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Registros da terra
nostra
Novo
dicionário de sobrenomes
lista
famílias chegadas ao Brasil
a partir
de meados do século XIX

Flavia Varella
O
primeiro tomo duplo do Dicionário das Famílias Brasileiras
tinha 2.385 páginas recheadas de informações
que fizeram a festa dos sobrenomes tipicamente portugueses. Vem aí
agora o segundo, com lançamento marcado para esta segunda-feira
um peso-pesado também em dois volumes, com 2 501 páginas
e quase meio quilo a mais (totalizando 8 quilos). Enquanto o primeiro
Dicionário cobre o período que vai do descobrimento
do Brasil até cerca de 1880, este segundo inclui as ondas imigratórias
posteriores, e seu sotaque é um misto de italiano, espanhol, inglês,
japonês, francês e árabe. "Cerca de 70% do novo livro
corresponde aos sobrenomes que desembarcaram por aqui entre 1890 e 1950",
diz Carlos Eduardo de Almeida Barata, um dos autores, juntamente com o
deputado e genealogista militante Antônio Henrique da Cunha Bueno.
Em comum, os dois tomos têm o mérito de formar o instrumento
mais valioso existente hoje para os brasileiros interessados em garimpar
informações sobre seus antepassados.
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| Navio
com imigrantes japoneses no Porto de Santos: fruto da crise econômica |
Só de italianos, o novo dicionário tem quase 12.000 verbetes,
aproximadamente 75% do total. Essa quase hegemonia reflete a realidade
histórica: a partir da década de 70 do século XIX,
o número de italianos desembarcados nessa terra nostra cresceu
tanto que se aproximou dos campeões, os portugueses. Juntas, as
duas nacionalidades abarcam a imensa maioria dos cerca de 5,5 milhões
de estrangeiros que, quase todos tocados por crises econômicas em
seus países, vieram morar no Brasil entre 1872 e 1972. Outro motivo
para tanta família italiana é a rica variação
sobre o mesmo tema que caracteriza os sobrenomes italianos. "Embora menos
numerosos que os portugueses, eles têm uma variedade muito maior
de nomes", explica Barata. Assim, além dos Bianchi, há os
Bianche, Bianchedi, Bianchet, Bianchietto, Bianchin, Bianchini, Bianchino,
Bianchy, Bianco, Biancone, Bianconi, Biancucci... À criatividade
italiana acrescentaram-se no Brasil os erros dos escreventes do serviço
de imigração que anotavam o que ouviam, não o que
viam. No dicionário, cada variação corresponde a
um verbete, muitas vezes contendo o registro de apenas uma família.
Os portugueses registram menos nomes e menos verbetes, mas um único
deles os Silva, naturalmente ocupa oito páginas.
Ainda assim, abrange mais os imigrantes recentes, chegados a partir do
fim do século XIX, o que deixará muita gente frustrada (em
compensação, todo o impronunciável clã polonês
dos Grzybczyk provavelmente se dará por devidamente registrado).
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OS
SUZUKI
O
dicionário lista 66 famílias Suzuki,
os Silva do Japão. O
nome significa uma espécie
de estaca que se coloca
sobre as ramas de
arroz. Arrozais são referência
para muitos sobrenomes
japoneses, mesmo
em famílias que não trabalhavam
com isso, caso de Kihei Suzuki, dono de uma fábrica
de seda que, aos 36
anos, passou o negócio para
os irmãos e embarcou para
o Brasil com a mulher e
cinco filhos. Trabalhou em lavoura de café, foi dono
de
fazenda no Paraná e, por
fim, aposentou-se em
São Paulo, onde morreu
em 1976. "Ele
sempre lidou com café,
mas em casa só tomávamos
chá", lembra o
filho caçula, Bunshiro |
Na
compilação dos milhares de documentos, papéis, anotações
e livros, Cunha Bueno e Carlos Barata confirmaram que cada nacionalidade
tem seu "silva" no Brasil. O dos sírio-libaneses, por exemplo,
é o sobrenome Habib. O dos franceses, o Bittencourt. Os sobrenomes
japoneses mais populares são os que se originaram das montanhas
e dos arrozais. Suzuki, o campeão, é nome de uma estaca
que se finca no meio do monte de ramas de arroz para segurá-lo.
