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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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Registros da terra nostra

Novo dicionário de sobrenomes
lista famílias chegadas ao Brasil
a
partir de meados do século XIX

Flavia Varella

O primeiro tomo duplo do Dicionário das Famílias Brasileiras tinha 2.385 páginas recheadas de informações que fizeram a festa dos sobrenomes tipicamente portugueses. Vem aí agora o segundo, com lançamento marcado para esta segunda-feira – um peso-pesado também em dois volumes, com 2 501 páginas e quase meio quilo a mais (totalizando 8 quilos). Enquanto o primeiro Dicionário cobre o período que vai do descobrimento do Brasil até cerca de 1880, este segundo inclui as ondas imigratórias posteriores, e seu sotaque é um misto de italiano, espanhol, inglês, japonês, francês e árabe. "Cerca de 70% do novo livro corresponde aos sobrenomes que desembarcaram por aqui entre 1890 e 1950", diz Carlos Eduardo de Almeida Barata, um dos autores, juntamente com o deputado e genealogista militante Antônio Henrique da Cunha Bueno. Em comum, os dois tomos têm o mérito de formar o instrumento mais valioso existente hoje para os brasileiros interessados em garimpar informações sobre seus antepassados.


Navio com imigrantes japoneses no Porto de Santos: fruto da crise econômica

Só de italianos, o novo dicionário tem quase 12.000 verbetes, aproximadamente 75% do total. Essa quase hegemonia reflete a realidade histórica: a partir da década de 70 do século XIX, o número de italianos desembarcados nessa terra nostra cresceu tanto que se aproximou dos campeões, os portugueses. Juntas, as duas nacionalidades abarcam a imensa maioria dos cerca de 5,5 milhões de estrangeiros que, quase todos tocados por crises econômicas em seus países, vieram morar no Brasil entre 1872 e 1972. Outro motivo para tanta família italiana é a rica variação sobre o mesmo tema que caracteriza os sobrenomes italianos. "Embora menos numerosos que os portugueses, eles têm uma variedade muito maior de nomes", explica Barata. Assim, além dos Bianchi, há os Bianche, Bianchedi, Bianchet, Bianchietto, Bianchin, Bianchini, Bianchino, Bianchy, Bianco, Biancone, Bianconi, Biancucci... À criatividade italiana acrescentaram-se no Brasil os erros dos escreventes do serviço de imigração que anotavam o que ouviam, não o que viam. No dicionário, cada variação corresponde a um verbete, muitas vezes contendo o registro de apenas uma família. Os portugueses registram menos nomes e menos verbetes, mas um único deles – os Silva, naturalmente – ocupa oito páginas. Ainda assim, abrange mais os imigrantes recentes, chegados a partir do fim do século XIX, o que deixará muita gente frustrada (em compensação, todo o impronunciável clã polonês dos Grzybczyk provavelmente se dará por devidamente registrado).

 
OS SUZUKI
O dicionário lista 66 famílias Suzuki, os Silva do Japão. O nome significa uma espécie de estaca que se coloca sobre as ramas de arroz. Arrozais são referência para muitos sobrenomes japoneses, mesmo em famílias que não trabalhavam com isso, caso de Kihei Suzuki, dono de uma fábrica de seda que, aos 36 anos, passou o negócio para os irmãos e embarcou para o Brasil com a mulher e cinco filhos. Trabalhou em lavoura de café, foi dono de fazenda no Paraná e, por fim, aposentou-se em São Paulo, onde morreu em 1976. "Ele sempre lidou com café, mas em casa só tomávamos chá", lembra o filho caçula, Bunshiro

Na compilação dos milhares de documentos, papéis, anotações e livros, Cunha Bueno e Carlos Barata confirmaram que cada nacionalidade tem seu "silva" no Brasil. O dos sírio-libaneses, por exemplo, é o sobrenome Habib. O dos franceses, o Bittencourt. Os sobrenomes japoneses mais populares são os que se originaram das montanhas e dos arrozais. Suzuki, o campeão, é nome de uma estaca que se finca no meio do monte de ramas de arroz para segurá-lo. No dicionário, estão registradas 66 famílias com esse sobrenome. Para muitas delas, o livro informa detalhes como a cidade de origem do imigrante e o nome do vapor em que fez a viagem para o outro lado do mundo, bem como o local onde se fixou, em geral para trabalhar na lavoura.

