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Muito prazerCom
terapias e drogas que aumentam o
Thaís
Oyama
A nova revolução sexual está sendo gestada nos laboratórios. O estudo da sexualidade da mulher, até recentemente restrito aos profissionais do divã, começa a avançar impulsionado pela medicina. A cada dia, pesquisadores descobrem novas causas orgânicas para os problemas femininos mais comuns quando o assunto é prazer: falta de desejo, ausência de orgasmo, dificuldade em chegar à excitação e dor durante o sexo convencional. São queixas que, no país, atrapalham a vida sexual de nada menos que 54% das brasileiras, segundo pesquisa coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas, de São Paulo, e patrocinada pelo laboratório Pfizer. O que a medicina pode fazer por elas? No campo das promessas, muito, muitíssimo: os grandes laboratórios farmacêuticos estão obcecados pela busca da "pílula do orgasmo", e aí reside a expectativa da tal revolução química do prazer. Na prática corrente, já se faz bastante especialmente quando se compara a situação atual com a de dez anos atrás. Mas ainda é muito pouco, se a referência for o que a medicina já pode fazer pelos homens. Tome-se o exemplo do Viagra. Lançado há três anos, ele ajudou a melhorar a vida sexual de mais de 13 milhões de homens em todo o planeta. A pílula contra a impotência recuperou casos médicos perdidos, levantou a auto-estima dos muito inseguros, pôs um brilho nos olhos de idosos que já haviam desistido de certas alegrias da vida. As mulheres assistiram a essa reviravolta com uma ponta de inveja e um bocado de esperança. Natural que se perguntem por que, afinal, ninguém ainda inventou um Viagra para elas. Ao pé da letra, panacéias que partem do mesmo princípio já existem (o próprio comprimido azul tem sido testado em mulheres). Os resultados, porém, são pífios. Como o efeito da droga e seus similares é, basicamente, aumentar o fluxo sanguíneo para o pênis procedimento que resulta na ereção , os "Viagras femininos" seguem o mesmo padrão, intensificando o volume de sangue nos órgãos genitais da mulher. Com isso, provocariam o intumescimento do clitóris e o aumento da lubrificação vaginal. Ocorre que mulheres têm menos dificuldade de atingir esse estado naturalmente do que os homens de conseguir a ereção. O sonho da imensa maioria do contingente insatisfeito é outro. Mulheres querem algo que: 1) ajude-as a ter mais desejo e 2) facilite a chegada ao orgasmo. Para atendê-las, a ciência tem de ser capaz de resolver mais do que o problema quase mecânico da lubrificação: precisa desvendar os meandros do complexo processo da sexualidade da mulher, a começar pela orquestra hormonal que rege o prazer feminino, muito mais intrincada e flutuante que a masculina. (Um pouco de "mecânica", no entanto, não atrapalha. Impulsionados pelo interesse em perscrutar os caminhos do orgasmo, especialistas em anatomia estão mapeando a malha de feixes nervosos situados na região pélvica da mulher. Sim, parece inacreditável, especialmente quando se considera que a ciência vasculha os confins do universo, mas a anatomia feminina ainda não é conhecida em toda a sua extensão. Há conclusões instigantes. Cheque seus conhecimentos nesse campo no teste sobre a fisiologia feminina). A maioria dos tratamentos pró-sexuais é esse o nome técnico que já existem no mercado mira justamente nas alterações hormonais que podem comprometer a satisfação da mulher (veja quadro). A testosterona que dispara o gatilho do desejo, o estrogênio que prepara o corpo para o sexo tudo isso, já se sabe, encolhe na menopausa. É avaliando esses efeitos que a medicina vem procurando compensar os desequilíbrios hormonais, e os laboratórios têm desenvolvido métodos cada vez mais eficientes de repor o que falta. Os benefícios se estendem às mulheres com disfunções nessa área em todas as faixas etárias. Ocorre, previsivelmente, que os problemas sexuais da mulher têm uma multiplicidade de causas. As dificuldades de irrigação sanguínea, as descompensações hormonais e outras disfunções fisiológicas têm como agravantes as barreiras psicológicas. Quase meio século depois da revolução de costumes que liberou a porteira do prazer sexual para a mulher, as "vozes" da repressão instaladas no fundo da psique feminina ainda emperram o caminho da satisfação. Isso tudo sem contar parceiros que, espantosamente, continuam ignorantes do bê-á-bá do orgasmo feminino. Uma em cada duas brasileiras tem algum tipo de queixa na área da satisfação sexual em determinada fase da vida. Três em cada dez desconhecem o orgasmo na relação sexual proporção que aparentemente se manteve estável nas últimas décadas. O que mudou, segundo o diagnóstico traçado nos consultórios dos especialistas, foi a disposição feminina de procurar soluções. Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, o ginecologista e terapeuta sexual Nelson Vitiello provou essa mudança de comportamento na ponta do lápis. Em 1975, ele conduziu uma pesquisa com 600 mulheres atendidas em um ambulatório de ginecologia de São Paulo. Descobriu que, do total das pacientes que apresentavam disfunções sexuais, apenas 2% haviam comparecido ao hospital para tratar delas. Na imensa maioria dos casos, a identificação dos distúrbios se deu por meio daquilo que os médicos chamam de "achado" revelações encontradas casualmente no decorrer das consultas ou dos exames. Em 1998, Vitiello repetiu a pesquisa. Constatou que o índice de disfunções se mantinha praticamente inalterado. A novidade era o número de pacientes que haviam procurado o ambulatório com a intenção assumida de resolver seus problemas de cama: quase um quarto do total. A insatisfação da atual geração de adultas jovens (as mulheres insatisfeitas costumam recorrer aos especialistas por volta dos 30 anos, quando concluem que já experimentaram o suficiente para saber que está faltando alguma coisa) pode até ser parecida com a de suas antecessoras. A diferença é que elas agora reclamam. Encontrar a resposta para essas queixas é o sonho da indústria farmacêutica só para comparar, no ano passado o Viagra despejou 1,2 bilhão de dólares nos cofres de seu fabricante, a Pfizer. A corrida por seu equivalente feminino está preenchendo muitas lacunas. Mesmo para uma ciência jovem como a medicina moderna, o estudo do prazer feminino é coisa recente. A psicanálise foi o primeiro ramo da ciência a aventurar-se no tema o que talvez explique o fato de que, nesse percurso, seu criador tenha cometido alguns dos mais retumbantes equívocos de sua carreira. A célebre teoria de Sigmund Freud sobre a inveja feminina do pênis só perde em estupidez para outra tese formulada pelo pai da psicanálise: a de que as mulheres que não atingiam o prazer pela penetração seriam emocionalmente imaturas. Freud chamou-as de "frígidas". A distinção feita por ele entre tipos de orgasmo, felizmente, foi mais discutida em congressos de psicanalistas do que entre os lençóis, e um bocado de mulheres não deu muita bola para o assunto. Oficialmente, porém, apenas em 1953, com o célebre estudo feito por Alfred Kinsey, a ciência aceitou que era o clitóris, e não a vagina, o gatilho do prazer feminino. Seguiu-se a revolução sexual. As mulheres se emanciparam, sexo e prazer tornaram-se assuntos discutidos na sessão da tarde. A insatisfação, no entanto, persiste. Segundo a pesquisa da psiquiatra Carmita Abdo, 30% das brasileiras não conseguem ter orgasmo durante a relação sexual, contra apenas 10% dos homens que declaram ter o mesmo problema. Por que eles têm mais facilidade em chegar ao prazer do que elas? Para especialistas, uma das respostas decorre do fato de que a maioria das mulheres ainda desconhece o próprio corpo situação que, para os homens, tem menos chances de acontecer. Desde cedo, eles têm uma relação muito mais explícita com seus genitais, já que podem vê-los, tocá-los e senti-los. Mulheres, em compensação, estão destinadas a conviver com uma sexualidade mais oculta sob uma conformação que esconde e dissimula. "Elas só vão saber que têm vagina lá pelos 8 anos, e que têm clitóris por volta dos 13. E, mesmo assim, se forem muito curiosas", afirma a psicóloga Aparecida Favoreto, diretora do Instituto Paulista de Sexualidade. O bombardeio de informações de teor erótico, em vez de ajudar, pode até atrapalhar, especialmente os jovens com pouca ou nenhuma experiência sexual. As repetidas cenas de sexo mostradas no cinema e na TV parecem o sonho do ejaculador precoce: quase nada de preliminares e tudo termina em trinta segundos, com os dois chegando juntinhos ao, digamos, paroxismo do prazer. A médica gaúcha Jaqueline Brendler, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, costuma