No dicionário, estão registradas 66 famílias com
esse sobrenome. Para muitas delas, o livro informa detalhes como a cidade
de origem do imigrante e o nome do vapor em que fez a viagem para o outro
lado do mundo, bem como o local onde se fixou, em geral para trabalhar
na lavoura.
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OS
HABIB
Sobrenome mais comum entre os imigrantes de origem árabe, significa
querido. O libanês Gabriel Habib veio para o Brasil em 1909, com 15
anos, para se encontrar com dois irmãos, donos de loja de tecidos.
Foi o primeiro comerciante da Rua da Alfândega, reduto carioca de
atacadistas, a vender no varejo. Hoje, seu filho Demetrio comanda
três lojas de brinquedos, onde trabalham três de seus irmãos e quatro
netos do patriarca Gabriel. "Todos brasileiros e todos Habib", orgulha-se |
Vermelhos
e gagos A origem dos sobrenomes, em geral, varia conforme o
período da História. Nos séculos XII e XIII, quando
se começou a usar nomes hereditários (antes, existiam apenas
prenomes), os grandes proprietários adotaram o nome de suas terras.
Essas propriedades viraram núcleos das cidades que se iam formando
e vários moradores das redondezas também passaram a se identificar
como de Almeida ou D'Avila, conforme o local de onde vinham. Alcunhas
e profissões também viraram nomes oficiais. Assim, surgiram
as famílias Gago, Calvo, Manso e Ferreira. Rossi, o silva dos italianos
segundo o Dicionário das Famílias, pode ter sua origem
na cor da pele e do cabelo (rosso, ou vermelho) das primeiras pessoas,
certamente ruivas, a adotar esse sobrenome. Também se tornaram
comuns os patronímicos, que indicam simplesmente que se é
filho de fulano de tal. Para os portugueses, isso acontece com os nomes
terminados em es. Fernandes é o filho do Fernando, Bernardes,
filho do Bernardo. Também aconteceu de muitos imigrantes, ao chegar
ao Brasil, trocarem o nome dos antepassados pelo da cidade de onde vieram
daí os Lisboa, os Oliveira, os Roma.
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| Trem
parte para o interior: mão-de-obra para a lavoura |
Para compor o primeiro tomo do dicionário, os dois autores usaram
o material que tinham em casa, fruto de mais de trinta anos de pesquisa
em arquivos públicos, registros de igrejas, inventários,
testamentos e manuscritos, além da garimpagem de documentos em
leilões e sebos. "Juntamos o que dois fanáticos por genealogia
tinham, pesquisamos mais um pouco e escrevemos", conta o deputado Cunha
Bueno. Para o segundo, eles basearam-se principalmente em papéis
que lhes foram enviados por consulados e associações culturais
de italianos, japoneses, sírio-libaneses. "Durante um ano, eu recebia
pacotes com documentos quase todos os dias", conta Barata. "O resultado
é que temos material para mais quatro ou cinco dicionários."
Os dois editados possuem 32.000 verbetes e mesmo assim têm enormes
lacunas. Calma: o genealogista Barata garante que já tem informação
para outros 500.000. Parte disso será publicada até o final
do ano num novo dicionário, desta vez só de sobrenomes italianos.
Terá 30.000 verbetes distribuídos em cinco volumes. Vai
bater o recorde dos 8 quilos do lançamento desta semana.
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OS
ROSSI
Entre
os italianos que vieram
para o Brasil, Rossi é o sobrenome mais popular,
originário
de alcunhas relativas à cor da pele e do cabelo e de
aldeias
chamadas Rossi. O milanês Luigi Rossi chegou em
1935, com a mulher, Ester, e
quatro filhos, para encontrar outros dois filhos que já
viviam
aqui. Luigi montou uma ótica em São Paulo. Cinco filhos
tornaram-se donos de óticas e o sexto
formou-se oftalmologista |
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