 
OS HABIB
Sobrenome mais comum entre os imigrantes de origem árabe, significa querido. O libanês Gabriel Habib veio para o Brasil em 1909, com 15 anos, para se encontrar com dois irmãos, donos de loja de tecidos. Foi o primeiro comerciante da Rua da Alfândega, reduto carioca de atacadistas, a vender no varejo. Hoje, seu filho Demetrio comanda três lojas de brinquedos, onde trabalham três de seus irmãos e quatro netos do patriarca Gabriel. "Todos brasileiros e todos Habib", orgulha-se

Vermelhos e gagos – A origem dos sobrenomes, em geral, varia conforme o período da História. Nos séculos XII e XIII, quando se começou a usar nomes hereditários (antes, existiam apenas prenomes), os grandes proprietários adotaram o nome de suas terras. Essas propriedades viraram núcleos das cidades que se iam formando e vários moradores das redondezas também passaram a se identificar como de Almeida ou D'Avila, conforme o local de onde vinham. Alcunhas e profissões também viraram nomes oficiais. Assim, surgiram as famílias Gago, Calvo, Manso e Ferreira. Rossi, o silva dos italianos segundo o Dicionário das Famílias, pode ter sua origem na cor da pele e do cabelo (rosso, ou vermelho) das primeiras pessoas, certamente ruivas, a adotar esse sobrenome. Também se tornaram comuns os patronímicos, que indicam simplesmente que se é filho de fulano de tal. Para os portugueses, isso acontece com os nomes terminados em es. Fernandes é o filho do Fernando, Bernardes, filho do Bernardo. Também aconteceu de muitos imigrantes, ao chegar ao Brasil, trocarem o nome dos antepassados pelo da cidade de onde vieram – daí os Lisboa, os Oliveira, os Roma.


Trem parte para o interior: mão-de-obra para a lavoura


Para compor o primeiro tomo do dicionário, os dois autores usaram o material que tinham em casa, fruto de mais de trinta anos de pesquisa em arquivos públicos, registros de igrejas, inventários, testamentos e manuscritos, além da garimpagem de documentos em leilões e sebos. "Juntamos o que dois fanáticos por genealogia tinham, pesquisamos mais um pouco e escrevemos", conta o deputado Cunha Bueno. Para o segundo, eles basearam-se principalmente em papéis que lhes foram enviados por consulados e associações culturais de italianos, japoneses, sírio-libaneses. "Durante um ano, eu recebia pacotes com documentos quase todos os dias", conta Barata. "O resultado é que temos material para mais quatro ou cinco dicionários." Os dois editados possuem 32.000 verbetes – e mesmo assim têm enormes lacunas. Calma: o genealogista Barata garante que já tem informação para outros 500.000. Parte disso será publicada até o final do ano num novo dicionário, desta vez só de sobrenomes italianos. Terá 30.000 verbetes distribuídos em cinco volumes. Vai bater o recorde dos 8 quilos do lançamento desta semana.

 
OS ROSSI
Entre os italianos que vieram para o Brasil, Rossi é o sobrenome mais popular, originário de alcunhas relativas à cor da pele e do cabelo e de aldeias chamadas Rossi. O milanês Luigi Rossi chegou em 1935, com a mulher, Ester, e quatro filhos, para encontrar outros dois filhos que já viviam aqui. Luigi montou uma ótica em São Paulo. Cinco filhos tornaram-se donos de óticas e o sexto formou-se oftalmologista


   
 
   
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