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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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De la Rúa & filhos

Com o presidente estranhamente
alheio à
crise argentina, sua família
dá palpite na
política e aproveita o
poder para se divertir

Raul Juste Lores


Editorial Perfil
De la Rúa: um paizão


Durante uma década, a família Menem soube entreter a Argentina com um coquetel de sexo, infidelidade e ostentação, digno de show biz. Cansados do presidente festeiro e do declínio econômico, os argentinos elegeram um sujeito sem graça, Fernando de la Rúa, para colocar ordem no país. Deu tudo errado. A recessão piorou, o desemprego cresceu e o (des)governo De la Rúa, com apenas um ano e meio, é fracasso de crítica e público. O mais surpreendente é que nem assim os argentinos se livraram de uma primeira-família que se diverte em meio ao caos e tira desavergonhado proveito do poder. Não fosse o bastante, na hora de escolher seus auxiliares diretos, o presidente prefere a própria prole e os amigos dos filhos. "Não agüentava ver os filhos do presidente dando palpite em tudo", reclamou o ex-vice-presidente Chacho Alvarez, que renunciou em outubro do ano passado.

Antonito de la Rúa tinha apenas 24 anos quando dirigiu a campanha eleitoral que levou papai à Casa Rosada. Hoje, ele participa de reuniões do ministério (com direito a dar palpites) e indicou diversos amigos para cargos-chave do governo. Seu namoro com a cantora colombiana Shakira fez que pulasse das colunas políticas para as capas das revistas de fofoca. Em respeito à penúria econômica do país, Menem decidiu casar-se com a ex-miss Universo Cecilia Bolocco numa cerimônia discreta, no sábado 26. Sem o mesmo cuidado com a sensibilidade popular, Antonito e Shakira pretendem comprar o antigo apartamento do milionário Eduardo Costantini, em Buenos Aires, por 2,8 milhões de dólares. O primeiro-filho não tem cargo no governo, mas no início do mês encontrou-se em Nova York com executivos dos bancos internacionais para "saber sobre a situação econômica argentina". Domingo Cavallo, o ministro da Economia, ficou furioso, desconfiando de que Antonito investigava a eficácia de suas medidas.


Editorial Perfil
A MAIS VELHA
Agustina, 29 anos, dois filhos. Ninguém consegue explicar em que trabalha o marido, Juan Petracchi. Moram com os sogros na Quinta de Olivos, residência oficial do presidente. O casal viajou nas comitivas oficiais para a China, para o Vaticano e para os Estados Unidos.

O caçula, Aíto, de 25 anos, foi nomeado diretor executivo do site educativo do governo argentino, com salário de 5.000 dólares mensais. Ele quase já não aparece na Universidade de Buenos Aires, onde há sete anos cursa direito, sem conseguir formar-se. Diploma não conta muito para quem é amigo do filho do presidente. O melhor amigo de Antonito, Darío Lopérfido, não tem o 2º grau completo e foi nomeado ministro da Cultura. A filha mais velha de De la Rúa, Agustina, de 29 anos, mudou-se com o marido, Juan Petracchi, e os dois filhos pequenos para a Quinta de Olivos, e viaja com freqüência nas comitivas do pai. O marido vai junto, evidentemente. Aliás, um mistério cerca Petracchi: ninguém sabe em que ele trabalha, se trabalha.


Lucy Nicholson/AFP
O DO MEIO
Antonito, 26 anos, namora a cantora colombiana Shakira. Foi marqueteiro da campanha do pai, indicou amigos para altos postos, como os ministros da Educação, da Cultura e do Trabalho. Fala em nome do governo com executivos de bancos americanos. Cavallo que se cuide


A primeira-dama, Inés Pertiné, não perde viagem internacional. Foi a única primeira-dama não-européia no enterro da mãe do rei Juan Carlos, da Espanha, no ano passado. O irmão caçula do presidente, Jorge de la Rúa, também conseguiu uma boquinha. Começou no governo como secretário-geral da Presidência, cargo em que não impressionou ninguém. Agora é ministro da Justiça. Aliás, um dos poucos empossados em dezembro de 1999 que ainda não caíram. Estranhamente alheio à seriedade da crise, De la Rúa mantém uma agenda folgadíssima. Deixa o batente por conta de Cavallo (imprudência que está azedando as relações com o Brasil) e se ocupa com irrelevâncias, como receber a visita de uma delegação de surdos-mudos. No início de abril, enquanto o mundo inteiro temia um iminente calote na dívida externa argentina, De la Rúa levava toda a família para visitar o papa. Viajou a bordo do Tango Uno, o luxuoso avião da Presidência, o mesmo que prometeu que venderia, porque era um símbolo da ostentação menemista. O encontro no Vaticano durou vinte minutos, mas a família dedicou seis dias ao dolce far niente em Roma. Vários encontros com empresários italianos foram cancelados a pedido da primeira-dama. "Temos de descansar", justificou dona Inés.



Editorial Perfil
O CAÇULA
Depois de sete anos na faculdade de direito, Aíto de la Rúa, de 25 anos, ainda não conseguiu o diploma. Isso não impede que ele seja o diretor-executivo do site educativo do governo argentino, com salário de 5000 dólares. Criou com o irmão uma empresa de consultoria a grandes empresas, Justa Mente. Na foto, ele dá conselhos a Domingo Cavallo.


A explicação dessa igrejinha no poder está na trajetória do presidente, um peso-leve na política. Ao contrário de Menem e Raúl Alfonsín, caciques indiscutíveis de seus partidos, De la Rúa lidera apenas uma facção minoritária dentro da União Cívica Radical, na qual Alfonsín ainda dá as cartas. Só mesmo com a impopularidade dos dois grandes caudilhos e a fragmentação do peronismo De la Rúa conseguiu chegar lá. Ao que parece, aconselhar-se com a própria família não adianta muito. Segundo uma pesquisa do Estudio Broda, uma das maiores consultorias do país, no mandato do apagado presidente a produção industrial caiu 4,7%, o PIB encolheu 1,7%, a arrecadação diminuiu 4,5%, apesar de novos impostos, e o déficit fiscal aumentou em 1 bilhão de dólares se comparado o de janeiro e abril do ano passado ao deste ano.

 
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