citar o filme Lendas da Paixão como exemplo deletério da deseducação sexual. No filme, a cunhada do personagem interpretado por Brad Pitt tem com ele sua primeira relação sexual. Em um celeiro, de pé, atinge o orgasmo. Diagnóstico da médica: tudo é completamente improvável. "O orgasmo na primeira relação já é uma ocorrência raríssima", afirma. Sem preliminares, sem estimulação do clitóris e em posição tão pouco confortável, fica praticamente inviável. Nem com Brad Pitt. A "pílula do orgasmo" ajudaria? Os terapeutas sexuais, em geral, recebem de bom grado as contribuições da indústria farmacêutica, mas sempre retornam ao que consideram o cerne da questão: o peso da repressão que ainda paira sobre as mulheres. "Ao contrário do homem, a manifestação da libido feminina é algo reprimido desde a infância", lembra o ginecologista, psicólogo e coordenador do setor de sexologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais Ramon Luiz Braga Dias Moreira. Sua colega, a ginecologista Jaqueline Brendler, analisou durante três anos 35 pacientes portadoras de anorgasmia primária, ou seja, que nunca haviam atingido o orgasmo nem durante o ato sexual nem por meio de masturbação. Concluiu que, fisiologicamente, nenhuma delas tinha nenhum problema. Em compensação, todas apresentavam um ponto em comum: "Cem por cento delas tinham registros de uma educação familiar opressiva, que vinculava sexo a pecado, dor, sofrimento ou perda do autocontrole", diz a médica. Com os meninos, ocorre o contrário. O tio pede ao sobrinho para "mostrar o documento". O pai cutuca o filho quando vê uma coleguinha bonita passar. Tudo converge para uma espécie de salvo-conduto que permite aos homens exprimir os seus desejos. Mesmo no ambiente mais liberal, é raríssimo, quase inexistente, que as meninas sejam estimuladas à experimentação sexual. Ao contrário, são alertadas para os riscos da gravidez indesejada, os perigos das doenças sexualmente transmissíveis e os problemas que a troca constante de parceiros pode causar. "Em resumo, aprendem que sexo dá doença, gravidez e má fama. Não podem aproveitar mesmo", argumenta a psicóloga Aparecida Favoreto. Mesmo que as garotas não liguem muito para tantos avisos, como de fato ocorre, o ambiente de maior liberdade sexual pode jogar contra o prazer. Ao iniciar mais cedo a vida sexual, a jovem queima a etapa do namoro com jogos eróticos o popular "amasso". Essa fase, explica a médica Carmita Abdo, que não inclui o ato sexual em si, funciona como uma espécie de aprendizagem para a vida sexual adulta. Se pode ser tão difícil para um número tão expressivo de mulheres, será que o orgasmo feminino é uma dádiva natural e universal? Por que parece tão complicado chegar a ele? E, afinal, para que serve? A biologia evolutiva, ramo da ciência que procura explicações para perguntas complicadas a partir do ponto de vista do imperativo da reprodução da espécie, tem levantado hipóteses interessantes. Em todos os mamíferos, o clitóris é o equivalente da fêmea ao pênis do macho, dotado da mesma malha de nervos e tecido erétil. Aparentemente, porém, apenas as fêmeas dos chimpanzés e de alguns outros primatas superiores, além, claro, das humanas, têm orgasmo (e as contrações que ele provoca contribuem para a retenção do sêmen, embora evidentemente a concepção independa do prazer feminino). Por que as mulheres podem demorar mais para chegar lá? Da perspectiva evolutiva, pode ter sido vantajoso para as fêmeas humanas, obrigatoriamente mais seletivas, desfrutar de um orgasmo menos rápido do que o dos machos. Outra hipótese, deliciosamente engenhosa, é que o clitóris tenha "migrado" para um ponto um pouco mais distante da vagina, dificultando a sua estimulação direta durante a penetração, movido pela adaptação evolutiva: a cria humana tem a cabeça muito grande para abrigar o cérebro da espécie e, ao nascer, poderia danificar o delicado órgão do prazer. A imaginação delirante dos especialistas em biologia evolutiva dificilmente vai ajudar uma única mulher insatisfeita a ter um orgasmo. Isso é tarefa que a própria interessada tem de assumir, embarcando num caminho de autoconhecimento, em todos os sentidos, e de responsabilidade por seu próprio prazer. Se um hormônio aqui, um cremezinho ali, ajudar excelente.
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