em dieta.

7. O primeiro orgasmo aconteceu um mês depois do início do tratamento, pelo método mais eficiente. "Estava sozinha em casa fazendo os exercícios de toque. Quase não acreditei quando aconteceu, fiquei louca de alegria. Pensei: é isso o que eu quero."

8. O prazer com o marido veio logo em seguida. "Depois que consegui sozinha, tomei coragem e comecei a dizer para ele o que era bom para mim e de que forma gostaria que ele me tocasse."

9. Hoje, S. está curada da depressão e continua usando medicamentos para controlar o hipotiroidismo. O marido já perdeu 20 quilos. A vida sexual, diz, melhorou cem por cento. "Mas ainda sou uma aprendiz. Dou graças a Deus por ter tidocoragem de procurar ajuda. Olho para minhas primas e tias e tenho certeza de que elas estão perdendo a mesma coisa que eu perdi por tanto tempo. Sinto muita pena delas."

 
Fonte: Ramon Luiz Braga Dias Moreira, autor do livro Medicina e Sexualidade, editora Medsi, Rio de Janeiro

 



   
 
   
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